Alta do PIB está alicerçada em bases movediças
Por Editorial / O GLOBO
Depois de crescer 3,2% em 2023, a economia brasileira cresceu ainda mais no ano passado — 3,4%, segundo o dado oficial do IBGE. Trata-se de resultado fora do padrão. O desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) nos dois anos iniciais do atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva foi superior aos obtidos por Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro no mesmo período. A média é igual ou próxima às registradas na metade dos primeiros mandatos de Fernando Henrique Cardoso e do próprio Lula. Nos últimos 30 anos, apenas o início do segundo mandato de Lula apresentou números bem superiores. Poucos previam resultado tão positivo. O desemprego está em nível baixo, 6,5%, a informalidade em queda e o rendimento salarial em alta.
Mas nem tudo é o que parece. Todo esse avanço está alicerçado em bases movediças. A força propulsora tem sido uma política insustentável de gasto público, que acelera o endividamento, já em patamar altíssimo. Anabolizada, a economia ficou superaquecida e agora precisará girar em ritmo mais lento. A desaceleração já se fez sentir no último trimestre de 2024. O quadro fiscal deteriorado e o cenário global incerto têm obrigado o Banco Central (BC) a manter os juros em alta, com impacto negativo na atividade econômica.
Como mostram as pesquisas, Lula não tem conseguido colher os resultados do PIB na forma de popularidade. Um dos motivos é a alta no preço de alimentos. Enquanto a inflação oficial ficou em 4,83% no ano passado, alimentos e bebidas subiram 7,69%. Nos últimos 12 meses, o pó de café aumentou 50%, o contrafilé 20% e o frango 10%. O problema não é novo, mas se tornou mais agudo. Pressionado, o governo anunciou medidas para tentar reverter a alta dos preços, entre elas a isenção de tarifas de importação para produtos como carne, café e óleo de cozinha. A iniciativa é a melhor entre as que foram cogitadas (chegou-se a pensar no absurdo de taxar exportações), mesmo assim deverá ter efeito limitado. Não existe causa única para a carestia, mas uma confluência de fatores: aumento da demanda no Brasil e no exterior, desvalorização cambial, mudanças climáticas e quebra de safras. No curto prazo, a maior esperança do governo é que se cumpra a previsão de safra recorde neste ano. Haveria um alívio.
Na economia como um todo, a expectativa é menos positiva. De olho nas eleições do ano que vem, o governo tem adotado medidas para manter o consumo em alta, como a recente liberação do FGTS para quem aderiu ao saque-aniversário, que injetará R$ 12 bilhões na economia. De um lado, o BC eleva os juros para conter o ritmo da atividade econômica e reduzir a inflação. De outro, o governo afunda o pé no acelerador, para evitar queda maior na aprovação.

