Brasil volta a melhorar IDH; Nações Unidas dizem que ‘polarização política’ global atrapalha
Por Roberta Jansen / O ESTADÃO DE SP
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil aumentou, passando de 0,754 para 0,760, patamar considerado elevado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), responsável pela divulgação do indicador. Os novos dados foram apresentados nesta quarta-feira, 13. A organização aponta que há recuperação global após a crise da covid-19, mas ainda de forma desigual e impactada pela “polarização política”.
O IDH varia de 0 a 1. Quanto mais próximo o índice estiver de 1, melhor a pontuação do país. Antes da pandemia, o IDH do Brasil chegou a 0,766, mas houve queda diante dos impactos socioeconômicos da crise sanitária. Agora, o patamar voltou a subir, sobretudo por conta da alta da expectativa de vida.
Ainda assim, o País caiu duas posições no ranking global de desenvolvimento da ONU, passando de 87º, em 2021, para 89º, em 2022, dado mais recente disponível e último ano da gestão Jair Bolsonaro (PL).
O Brasil fica à frente de outros países sul-americanos, como Colômbia e Equador, mas atrás de vizinhos como Uruguai e Argentina.
A média do indicador na América Latina é de 0,763, ligeiramente acima do brasileiro. O ranking é liderado por Suíça, Noruega e Islândia. Os EUA aparecem na 20ª colocação, enquanto a China em 75ª e a Índia, em 134º.
O IDH é uma medida do progresso a longo prazo em três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde. A escala vai de 0 a 1, sendo que, quanto mais próximo o índice estiver de 1, melhor é a qualidade de vida naquela nação.
A expectativa de vida no País voltou a subir após a pandemia, passando de 72,8 anos para 73,4. A renda per capita também aumentou no mesmo período, de US$ 14.379 (R$ 71.895) para US$ 14.615 (R$ 73.075). Mas a expectativa de escolaridade (em anos de estudo) ficou estagnada em 15,6.
Veja ranking:
1. Suíça, com 0,967
2. Noruega, com 0,966
3. Islândia, com 0,959
4. Hong Kong, China, com 0,956
5. Dinamarca, com 0,952
5. Suécia, com 0,952
7. Alemanha, com 0,950
7. Irlanda, com 0,950
9. Singapura, com 0,949
10. Austrália, com 0,946
10. Holanda, com 0,946
12. Bélgica, com 0,942
12. Finlândia, com 0,942
12. Liechtenstein, com 0,942
15. Reino Unido, com 0.940
87. Peru, com 0,762
89. Azerbaijão, com 0,760
89. Brasil, com 0,760
Divulgado desde 1990, o relatório anual é uma das principais e mais influentes publicações da ONU. As Nações Unidas destacam recuperação no período pós-pandemia, mas anda de modo muito desigual. A polarização política e a fragilidade da democracia é o tema central do relatório deste ano.
Uma das conclusões mais surpreendentes do novo relatório é que os países mais ricos registam níveis recorde de desenvolvimento humano, enquanto a metade mais pobre do planeta avança a uma taxa inferior à antes da pandemia.
“Todos os anos, alguns países diferentes apresentam quedas nos respetivos valores de IDH, no entanto, 90% dos países viram o seu valor de IDH cair quer em 2020 quer em 2021, excedendo largamente o verificado na sequência da crise financeira mundial”, afirma o documento.
“O ano passado assistiu a alguma recuperação a nível mundial, mas foi parcial e desigual: a maioria dos países com IDH muito elevado registou melhorias, enquanto a maioria dos restantes registou declínios contínuos”, continua a entidade.
‘Estamos falhando de diversas maneiras’
Diretor do Escritório do Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD, Pedro Conceição afirmou que o Brasil está inserido em um contexto mundial de polarização política.
“O que está acontecendo é que há um processo ao redor do mundo de alienação da população”, afirmou, citando pesquisa que mostra que, embora 90% da população mundial apoiem a democracia, 50% admitem que “apoiariam líderes que enfraquecem a democracia”.
Conceição afirmou ainda que a queda do IDH mundial entre 2020 e 2021 “não foi só por conta da pandemia”. Segundo ele, os obstáculos oferecidos pela polarização na solução de problemas sociais e ambientais também pesaram.
“Estamos falhando de diversas maneiras”, disse. “A polarização política envenena as colaborações doméstica e internacional.”
Um exemplo citado foi a decisão de “tomar vacinas ou usar máscaras na pandemia”. Essa decisão, segundo ele, era, em muitos casos, baseada mais na opinião de “certos grupos” do que na eficácia das medidas. “O mesmo acontece com as mudanças climáticas”, afirmou.
Esse tipo de postura, segundo Conceição, não se limitaria aos cidadãos, uma vez que “há governos que tomam posições muito radicais dependendo de qual lado eles estão na arena internacional”.
Além dos efeitos de aumento de temperatura e perda de biodiversidade, a ONU alerta que o aquecimento global pode “alterar o padrão de exposição a doenças e infeções à medida que as temperaturas mais quentes alteram a gama de insetos portadores de doenças”. O Brasil, nas últimas semanas, tem sofrido com a escalada das infecções por dengue, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti.

