Brasil precisa denunciar repressão na Venezuela
Por Editorial / O GLOBO
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O governo brasileiro tem mantido postura tímida diante de inaceitáveis 25 mortes e 1.229 prisões na Venezuela desde a fraude ocorrida nas eleições presidenciais. Em comunicado conjunto ontem, Brasil, Colômbia e México pediram que as forças de segurança garantam o direito à manifestação e respeitem os direitos humanos. Isso é pouco. Faltam declarações contundentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra a onda de violência patrocinada por Nicolás Maduro, seguidas de pressão para que o governo venezuelano abra o país a inspetores de direitos humanos estrangeiros.
Em reunião ministerial, Lula preferiu destacar as “celeumas” que tem enfrentado para achar uma solução pacífica. Enquanto se busca uma mediação entre o regime e a oposição, a polícia não pode ter carta branca para massacrar o próprio povo.
Nos últimos 11 dias, as forças de segurança intensificaram a perseguição a opositores. A novidade desta vez é a opressão aos segmentos mais pobres da população. Pelas estimativas do Programa Venezuelano de Educação Ação em Direitos Humanos (Provea), oito em dez detidos são da base da pirâmide social. Líderes comunitários nas favelas têm sido um dos alvos. Vencido pela vontade popular, Maduro apela mais uma vez à repressão.
Figuras fortes do regime estão se alternando em manifestações que deixam claro o pouco-caso com os direitos humanos e as próprias leis do país. Ao pedir ao Ministério Público que prendesse a principal voz da oposição, María Corina Machado, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, disse que não se poderia dar a ela benefícios processuais. O líder chavista Diosdado Cabello foi mais direto no Parlamento: “Vamos ferrar com eles”.
A lista de abusos do chavismo é longa. Em julho de 2023, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos reclamou do “atraso prolongado” de autoridades na investigação de mortes. De 2014 a 2019, 101 foram confirmadas. Desse total, apenas oito tinham resultado em julgamento até a data. Não é sem motivo que a Venezuela continue sendo investigada no Tribunal Penal Internacional.
Ao GLOBO, María Corina reconheceu o esforço do Brasil na busca por mediação e agradeceu ao presidente Lula por ter assumido a custódia da embaixada argentina em Caracas, onde estão seis de seus colaboradores. Na mesma entrevista, ela denunciou a violência do governo: “Os países envolvidos na questão venezuelana devem dizer que esta repressão é inadmissível e deve parar. Deve parar antes de qualquer negociação”.

