Chuvas mostram que governos estão despreparados para eventos extremos
EDITORIAL DE O GLOBO
As cerca de 30 mortes no Espírito Santo e no Rio de Janeiro em consequência das chuvas que castigam o Sudeste desde o dia 23 revelam que, apesar dos alertas sobre riscos iminentes, os governos ainda se mostram despreparados para enfrentar fenômenos climáticos extremos, cada vez mais frequentes e letais.
Ninguém pode alegar que não sabia da previsão de chuvas torrenciais. No dia 21, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu avisos de “grande perigo” para Região Metropolitana de São Paulo, Litoral Norte paulista, todo o Estado do Rio, sul de Minas Gerais e sul do Espírito Santo. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) advertiu sobre a alta chance de inundações e deslizamentos. Chegou a afirmar que, na Região Serrana do Rio, havia condições propícias a chuvas semelhantes às de 2011, as mais arrasadoras já registradas, com saldo de mais de 900 mortos.
O volume de chuva no Sudeste foi mesmo excepcional. Em algumas cidades, choveu em 24 horas o esperado para o mês inteiro. Petrópolis registrou mais de 200 deslizamentos. Estradas foram fechadas. Era um cenário previsto, mesmo assim moradores foram deixados em áreas sujeitas a desastres.
É verdade que algumas cidades acionaram protocolos de emergência. No Rio, a Prefeitura suspendeu aulas na sexta-feira, decretou ponto facultativo e incentivou os moradores a evitar deslocamentos. Felizmente, na maior parte da capital fluminense não aconteceu o dilúvio esperado. Isso não significa que as medidas preventivas não devessem ter sido tomadas. Apenas respostas ágeis podem evitar o pior quando existe alta probabilidade de catástrofe.
Na Região Serrana fluminense, repetiram-se as cenas trágicas de sempre. Em Petrópolis, ao menos quatro pessoas de uma mesma família morreram quando a casa foi soterrada por um deslizamento. Em todo o estado, o número de mortes chegou a nove. No sul do Espírito Santo, as chuvas mataram pelo menos 20 moradores (sete continuavam desaparecidos) e produziram cenas dramáticas de veículos arrastados pelas águas, carros empilhados e casas submersas. Mais de dez municípios decretaram estado de emergência, e 20 mil moradores estão fora de casa.
Segundo o Cemaden, o Brasil tinha no ano passado cerca de 8,2 milhões de habitantes vivendo em áreas suscetíveis a inundações ou deslizamentos. Evidentemente, não é um problema que se resolva de uma hora para outra. Primeiro, porque é fruto de descaso de sucessivos governos durante décadas. Segundo, porque demanda soluções de médio e longos prazos, como políticas habitacionais consistentes.
Danos materiais são em geral inevitáveis diante da força das tempestades, mas é possível preservar vidas, retirando os moradores das áreas mais vulneráveis antes da chuvas. Nisso o país tem fracassado miseravelmente, como mostram repetidas tragédias em que só mudam nomes e endereços. Os alertas de temporal do Inmet para os próximos dias agora se concentram nas regiões Sudeste, Norte e Nordeste. Espera-se que sejam ouvidos.

