mais: Após tocar o fundo do poço, a raiva virou um poço sem fundo
Josias de Souza/Colunista do UOL
Iludiu-se quem imaginou que a polarização política havia atingido o fundo do poço em 2022. A rivalidade tóxica entre Lula e Bolsonaro está na bica de virar um poço sem fundo em 2024.
Inelegível, Bolsonaro dedica-se full time à busca de oportunidades para expressar sua aversão ao rival. Em entrevista à Rádio Metrópole, de Salvador, Lula demonstrou que a repulsa do antagonista é um sentimento 100% correspondido.
Lula disse enxergar a disputa pela prefeitura de São Paulo como "uma coisa muito especial", pois haverá na cidade "uma confrontação direta entre o ex-presidente e o atual". Desafiou o capitão sem mencionar-lhe o nome: "É entre eu e a figura", disse.
Na véspera, o governador Tarcísio de Freitas previra que Bolsonaro deve mesmo apoiar a reeleição de Ricardo Nunes. Lula está fechado com Guilherme Boulos. Se descuidarem, os astros da disputa podem ser ofuscados pelo eclipse do ódio.
A derrota nas urnas e a paulada da Justiça Eleitoral deixaram Bolsonaro menor. Para liderar o que restou da direita irracional que retirou do armário, precisa continuar se nutrindo do antipetismo. Uma polarização sem fundo lhe interessa.
Prometendo a pacificação política, Lula foi devolvido ao Planalto pela diminuta diferença de 1,8 ponto percentual. Podendo cultivar a frente ampla que foi à cabine eleitoral agarrada ao fator democrático, opta por investir no rancor que divide o país.
Na política, como na vida, aquele que permite que o adversário o deixe com raiva corre o risco de ser controlado por ele. Se desperdiçar 2024 despejando raiva sobre os palanques, Lula talvez faça os melhores discursos dos quais se arrependerá…
Opinião
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