Analfabetismo funcional envergonha Brasil
Por Editorial / O GLOBO
O Brasil tem avançado na educação em ritmo muito aquém do razoável — e do necessário. Em 2001, quatro em dez brasileiros de 15 a 64 anos eram considerados analfabetos funcionais, condição em que o indivíduo tem pouca ou nenhuma capacidade de selecionar informações em textos médios e de lidar com operações matemáticas básicas. Passados 23 anos, três em dez ainda estavam nessa situação inaceitável, revela o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), coordenado pela organização Ação Educativa, pela consultoria Conhecimento Social e pela Fundação Itaú, em parceria com Fundação Roberto Marinho, Instituto Unibanco, Unesco e Unicef. Apenas 10% são considerados proficientes em leitura e escrita.
Um dado é particularmente preocupante: não houve melhora desde 2018. Em tempos de inteligência artificial, cerca de 78% têm desempenho baixo ou médio em atividades digitais. Para ter uma ideia de quão desesperadora é a situação do nosso sistema educacional, um em cada dez brasileiros com diploma universitário (12%) é considerado analfabeto funcional.
A pesquisa não se baseia em testes de conteúdo, mas mede o uso de leitura, escrita e matemática. Feita por amostra, é resultado de mais de 2 mil entrevistas presenciais em zonas rurais e urbanas de todas as regiões, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais. Separa a população em cinco categorias: analfabetos, aqueles com conhecimento rudimentar, elementar, intermediário ou proficiente. Analfabetos funcionais são os classificados como analfabetos ou com conhecimentos rudimentares. Os de nível intermediário ou proficiente formam o grupo com alfabetização consolidada.
O levantamento expõe desníveis geracionais e regionais. Na faixa etária dos 15 aos 24 anos, os analfabetos funcionais são 16%, e os que compõem o grupo de alfabetização consolidada 43%. Dos 50 aos 64 anos, a situação se inverte: as proporções são 51% e 20%. Tais números revelam a necessidade de programas educacionais para quem saiu da escola. Em todo o país, cerca de 68 milhões com 18 anos ou mais não concluíram a educação básica.
As iniciativas do Ministério da Educação (MEC) para ampliar e melhorar a oferta de cursos voltados à educação de adultos têm sido incapazes de mudar o quadro. É preciso engajar empresas, estados e municípios, considerando o contexto de vida da população-alvo. O Nordeste, com o maior percentual de analfabetos funcionais, deve receber atenção especial. Quatro em dez nordestinos estão nessa categoria. A região também tem a menor parcela de alfabetizados consolidados (27%).
O desempenho melhor dos mais jovens é consequência da progressiva inclusão educacional desde o início do século. Embora acesso, permanência e qualidade do ensino tenham melhorado, há muito mais por fazer. Alguns estados apresentam desempenho vexatório. Amapá, Bahia, Maranhão e Rio Grande do Norte conseguiram a façanha de ficar entre os cinco piores colocados nas três categorias do ranking brasileiro que mede qualidade do ensino. Estão nos últimos lugares do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) nos anos iniciais (primeiro ao quinto ano), nos anos finais (do sexto ao nono ano) e no ensino médio. É preciso muita negligência e muito descaso para obter tal desempenho.

