Venda de carne estragada é um caso que não pode se repetir
EDITORIAL DE O GLOBO
É inadmissível que 800 toneladas de carne estragadas por terem ficado submersas nas enchentes do Rio Grande do Sul tenham sido vendidas para açougues de todo o país. É uma falha gravíssima do sistema de vigilância sanitária. Quando o crime foi descoberto, a polícia só conseguira rastrear o destino de 17 toneladas. Nos últimos dias, parte dos lotes foi encontrada até no Uruguai. É crucial encontrar o resto da carga e alertar a população. Entre os riscos para o consumidor está a possibilidade de contrair leptospirose, doença comumente diagnosticada em quem tem contato com água contaminada.
O destino do produto, vendido a preço baixo por seguradoras, era a produção de ração animal ou de graxas. Quem comprou foi a empresa Tem Di Tudo, de Três Rios (RJ), que revendeu 15 toneladas a uma distribuidora de Betim (MG) como se fosse carne de boa qualidade. Esta repassou a mercadoria a um frigorífico de Cachoeirinha (RS). Verificados os lotes, descobriu-se que faziam parte da carga vendida como imprópria para consumo humano. De acordo com os policiais, a intenção criminosa ficou evidente, pois a mercadoria fora maquiada. Os pacotes foram limpos e postos à venda. Os sócios e o diretor de logística da Tem Di Tudo foram presos, acusados de associação criminosa, adulteração de produtos e alimentos. Podem também ser denunciados por lavagem de dinheiro. Calcula-se que, comprando por apenas R$ 0,90 o quilo, tenham gastado R$ 720 mil e faturado cerca de R$ 5 milhões.
Na operação foram também encontrados medicamentos e testes para Covid-19 vencidos. A polícia suspeita de um esquema maior de venda de mercadorias impróprias. No mesmo endereço em Três Rios, há outras empresas controladas pelos presos. Além da distribuidora de alimentos, uma loja vende itens para casa e outra peças para iluminação. Uma das empresas diz atuar no setor de “reciclagem e sustentabilidade”, outra trabalhar com “gestão e administração de negócios”.
Depois das enchentes de abril do ano passado, a polícia gaúcha registrou diversos flagrantes de carne imprópria vendida normalmente. O caso da Tem Di Tudo é o primeiro descoberto noutro estado, em investigação conjunta das delegacias de defesa do consumidor do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. O crime não é apenas grave em si. Ele pode prejudicar a imagem do Brasil como exportador de carnes, pois uma falha dessa dimensão põe em xeque todo o sistema de vigilância sanitária.
Por isso a investigação precisa ser exemplar. As punições devem fazer com que todo o comércio tome extremo cuidado na venda de alimentos. Também será necessário que as autoridades sanitárias analisem em detalhes o crime cometido, para fazer os devidos ajustes no sistema de vigilância. Um caso tão escandaloso não pode se repetir.
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