O mundo não vai esperar pelo Brasil
Por Luiz Césio Caetano / O GLOBO
A vitória de Donald Trump nas eleições para presidente dos Estados Unidos surpreendeu muitos analistas políticos e a mídia. Afinal, às vésperas da ida às urnas, os indicadores mostravam um governo Biden de crescimento econômico e geração de empregos. Mas uma grande massa se considerava excluída do sonho americano.
O mundo vem se transformando com velocidade assombrosa. As aspirações da sociedade igualmente mudam de forma repentina e profunda — e mostraram insatisfação decisiva na eleição nos Estados Unidos.
O Brasil também exibe hoje bons indicadores econômicos. Mas, ao mesmo tempo, tem uma dinâmica de evolução como no século XIX — deixando de enfrentar problemas que vão desde o equilíbrio do Orçamento federal ao crescimento do crime organizado, passando pela educação.
O debate sobre contas públicas é tema recorrente. O Orçamento é engessado, o que limita a governabilidade. Mas isso tem de ser enfrentado — e é imprescindível identificar, sem influências ideológicas, as políticas sociais que são equivocadas ou estão desfocadas.
Também não se pode deixar de citar o avanço do crime organizado. Firjan, Fiesp e Confederação Nacional da Indústria apresentaram um estudo, Brasil Ilegal em Números, apontando prejuízo acima de R$ 453 bilhões, em 2022, por causa de atividades como mercadorias transacionadas ilegalmente, contrabando, pirataria, furtos de energia, furto e adulteração de combustíveis. É inaceitável que o Brasil tenha milhões de cidadãos vivendo em territórios dominados por milícias e narcotráfico, com seus armamentos de guerra.
Assistimos a uma tragédia silenciosa na educação. Segundo um estudo da Firjan Sesi — “Combate à evasão no ensino médio: desafios e oportunidades”, realizado em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) —, meio milhão de jovens acima dos 16 anos abandona os estudos a cada ano. O ensino médio é a antessala do mundo do trabalho, e os jovens brasileiros não conseguem abrir essa porta.
É evidente que o mundo não esperará pelo Brasil — pela solução de problemas que afetam eternamente o ambiente de negócios e afligem a sociedade. Fica outro alerta: a lentidão em atender às demandas da população terá custo político. É uma conta que vai chegar.
As eleições nos Estados Unidos mostraram que a sociedade quer hoje soluções objetivas e rápidas. Em 2013, tivemos uma revolta de combustão espontânea que até hoje nossos analistas políticos não conseguem explicar. Pode já ter sido um sinal.
No mundo de hoje, prevalece a mensagem de quem consegue se posicionar como influencer, chegando a milhões de corações e mentes por meio das redes sociais. Com insatisfação social represada, há um grande risco de chegada ao poder de candidatos populistas, despreparados e até mal-intencionados.
O Brasil continua a passos lentos. Mas 2026 está logo ali.
*Luiz Césio Caetano é presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan)

