Eleições na Venezuela: Bate-boca entre Lula e Maduro também pode ser encenação útil para ambos
Por Malu Gaspar— Brasília / o globo
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De acordo com números de ONGs locais, só em julho o governo Maduro já prendeu 71 opositores, fechou estradas para impedir a passagem de adversários e, na semana passada, bloqueou o acesso a cinco sites de notícias. Além disso, mudou as regras para registro eleitoral dos exilados venezuelanos — 4 milhões, segundo a oposição; 69 mil, para o governo — , que não conseguem se habilitar para votar.
Em maio, o governo Maduro também cancelou o convite à União Europeia a que enviasse representantes para observar o processo eleitoral. Na prática, o regime escolhe a dedo os estrangeiros que acompanharão a votação e, ainda assim, seguindo seu próprio roteiro.
O grosso vem de países amigos de Maduro, como Bolívia, Honduras e Rússia, além de organizações como MST e Foro de São Paulo. Os quatro representantes da ONU que estão na Venezuela se comprometeram a não divulgar nenhum documento público sobre o pleito.
O Carter Center, ligado ao ex-presidente americano Jimmy Carter, já informou que só verificará situações de violação dos direitos humanos. Não acompanhará a votação nem a apuração.
Tudo isso mostra que, se tem algo que a democracia na Venezuela não está, é consolidada. E que a eleição está contaminada antes mesmo de a votação começar.
A julgar pelas pesquisas, num pleito limpo, a oposição teria grande chance de vencer. Quase todos os institutos, com exceção dos alinhados ao governo, mostram que González está bem à frente na preferência do eleitor, com algo entre 55% e 70% da intenção de voto, a depender do levantamento, ante no máximo 35% para Maduro.
Por isso a grande preocupação na comunidade internacional é com o que acontecerá depois da votação. Caso as urnas tragam a vitória de Maduro no domingo, a oposição dificilmente aceitará. Se porventura os oposicionistas saírem vencedores, o ditador também já adiantou que não larga o osso.
Numa primeira leitura, as declarações de Lula podem sugerir que ele está disposto a pressionar Maduro a deixar o poder caso perca. Mas também conferem ao brasileiro mais folga para para bancar o ditador venezuelano contra protestos da oposição derrotada, caso tal circunstância se imponha.
O que em princípio parece briga pode ser também uma encenação útil para ambos, Lula e Maduro. Só será possível conferir qual alternativa é verdadeira depois que forem anunciados os resultados da eleição de domingo. Até lá, haja chá de camomila.

