Como Lula vai reagir à desaceleração?
Por Fernando Dantas / Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras ( O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) / O ESTADÃO DE SP
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode estar entrando em uma fase mais complicada em termos de crescimento econômico. A última projeção do Focus, o sistema de coleta de expectativas do mercado pelo Banco Central, tem mediana de crescimento do PIB de 2,92% este ano e de 1,5% em 2024.
A desaceleração já começa a aparecer nos números. O IBC-BR (prévia do PIB do BC) de agosto, divulgado hoje (20/10, sexta), caiu 0,77% ante julho, mais que a mediana do Projeções Broadcast, de -0,60%. As vendas do varejo ampliado (inclui automóveis e material de construção) caíram 1,3% em agosto, ante julho, também mais que a mediana de -0,8%. Já os serviços recuaram 0,9% em agosto ante julho, mais que o piso das estimativas do Projeções Broadcast, de -0,8%.
Analistas e gestores ouvidos pela coluna apontam como causa da desaceleração, em primeiro lugar, o aperto monetário e das condições financeiras no Brasil.
É verdade que a Selic já começou a cair, do nível máximo no pico recente de 13,75% para os atuais 12,75%. Mas participantes do mercado notam que a política monetária tem impactos defasados e, portanto, ainda há muito efeito restritivo a ser sentido dos altos níveis reais da taxa básica durante longo período (e que ainda se mantêm, na verdade, mesmo com os dois cortes recentes de 0,5 ponto porcentual).
E ainda há uma outra questão, que se sobrepõe a essa: a curva longa de juros no Brasil subiu recentemente, na esteira da alta dos juros longos dos Estados Unidos, que impactam o mundo todo. Entre agosto e hoje, a rentabilidade da NTNB com vencimento em 2035 subiu de cerca de 5,15% para 5,9% acima do IPCA, por exemplo.
Como comenta um gestor, "isso significa que voltamos a condições financeiras semelhantes às que vigoravam antes do início do ciclo do corte da Selic".
Outro aspecto da desaceleração é o fiscal. O mesmo analista aponta que 2023 foi um ano de "superimpulsão fiscal". O superávit primário do governo central foi de 0,55% do PIB em 2022, chegando a 1,3% do PIB no setor público consolidado, com a inclusão dos governos regionais e parte das estatais. Este ano, deve-se caminhar para um déficit de 1,1% do PIB do setor público consolidado, segundo a última projeção do Focus, o sistema de coleta de expectativas do mercado do Banco Central. Sair de superávit para déficit fiscal significa dar impulso fiscal à economia.
Outra questão é o desempenho espetacular do setor agropecuário este ano, que deve desacelerar em 2024. E há ainda a economia global, que também deve engrenar marcha mais lenta no ano que vem, com o aperto monetário e das condições financeiras nos Estados Unidos e na Europa, e a perda de ritmo da economia chinesa. O conflito explosivo no Oriente Médio e a chance de ele trazer turbulências geopolíticas mais sérias também não contribuem, é claro.
O gestor mencionado acima acrescenta, finalmente, o fato de que o crescimento de 2023 deve ser muito concentrado no primeiro semestre, com um segundo semestre mais para a estabilidade. Isso, por sua vez, não é bom para o chamado carregamento estatístico do PIB em 2024.
Uma questão importante é a de saber como o governo vai reagir a uma eventual desaceleração mais forte da economia em 2024. Uma possibilidade seria tentar pisar no acelerador fiscal, mas como nota outro profissional do mercado financeiro ouvido pela coluna, isso seria uma reviravolta completa das diretrizes moderadas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, com seu novo arcabouço fiscal e a tentativa de ajuste pelo lado da receita.
A mediana do Focus para o saldo primário em 2024 é de déficit de 0,8%, ante meta zero do governo. A situação, portanto, está muito apertada. Ainda que a meta venha a ser mudada, o que se espera é contenção e até contingenciamento em 2024. Como diz o analista, "para usar o fiscal para em 2024 para empurrar economia no ano que vem, só com o Haddad saindo".
Uma outra possibilidade, porém, ele avalia, seria o impulso parafiscal, por meio do BNDES, até mais rápido e "na veia" em termos de tentar impulsionar a atividade, o que não quer dizer que vá dar certo. É também um mau caminho, como amplamente demonstrado pelos tempos da nova matriz econômica.
Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras ( O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/10/2023, sexta-feira.

