Lula importa crise bolsonarista da Abin para sua administração
Josias de Souza/Colunista do UOL
Na administração pública, não são apenas os erros que perturbam o andamento de um governo, mas a forma como os gestores agem depois de cometê-los. Na Agência Brasileira de Inteligência, com tantos erros novos à disposição, a gestão Lula repete equívocos já cometidos no Gabinete de Segurança Institucional…
A exemplo do general Gonçalves Dias, demitido do GSI nas pegadas do 8 de janeiro, o delegado federal Luiz Fernando Corrêa, diretor-geral da Abin, cometeu a imprudência de incluir na sua equipe, com o aval de Lula, servidores egressos da gestão Bolsonaro. Vivo, o deputado Luís Eduardo Magalhães teria repetido sua eterna profecia: "Não tem o menor risco de dar certo." De fato, deu muito errado…
Lula importou para dentro do seu governo a crise da Abin paralela, parte da herança radioativa de Bolsonaro. Em consequência, é forçado a fazer na Abin, por pressão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, uma higienização que não fez por opção…
A limpeza tardia da Abin começou em outubro do ano passado, quando foi à rua a primeira operação do inquérito que apura a espionagem ilegal de magistrados, políticos e autoridades identificadas por Bolsonaro como desafetos. Moraes mandou afastar cinco servidores lotados na equipe de Corrêa…
Dois dos expurgados foram presos preventivamente. Na casa de um deles, Paulo Maurício Fortunato Pinto, o número 3 da hierarquia da Abin, a PF apreendeu US$ 171 mil. Ouvido na época, Fortunado disse que se tratava de "poupança pessoal"…
Na segunda fase da investigação, estrelada na semana passada pelo deputado bolsonarista Alexandre Ramagem, ex-chefe da Abin, foi à alça de mira o número dois de Corrêa: Alessandro Moretti. Cavalgando indícios recolhidos pela PF, Moraes deu asas à suspeita de que a cúpula da Abin de Lula agiu para prejudicar as investigações, num "possível conluio" com os encrencados da gestão Bolsonaro…
Nos bastidores do Planalto, Moretti é tratado como uma demissão esperando na fila para acontecer. Mas Lula retardou o envio do nome para o Diário Oficial. Subiu na corda bamba o próprio Luiz Fernando Corrêa. Moretti e Fortunato foram escolhidos por Corrêa. Mas Lula imprimiu suas digitais no processo de seleção…
"Não foi por falta de aviso", anotou o senador Renan Calheiros nas redes sociais, em outubro do ano passado, quando o Planalto afastou Fortunato, o número 3 de Corrêa. Renan preside Comissão de Relações Exteriores e Segurança Nacional do Senado, que tem a atribuição de sabatinar os indicados ao posto de diretor-geral da Abin…
Em março de 2023, quando Lula escolheu Luiz Fernando Corrêa, Renan levou o pé à porta. Retardou a sabatina por dois meses. Estava inconformado com a notícia de que o escolhido do presidente selecionara Fortunato e Moretti, egressos da gestão Bolsonaro, como seus adjuntos…
Renan marcou a sessão em que Corrêa foi sabatinado apenas depois que recebeu um pedido pessoal de Lula. Durante a sabatina, ocorrida em maio do ano passado, o senador fustigou Corrêa, questionando a escolha dos subordinados. Ao responder, Corrêa definiu Moretti e Fortunato como "técnicos de carreira". Realçou que dispunha da confiança de Lula…
"Gozando da confiança do presidente", disse Corrêa no Senado, "jamais correria o risco de expor qualquer governo a uma situação, no mínimo, constrangedora de indicar alguém que não tivesse status para a posição que estamos indicando". Decorridos apenas cinco meses, diante da confirmação do afastamento de Fortunato por ordem de Moraes, Renan não se conteve…
"Alertei, inclusive na sabatina de Corrêa para Abin, sobre as dúvidas em torno dos dois diretores do órgão", escreveu o senador nas redes. "Alessandro Moretti foi braço direito de Anderson Torres, preso. Maurício Fortunato, afastado pelo STF, era suspeito de grampos ilegais em 2008."…
Com as barbas de molho desde a descoberta de que o general Gonçalves Dias chegara ao 8 de janeiro com a equipe do GSI apinhada de ex-auxiliares do antecessor bolsonarista Augusto Heleno, Lula deveria ter sido mais previdente. Obrigado pelo Supremo a afastar Fortunato, poderia ter livrado a Abin de Moretti…
A prevenção teria poupado o Planalto da reiteração do constrangimento na segunda fase da investigação sobre o escândalo do aparato de espionagem clandestina estruturado sob Bolsonaro. No setor de inteligência, porém, o presidente revela-se pouco inteligente. Desde a posse, não perde a oportunidade de perder oportunidades. Deu no que está dando.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL…NEM A MINHA

