Juros mais altos nos Estados Unidos criam nova pressão para BC brasileiro
Por Editorial / O GLOBO
O cenário para a economia mundial já era amplamente desfavorável ao Brasil. Na quarta-feira, o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, deu mais um motivo para o governo e o Congresso promoverem um ajuste fiscal mais rigoroso. O Fed reduziu a taxa de juro em 0,25 ponto percentual, para 4,5% ao ano. A medida era esperada. A surpresa foi a nova política vislumbrada para o ano que vem. Em setembro, o Fed previa quatro novas quedas de juros em 2025. Agora, informou que não devem passar de duas. A perspectiva de uma taxa de juros americana acima do previsto se fez sentir imediatamente nos mercados de câmbio e de ações no mundo todo.
O real bateu novo recorde e, na própria quarta-feira, registrou a maior desvalorização diária desde novembro de 2022. Com juros mais altos nos Estados Unidos, o Banco Central (BC) brasileiro precisará ser ainda mais rigoroso na alta dos juros para manter capitais por aqui, já que investir em papéis do Tesouro americano será mais atraente. O mesmo movimento se faz sentir mundo afora. Logo depois do anúncio, despencaram as bolsas de valores nos Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Índia, Hong Kong, Reino Unido, Europa e Brasil. Também desabaram as cotações do euro, da rúpia indiana, do iuane chinês, do won sul-coreano e de moedas em mercados emergentes. Todos sofrem, mas o Brasil é destaque negativo.
Em sua justificativa, o presidente do Fed, Jay Powell, constatou o ritmo mais lento da queda da inflação para a meta de 2%. Está na conta também a volta de Donald Trump à Casa Branca no mês que vem. Pelo que foi dito durante a última campanha eleitoral, o segundo mandato de Trump promete ser ainda mais turbulento que o primeiro. Tarifas comerciais, deportações em massa, cortes de impostos e afrouxamento de regulações deverão ter grande impacto na economia. Como se trata de Trump, todos os cenários são possíveis.
Mesmo que a realidade se prove menos drástica, a pressão sobre mercados emergentes se manterá alta. Com o controle republicano da Câmara e do Senado, Trump governará aparentemente sem amarras. É uma incógnita como isso impactará as economias americana e global. Diante da incerteza, causa estranheza a falta de ação do governo brasileiro e também do Congresso para debelar a crise de confiança que se abateu sobre a economia. O contexto internacional impõe um ajuste mais drástico nas contas públicas, para os gastos não ultrapassarem as receitas, a trajetória ascendente da dívida pública ser revertida no curto prazo e os riscos diminuírem. A incapacidade de agir agora na medida adequada cobrará um preço muitas vezes maior se o pior cenário se concretizar.

