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Ataques de Lula e PT ao BC são enorme tiro no pé

Por Fernando Dantas / O ESTADÃO DE SP

 

O Copom toma hoje uma importante decisão de política monetária, em que pode interromper o ciclo de baixa da Selic, em meio a grandes pressões do Executivo e forte manifestações de insatisfação do governo quanto à condução da política monetária.

 

Alguns dirão que a culpa é de Roberto Campos Neto, presidente do BC, que jantou com Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e hoje o principal presidenciável da oposição. Até aí tudo bem, mas circularam rumores de que Tarcísio sondou Campos Neto para ser seu eventual ministro da Fazenda e que o presidente do BC teria traçado um cenário não muito promissor da economia no próximo mandato.

Campos Neto aparentemente não fez esforço para desmentir essas versões, realimentando as paranoias petistas (e de Lula) de que ele é uma espécie de "cavalo de Troia" no atual governo, mais preocupado em fazer as coisas darem errado do que certo.

A conduta de Campos Neto é criticável, assim com sua famosa ida para votar com a camisa da seleção (que na época virou símbolo indiscutível de bolsonarismo nesse contexto) em 2022.

Mas a grande pergunta é: o que o Lula e o PT têm a ganhar com toda essa celeuma?

Especialistas em política monetária ouvidos pela coluna em off são unânimes em afirmar que são prejudiciais as declarações de Lula de que os juros estão altos demais, e de que o novo presidente do BC a ser escolhido por ele vai se preocupar com a inflação, mas também com o crescimento, e tem que ser imune a o nervosismo do mercado. Toda essa ofensiva de Lula e do PT fará com que o novo presidente do Banco Central entre no cargo com um déficit de credibilidade junto ao mercado.

 

Quanto aos juros estarem altos demais, a afirmação constrange os quatro diretores nomeados por Lula, que, na visão de parte expressiva do mercado, deveriam hoje votar junto com a maioria para interromper a queda da Selic. As outras falas de Lula são até corretas, mas se tornam inoportunas quando se trata de recados do presidente da República para um futuro presidente do BC teoricamente autônomo.

 

Um dos profissionais ouvidos pela coluna comenta que, na percepção do mercado, "haverá um canal privado entre o presidente da República e o presidente do BC, como muitos julgavam que houve na época em que a primeira era Dilma Rousseff e o último era Alexandre Tombini". Na opinião desse especialista, isso abre espaço para que, por exemplo, Galípolo [caso o atual diretor do BC venha a ser o próximo presidente] seja visto como "pau mandado" de Lula.

 

Outro profissional do mercado comenta que o novo presidente do BC vai "começar devendo, e vai ter que provar que é sério no combate à inflação a cada decisão, declaração e apresentação".

 

O melhor exemplo disso, segundo essa última fonte, foi a última decisão do Copom, em que os quatro nomeados de Lula votaram por corte de 0,5 ponto porcentual da Selic (a decisão foi cortar 0,25pp, já que houve cinco votos neste sentido, incluindo o de Campos Neto).

 

Segundo o profissional mencionado, "o voto por 0,5pp tinha até base técnica, mas o racha assumiu uma proporção enorme justamente porque o grupo que votou por 0,5 carregava a desconfiança de estar agindo por orientação de Lula".

 

As consequências de um BC com menos credibilidade por parte do mercado são mais incerteza, maior percepção de risco, mais desancoragem das expectativas e, no final das contas, necessidade de juros maiores, que aumentarão mais a dívida pública e refrearão a economia.

 

O que mais espanta, na visão desse último analista, é que não haja ninguém no governo com capacidade de explicar para Lula e convencê-lo de que sua estratégia agressiva contra o Banco Central é um tremendo tiro no pé.

 

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras ( O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/6/2024, quarta-feira.

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