Anatomia de uma empulhação - ELIO GASPARAI
Elio Gaspari / O GLOBO
No dia de sua posse, em 2023, Lula prometeu:
“Estejam certos de que vamos acabar, mais uma vez, com a vergonhosa fila do INSS.”
Semanas depois, o ministro da Previdência, Carlos Lupi, anunciou que mutirões reduziriam as filas de 930 mil pessoas e, “até o final do ano”, a análise das requisições seria feita em até 45 dias. Em maio a fila havia crescido para 1,5 milhão e Lupi tocou o velho realejo, pedindo mais verbas. Em agosto veio uma boa notícia, haviam sido retiradas 223 mil pessoas da fila. Era apenas uma manipulação estatística, pois em outubro ela tinha 1,6 milhão de vítimas.
2023 terminou, e as promessas de Lula e Lupi revelaram-se pura parolagem.
Agora os repórteres Geralda Doca e Dimitrius Dantas revelaram o que acontecia por trás da fila. Não havia falta de recursos. Entre janeiro de 2023 e abril passado, os sistemas de atendimento do Ministério da Previdência pifaram 164 vezes, com apagões que somaram 13 dias e 13 horas. O sistema que opera pedidos de licenças de maternidade somou dias fora do ar.
Promessas de mutirões e reforços nas verbas são inúteis se a máquina convive com apagões dos sistemas. Afinal, quando se compram equipamentos eletrônicos e montam-se redes de atendimento, os maganos se apresentam como representantes da modernidade. Por trás desses negócios estão sempre dois interesses, o do vendedor da máquina e a necessidade da manutenção. O segundo negócio muitas vezes é melhor que o primeiro e pode ser passado à empresa de um cunhado.
A administração pública nacional está infestada por modernos sistemas que não falam uns com os outros e, invariavelmente, estão fora do ar quando a vítima vai a ele.
O culto da tecnologia a serviço da empulhação dá nisso, há tempos, pelo mundo afora.
Em 1969 aconteceu um choque de tropas russas com chinesas numa zona remota da fronteira dos dois países. O primeiro-ministro soviético Alexei Kosygin queria baixar a tensão e pegou o telefone vermelho para falar com o premier Zhou Enlai. Era a tecnologia a serviço da diplomacia.
A telefonista chinesa não passou a ligação. Ele teve que ligar para a embaixada soviética em Beijing, pedindo que passasse o recado.
Odylo Costa, filho, um homem bom
Está nas livrarias “JB — A invenção do melhor jornal do Brasil, conduzida por Odylo Costa, filho”, do repórter Luiz Gutemberg. Conta a gênese da reforma do “Jornal do Brasil”, que transformou uma publicação de pequenos anúncios no veículo que mudou a forma de se fazer jornais e melhor expressou as mudanças culturais e de costumes do país.
Fala-se muito dessa transformação e pouco da condessa Maurina Pereira Carneiro, de seu genro, Manoel Francisco Nascimento Brito, e muito menos da doce figura de Odylo Costa, filho. Ela era a dona do jornal, Brito dirigia a empresa e Odylo assumiu o comando da redação em 1957. Gutemberg fala dos três, sobretudo de Odylo. Ele era um maranhense, poeta, falava baixo com a doçura de quem gostava de fazer o bem.
Juscelino assumiu a República em 1956, e Odylo, o “Jornal do Brasil”, 11 meses depois. “Udenista de carteirinha”, ele não gostava da política de JK. Nada a ver com o panfletarismo de Carlos Lacerda. Sua oposição tinha uma nuance jornalística e cultural. Como o jornal incomodava o palácio, outro poeta, Augusto Frederico Schmidt, amigo de JK, diria: “O obstáculo único nas relações do presidente com o ‘Jornal do Brasil’ tem nome, sobrenome e indicativo de filiação: Odylo Costa, filho.”
No dia 6 de agosto de 1958 o secretário de Estado americano John Foster Dulles passou pelo Rio e reuniu-se com JK. No dia seguinte, o “JB” publicou uma fotografia da reunião, na qual aparecem um Juscelino expressivo, de pé, com as mãos espalmadas, e um Dulles, carrancudo, sentado e lendo um papel. JK era um expressivo contumaz; e Dulles, um carrancudo profissional. No Brasil de então cantava-se a marchinha “Me dá um dinheiro aí”, e o governo queria empréstimos dos Estados Unidos. À época, a fotografia foi vista como uma ofensa ao presidente, sobretudo por causa de sua legenda. Ela teria repetido a marchinha.
O ministro da Justiça queixou-se a Odylo, e o palácio mandou congelar o processo de importação das sobrecarregadas rotativas do jornal, bem como as conversas para a concessão de um canal de televisão.
Em dezembro, dentro de um projeto de equilíbrio financeiro, Nascimento Brito pediu a Odylo o corte de 40 pessoas numa redação de 87. Ele preferiu ir-se embora e despediu-se da redação no dia 31 de dezembro.
O livro de Luiz Gutemberg é um mapa do Brasil, de sua política e da imprensa daquele tempo. Pesquisa bem feita, revela muitas coisas, inclusive que a legenda da fotografia nunca foi “Me dá um dinheiro aí”, mas “Tenha paciência... Mister”.
Serviço: A fotografia, de Antonio Andrade, está na rede, basta pedir “Me dá um dinheiro aí”e “JK”.
Corda esticada no STF
Uma minoria (apertada) dos ministros do Supremo Tribunal Federal está esticando a corda. Uns produzem decisões escalafobéticas e metem-se em situações bregas. Essa minoria associa-se a farofas no circuito Elizabeth Arden.
Num serviço público que restringe o acesso ao luxo em viagens aéreas, os doutores viajam na primeira classe; e os seus seguranças e assessores, na executiva. Cobrados, respondem com a soberba dos antigos coronéis do sertão.
Essa história vai acabar mal, levando na bacia a criança de uma instituição austera, respeitada e centenária.
Dia D
Passou o 80º aniversário do Dia D, a maior operação militar da História. Cerca de três milhões de soldados aliados desceriam na Normandia e menos de um ano depois a Segunda Guerra estava terminada na Europa. Desse dia ficou uma lição para militares de todos os tempos.
O desembarque foi comandado pelos generais americanos Dwight Eisenhower e Omar Bradley. Um tinha 53 anos, pressão alta e zumbia-lhe o ouvido. O outro, de 51 anos, estava com o nariz inchado.
Eisenhower tinha no bolso uma nota manuscrita eu dizia:
“Nosso desembarque na área de Cherbourg-Havre para fixar uma cabeça de ponte falhou e eu recolhi as tropas. Minha decisão de atacar agora e nesse lugar baseou-se na melhor informação disponível. (...) Se houve algum erro na tentativa foi só meu.”
O papel não saiu do seu bolso, porque o desembarque foi bem-sucedido, por conta da bravura dos soldados e, quem sabe, graças às seis moedas de nações aliadas que carregava num saquinho desde 1942.
Fala-se muito na eficiência dos blindados alemães, mas no Dia D a tropa nazista se surpreendeu ao ver que os aliados não desembarcaram cavalos. Em 1942 o exército alemão dependia de 150 mil cavalos.
O ministério de Lula
O atual ministério não chega ao Natal. Quando será feita a mudança e quais os ministros que serão trocados, só Lula sabe.

