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Segundo governo Trump exigirá equilíbrio do Brasil

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

O segundo mandato de Donald Trump, que começa nesta segunda-feira, causa ansiedade. As promessas e ameaças feitas na campanha e depois da eleição, se cumpridas à risca, têm o potencial de causar mudanças radicais. Na economia, Trump falou na imposição de tarifas de importação a China e países aliados, como México e Canadá. O compromisso de deportar 15 milhões de imigrantes talvez seja de difícil execução, mas não há dúvida de que o número de pessoas expulsas dos Estados Unidos crescerá. Nas relações exteriores, na política fiscal, na administração da máquina pública, em diferentes esferas Trump promete uma revolução. Muitas mudanças terão repercussões globais por canais como o mercado financeiro. Temperamental e com apoio do Congresso, o novo presidente promete ser sinônimo de instabilidade.

 

Diante desse cenário, o governo brasileiro deve buscar canais de comunicação, explorar interesses comuns e trabalhar para diminuir impactos negativos. Alimentar preconceitos ideológicos só provocará ruído. A melhor estratégia será buscar a construção de pontes onde for possível. O Brasil é um dos maiores mercados externos para uma quantidade grande de empresas americanas, inclusive belicosas plataformas digitais. É do interesse comum que essas companhias sigam investindo na expansão dos negócios.

 

Na arena externa, o Brasil tem potencial de ser um interlocutor valioso em alguns fóruns. Na questão venezuelana, a participação brasileira pode ajudar a encontrar uma transição de poder negociada se a Casa Branca decidir elevar a pressão sobre Nicolás Maduro. Atualmente na presidência do Brics, o Brasil tem um papel relevante a cumprir para evitar que o bloco se torne uma aliança anti-Ocidental. A cúpula de chefes de Estado prevista para acontecer em julho no Rio será uma oportunidade de o país exercer uma liderança positiva e conciliadora.

 

A julgar pelos resultados da balança comercial do ano passado entre Brasil e Estados Unidos, não haverá motivos para a Casa Branca tarifar as exportações brasileiras. As trocas entre os dois países foram de quase US$ 81 bilhões, com um pequeno superávit para os americanos. Caso Trump decida ainda assim penalizar os produtos brasileiros (boa parte industrializados), haverá, a princípio, pouco espaço de manobra para os exportadores. Como diz o embaixador Regis Arslanian, parte do mercado de produtos manufaturados que o Brasil tinha na Argentina ficou com a China. Arslanian aposta, porém, no pragmatismo do americano.

 

Sendo Trump do jeito que é, não se pode descartar que pontos com potencial de entendimento entre Brasil e Estados Unidos acabem virando motivo de discórdia. Em outros temas, as chances de falta de cooperação são mais óbvias, como nas discussões sobre o aquecimento global. Organizador da Conferência do Clima (COP30), o Brasil precisa estar preparado para uma eventual ausência dos Estados Unidos. Se isso ocorrer, a missão não só do país anfitrião, como de todos os outros presentes será a construção de consensos para avançar a agenda ambiental. É possível ainda que Trump queira influenciar a disputa política e decisões judiciais no Brasil. Com equilíbrio e atenção para não cair em provocações, a Justiça tem a obrigação de seguir o ordenamento local, e o governo deve ter sempre o interesse nacional como bússola.

 

 

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