Casos de violência política no Ceará aumentam 150% em dois anos; estado é o 2º do Nordeste em número de ocorrências
Os números estão detalhados na terceira edição do levantamento, desenvolvido pelas organizações Justiça Global e Terra de Direitos e lançado no dia 16 de dezembro. Cada monitoramento realizado pelas entidades traz dados colhidos durante dois anos — a edição mais recente inicia após o fim das eleições de 2022 e finaliza na data do 2º turno das eleições municipais de 2024.
O crescimento dos casos no Ceará, não é isolado. No País, os números de episódios de violência política atingiram o recorde: foram 714 registros. A maior parte deles foi registrada em 2024, ano de eleições municipais. De janeiro a 27 de outubro — data do 2º turno das disputas municipais — foram 558 ocorrências.
O Nordeste também teve um destaque negativo no ranking das regiões brasileiras: ela divide com o Sudeste a primeira colocação em casos de violência política no período monitorado. No total, cada uma destas regiões registrou 238 casos de violência.
Agressões e atentados
A pesquisa não traz o detalhamento de cada caso de violência registrado. Contudo, é possível elencar agressões e atentados contra candidatos ou pré-candidatos ocorridos durante a campanha e a pré-campanha eleitoral no Ceará.
Em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, três candidatos à Prefeitura foram alvos de violência política. Terceira colocada na disputa eleitoral, Emília Pessoa (PSDB) teve evento de campanha interrompido por tiros em frente ao local do ato. A então candidata também sofreu ameaças. Em setembro, circularam imagens nas redes sociais mostrando um muro com a frase: "Bala na Emília".
Prefeito eleito de Caucaia, Naumi Amorim (PSD) relatou ter ouvido tiros próximos a um evento da campanha, também em setembro.
Em setembro, 34 pessoas foram presas preventivamente por suspeita de ameaçar eleitores, interferir em campanhas eleitorais e extorquir candidatos no Ceará. Segundo as investigações, os alvos do grupo criminoso eram Naumi Amorim e Emília Pessoa. Na época, o titular da delegacia local, Rômulo Melo, afirmou que ameaças a políticos têm se tornado quase "habituais" na Cidade.
Ainda durante a campanha eleitoral, membros da equipe do então candidato Waldemir Catanho (PT) registraram boletim de ocorrência após um carro sob posse deles ser atingido por disparos de arma de fogo durante a colocação de bandeiras na região da Lagoa do Tabapuá.
Já em Sobral, uma confusão generalizada acabou resultando em agressão contra o ex-prefeito da cidade Veveu Arruda (PT) durante ato da campanha de Izolda Cela (PSB), então candidata à Prefeitura e esposa de Veveu.
O caso foi registrado em vídeo, no qual é possível ver quando homens agridem o ex-prefeito. Um deles chega a dar uma rasteira em Veveu e o derruba no chão. Nas imagens, ainda é possível ver momentos em que um pedaço de madeira chega a ser utilizado para agredir um dos envolvidos e também outra circunstância em que um homem aparece com ferimentos na cabeça.
Além destes casos, registrados durante a campanha eleitoral, também houve episódios contra pré-candidatos e parlamentares durante o período da pré-campanha. Contudo, nessas situações, as autoridades policiais não confirmaram se as investigações apontavam para motivação política.
Em abril, o vereador de Camocim, César Araújo Veras, foi vítima de um ataque com faca em um restaurante localizado na cidade. Outras duas pessoas foram esfaqueadas na ocasião e o suspeito foi preso em flagrante.
Poucos dias depois, no dia 7 de maio, o suplente de vereador do Crato, Erasmo Morais, foi morto com disparos de fuzil na entrada da própria casa. Pré-candidato à Câmara Municipal de Icó, o sargento da PM, Geilson Pereira Lima, também foi assassinado em maio deste ano. O crime aconteceu em um frigorífico da cidade.
Polarização e interferência de facções criminosas
Professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará, Monalisa Torres pontua elementos que podem explicar o aumento da violência política não apenas no Ceará, mas no Brasil. O primeiro deles diz respeito a um tensionamento e um adensamento do componente afetivo na política.
Ela explica: "a política comporta duas dimensões. Uma dimensão racional — mais burocrática, mais técnica, de entrega, de execução de políticas — e uma dimensão mais afetiva — que envolve paixões, relações de proximidade, identificação pessoal com candidatos ou com agendas programáticas".
A cientista política Mariana Dionísio acrescenta que, nos últimos anos, houve uma "intensificação das animosidades partidárias", em um cenário é marcado por "discursos polarizados e radicais".
"Isso cria um ambiente propício a ataques físicos e psicológicos contra adversários políticos ou suas bases de apoio. Essa ampliação do discurso de ódio e a proliferação da desinformação pelas redes sociais pode ter sido um dos fatores para o escalonamento das rivalidades, sobretudo, nas questões de gênero", afirma.
Professora de Direito na Universidade de Fortaleza (Unifor), Dionísio não descarta que o aumento nos números seja também causado por uma "maior visibilidade ou denúncia de episódios de violência". "Mas é inegável que, hoje, os casos estão cada vez mais explícitos, especialmente os que envolvem a deslegitimação de candidaturas por questões associadas ao gênero e o ataque gratuito às instituições e seus símbolos", diz.
Monalisa Torres pontua ainda que não é possível ignorar a interferência cada vez maior de facções criminosas na política institucional e eleitoral. Essa entrada tem ocorrido com estas organizações "influenciado eleições, participando de eleições, financiando candidaturas ou coagindo candidaturas".
"Tem um grupo que funciona por uma outra lógica, tentando contaminar as decisões e as disputas políticas. E, nesse caso, quando a gente tem essa interferência desse elemento externo que inclusive não reconhece o jogo democrático, porque atua de uma forma completamente alheia às regras, a gente também vê aumentarem esses casos de violência política", argumenta ao pontuar ainda que se, por outro lado, "houver um esforço coordenado de pacificação e aumento da fiscalização, aliado a campanhas de conscientização, os casos tendem a diminuir".

