Emergência sanitária decretada pela mpox não justifica pânico
o globo
A decretação, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de emergência de saúde pública de importância internacional em razão da mpox — doença antes conhecida como “varíola dos macacos” — não deve ser motivo para entrar em pânico. “A mpox não é a nova Covid”, afirmou o diretor da OMS Hans Kluge. Claro que isso não significa que seja inofensiva. Desde já, as autoridades de saúde brasileiras precisam tomar as medidas necessárias para lidar com a possível disseminação da doença no país.
A decisão da OMS foi motivada não só pela escalada de casos no continente africano, mas também pelas características do surto atual. No fim do ano passado, foi identificada uma nova linhagem do vírus transmissor da mpox, mais transmissível e letal que a de 2022 (quando também foi decretada emergência internacional pela doença). Estima-se que a nova variante, que fez disparar infecções e mortes na República Democrática do Congo, seja dez vezes mais letal que a anterior. A transmissão se dá principalmente por relações sexuais, mas há casos também de contágio por contato próximo com doentes.
A mpox é uma doença endêmica em países da África Central e Ocidental. Como já ocorreu noutras situações de emergência, é improvável que ela fique restrita ao continente africano. A Suécia confirmou na semana passada um caso da versão mais grave, o primeiro fora da África. Segundo as autoridades suecas, o paciente foi infectado durante viagem ao continente. O episódio levou a Europa a subir o risco de baixo para moderado.
O alerta da OMS é importante para que os países tenham tempo de se preparar. É isso que o Brasil precisa fazer. Ainda que por enquanto a situação seja tranquila, é preciso formar equipes especializadas, definir hospitais de referência, estabelecer protocolos para diagnosticar e tratar os doentes, além de ampliar os estoques da vacina destinada aos grupos vulneráveis. Seria uma lástima se as autoridades de saúde deixassem para fazer isso depois que o vírus começasse a se espalhar por aqui.
A ministra da Saúde, Nísia Trindade, anunciou a compra de vacinas e a criação de um comitê de operação de emergência com Anvisa e secretarias de Saúde estaduais e municipais. São medidas acertadas, mas espera-se que tenham resultado. O Brasil convive com a doença antes mesmo da disseminação da nova cepa. Segundo o ministério, em 2024 já foram registrados no Brasil 709 casos de mpox, com 16 mortes.
O país já sofre para combater doenças domésticas como dengue, zika, chicungunha ou moléstias provocadas por vírus respiratórios. É compreensível que os brasileiros, traumatizados pelas centenas de milhares de mortes causadas pela Covid-19 em meio à gestão desastrosa da pandemia, fiquem preocupados com mais uma emergência sanitária.
Mas, desde que se tomem as medidas preventivas necessárias, não deve haver motivo para temor. A hora de agir é agora.

