Apagão de dados na saúde é inaceitável
Por Editorial / O GLOBO
São estarrecedoras as informações sobre o Sistema Único de Saúde obtidas pelo GLOBO junto ao Ministério da Saúde. Há registro de 5,7 milhões de brasileiros à espera de consulta e de 600,4 mil aguardando cirurgia. Pelos dados disponíveis, a espera média para cirurgia é de 52 dias, o sêxtuplo da registrada em 2013. Para consulta com especialista, 57 dias (o triplo de 2010). E esses números podem ser ainda piores, pois não há informações regulares e consistentes para 13 estados, entre eles São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul. Dez capitais, incluindo São Paulo e Belo Horizonte, nem sequer estão integradas ao sistema federal.
O apagão de dados sobre saúde — uma das maiores preocupações dos brasileiros de acordo com as pesquisas de opinião — torna impossível fazer uma gestão minimamente aceitável do SUS. Somente depois de questionado pelo GLOBO, o ministério publicou portaria prevendo a criação de um novo sistema de coleta de informação e tornando obrigatório o envio de atualizações sobre o tempo de espera. Motivo para urgência não falta.
Uma das hipóteses para a espera ter aumentado é o represamento durante a pandemia. Quando casos de Covid-19 lotavam os hospitais, consultas e cirurgias não urgentes foram adiadas ou suspensas. Mas isso não explica por que o tempo de espera tem aumentado de forma consistente há pelo menos 16 anos. Não se trata de falta de dinheiro. A despesa federal com saúde cresceu 22% em termos reais desde 2019. Com o fim do teto de gastos, chegou a R$ 202 bilhões no ano passado.
Um fato é inequívoco: a multiplicação de emendas parlamentares torna esse gasto menos eficiente. Estados e prefeituras beneficiados com verbas para hospitais e postos de saúde não são necessariamente aqueles com maior fila de espera, mas sim aqueles cujos deputados ou senadores detêm mais poder no Congresso. No ano passado, as emendas para saúde somaram R$ 27 bilhões.
Criado pela Constituição de 1988, o SUS é uma conquista. Poucos países de renda média têm um serviço de saúde pública com a abrangência do brasileiro. Zelar para que tenha uma gestão de primeira linha deveria ser prioridade. Sem saber quanto tempo os pacientes ficam na fila de espera, não há como tomar as melhores decisões para reduzir o problema. Idas e vindas sem fim em diferentes filas também não fazem sentido. Na saúde, mais que em qualquer outra área do serviço público, escolhas equivocadas têm custo irreparável. Em doenças como câncer, a demora pode ser a diferença entre a vida e a morte.
Garantir informações fidedignas e uma gestão mais eficaz, de modo que a população tenha acesso a saúde de qualidade no momento em que necessita, é a principal missão do recém-empossado ministro Alexandre Padilha. Ele e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva serão cobrados por isso nas urnas.
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