A ditadura descartável
A diplomacia de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) parece saber com qual ditadura de esquerda pode brigar. A mais recente diatribe da Nicarágua de Daniel Ortega foi rebatida com a expulsão de sua embaixadora no Brasil, Fulvia Patricia Castro Matus, na semana passada.
O Itamaraty reagiu corretamente, com base no princípio de reciprocidade nas relações diplomáticas. O regime nicaraguense, que sempre encontrou apoio nos governos petistas, desta vez não obteve a complacência do Planalto.
No dia anterior, o embaixador do Brasil em Manágua, Breno Dias da Costa, havia sido expulso do país por não ter comparecido à celebração dos 45 anos da vitória da Revolução Sandinista, comandada por Ortega. Relevante, para a ditadura, foi o fato de Dias da Costa ter seguido orientação do Itamaraty.
A crise mostrou-se inevitável na medida em que fracassaram os movimentos do brasileiro pela moderação do regime. A intercessão do petista, a pedido do papa Francisco, pela libertação de sacerdotes católicos presos arbitrariamente jamais foi perdoada por Ortega.
Para amenizar sua impostura, o Brasil na ocasião se disse pronto a acolher nicaraguenses expulsos pelo regime. Em correção de rumo, três meses depois, endossou declaração da Organização dos Estados Americanos que cobrava do país respeito ao Estado de Direito.
Nos seus governos anteriores, Lula jamais vislumbrou tais passos, mesmo diante das evidências inequívocas de prisões arbitrárias, execuções extrajudiciais, torturas e destruição paulatina das instituições democráticas promovidas por seus companheiros da esquerda na Venezuela e na Nicarágua.
Desta vez, a cumplicidade com ditaduras cobra um preço doméstico.

