Busque abaixo o que você precisa!

Infiltração do PCC na campanha eleitoral expõe risco para democracia

EDITORIAL DE O GLOBO

 

É preocupante a declaração do coronel Pedro Luis de Souza Lopes, chefe do Centro de Inteligência da Polícia Militar de São Paulo, afirmando que a influência do crime organizado nas eleições é maior do que ele imaginava. Num seminário promovido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Souza Lopes disse que não é possível afirmar ao certo em quantos municípios paulistas há infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC), maior facção criminosa do estado e do país. Mas garantiu haver indícios palpáveis de movimentação para financiar campanhas eleitorais. O PCC, disse ele, ambiciona firmar contratos com o poder público para lavar dinheiro.

 

A infiltração do crime organizado no Estado já é realidade, como ficou comprovado recentemente em operação policial contra empresas de transporte da capital paulista controladas pelo PCC. Agora, está em curso uma operação eleitoral no estado de São Paulo, promovida pelo serviço de inteligência da PM. Houve uma reunião do alto-comando policial com representantes dos tribunais regionais eleitorais para criar um canal capaz de agir a qualquer sinal de ingerência da facção criminosa nas eleições. É uma medida necessária.

 

A Polícia Civil paulista deflagrou em agosto uma operação que constatou o apoio do PCC a dois candidatos a vereador em Mogi da Cruzes e Santo André, na Grande São Paulo. A relação de cidades visadas na operação dá uma ideia da amplitude da investigação: ao todo houve diligências em 15 municípios.

Souza Lopes entende que a organização criminosa, depois de expandir o tráfico internacional de drogas, está em busca de novas atividades para lavar dinheiro. Para o PCC, as oportunidades não se restringem ao transporte, mas se estendem também a contratos de obras e outros serviços públicos. Financiar campanhas é uma forma de contar com apoio para tais iniciativas nas câmaras de vereadores.

 

Nada muito diferente do que há anos ocorre no Rio, onde representantes dos milicianos ocupam espaços nas casas legislativas para protegê-los e beneficiá-los. Recentemente, a deputada estadual Lúcia Helena Pinto de Barros (PSD), conhecida como Lucinha, popular em território sob o jugo de milícias, foi alvo de uma operação para investigar sua atuação em benefício de milicianos. Documentos e celulares apreendidos com ela comprovaram a proximidade com o crime. Lucinha também empregara em seu gabinete um PM acusado de integrar milícia e a nora de outro. Mas nada disso bastou para cassar seu mandato. Em fevereiro, numa votação vergonhosa, a Assembleia Legislativa do Rio o manteve por 52 votos, 16 a mais que o necessário.

 

Enquanto não houver consciência do perigo que representa a infiltração criminosa nas instituições, casos assim se repetirão. A busca de legitimação política pelo crime organizado põe em risco o próprio Estado de Direito e deve ser combatida com energia. Não apenas a Justiça Eleitoral precisa estar atenta, mas principalmente os eleitores, que têm o dever de barrá-la com a ferramenta mais poderosa numa democracia: o voto.

Compartilhar Conteúdo

444