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Elo com máfias italianas desafia combate a crime organizado no Brasil

Por Editorial / O GLOBO

 

 

É preocupante a constatação de que máfias italianas têm usado o Brasil para lavar dinheiro do tráfico de drogas com a ajuda de facções criminosas nacionais. Desde 2009, as organizações mafiosas movimentaram R$ 12 bilhões no país, revelou reportagem do GLOBO, com base na análise de investigações brasileiras e estrangeiras. Pelo menos 25 acusados ligados a grupos como Cosa Nostra, ‘Ndrangheta e Camorra foram presos em território nacional nos últimos dez anos.

 

O esquema criminoso é robusto e abrangente, como mostram apurações da Polícia Federal, do Ministério Público e de autoridades europeias. Em 2020, quando investigadores monitoravam conversas de mafiosos da ‘Ndrangheta, depararam com mensagens de um representante da organização na América Latina, que percorria cidades brasileiras estabelecendo parcerias com o Primeiro Comando da Capital (PCC) a fim de escoar carregamentos de droga e lavar o dinheiro do tráfico. Preso em 2021, ele foi extraditado no ano passado para a Itália, onde fechou acordo de delação premiada.

 

Para lavar dinheiro, os mafiosos compram imóveis, usam negócios de fachada em garimpos ilegais da Amazônia e até empresas que prestam serviço ao poder público. Uma das firmas investigadas manteve contratos com o governo da Paraíba e uma prefeitura do estado entre 2017 e 2019. Os acusados costumavam receber assessoria de intermediários que lhes ofereciam empresas e criptodoleiros para lavar os ganhos do crime. Nas investigações, aparecem nomes de corretora de valores, produtora de eventos, distribuidoras de combustíveis e de bebidas. Estudiosos desses grupos dizem que, para os criminosos, o Brasil passou de refúgio a plataforma de negócios.

 

O poderio e o alcance dos traficantes transnacionais assustam. Na semana passada, um submersível com 6,5 toneladas de cocaína foi interceptado na costa de Portugal em operação de autoridades portuguesas e espanholas, com apoio de organismos americanos e britânicos. Dos cinco tripulantes presos, três eram brasileiros. Foi a maior quantidade de cocaína já apreendida na Europa. Autoridades suspeitam de envolvimento do PCC no negócio.

 

O Brasil tem fracassado no combate às organizações criminosas, que atuam com espantosa desenvoltura no país. Trata-se de situação complexa demais para ficar restrita ao âmbito dos estados, uma vez que demanda cooperação com autoridades internacionais, investigações sobre movimentações financeiras e combate em todo o território nacional. Não há como a União não se engajar nessa luta. O próprio secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo, reconheceu que “o Brasil já se encontra num estágio de máfia”. Mas não basta apenas o diagnóstico. É preciso adotar medidas concretas para enfrentar o problema.

 

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, elaborada pelo Ministério da Justiça, vai na direção correta, ao prever maior participação do governo federal no enfrentamento das organizações criminosas. O Estado precisa ser mais ágil que o crime organizado.

 

Apreensão de cocaína em contêiner no porto de Santos (SP)

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