Busque abaixo o que você precisa!

Discurso de Lula na ONU precisa inspirar prática de Lula no Brasil

Josias de Souza

Colunista do UOL
 
 

O discurso lido por Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU foi escrito a seis mãos —as do orador, as do assessor especial Celso Amorim e as do chanceler Mauro Vieira. Lapidou o texto José Rezende Júnior, o escritor que ajuda Lula a deitar suas ideias sobre o papel. O pronunciamento foi construído com método. Sem mencionar Bolsonaro, Lula espancou o negacionismo e as excentricidades arcaicas do antecessor. Sem tropeçar em improvisos, percorreu os principais temas da conjuntura global. A fala dirigida por Lula ao mundo ganharia mais credibilidade se inspirasse a prática de Lula no Brasil.

A palavra-chave do discurso foi "desigualdade". Lula escorou nesse vocábulo a dificuldade do planeta de lidar com fenômenos como a fome, as guerras, a emergência climática e o preconceito. A alturas tantas, Lula adicionou um objetivo extra à Agenda 2030 da ONU, concebida para reduzir as desigualdades entre os países e dentro deles. Incluiu voluntariamente nessa agenda o objetivo de alcançar a igualdade racial na sociedade brasileira. No Brasil, Lula resiste à pressão para indicar uma jurista negra para a vaga de Rosa Weber no Supremo.

Noutro trecho, Lula prometeu rigor na defesa dos direitos de grupos LGBTQI. A posição destoa do perfil do primeiro homem branco enviado por ele ao Supremo. Num julgamento que equiparava ao crime de injúria racial as ofensas à comunidade que Lula deseja proteger, Cristiano Zanin votou contra.

Lula mencionou também sua preocupação com a igualdade de gênero. Em ambiente doméstico, empurrou Ana Moser para fora do Ministério dos Esportes dias atrás, entregando a pasta para André Fufuca. Patrono de Fufuca, Arthur Lira assistia ao discurso de Lula no plenário das Nações Unidas. Deve ter reprimido um sorriso interior.

Numa fala de 25 minutos, entrecortada por sete salvas de palmas, Lula declarou que a proliferação do racismo, da intolerância, e da xenofobia é incentivada por novas tecnologias que deveriam aproximar as pessoas. Meses atrás, ele se absteve de jogar a força do governo na votação do projeto de lei que regulamentaria o funcionamento das plataformas digitais no Brasil.

No trecho dedicado ao meio ambiente, Lula declarou que deseja construir até a COP 28, em Dubai, uma visão conjunta que priorize a preservação conjunta das bacias Amazônica e do Congo. No Brasil, o Planalto pressiona o Ibama a liberar pesquisas sobre a exploração petrolífera na Foz do Rio Amazonas.

No último parágrafo do discurso lido na ONU, Lula disse que "somente movidos pela força da indignação poderemos agir com vontade e determinação para vencer a desigualdade e transformar efetivamente o mundo a nosso redor." Receitou aos líderes mundiais "a coragem de proclamar sua indignação com a desigualdade e trabalhar incansavelmente para superá-la."

Restou a impressão de que o governo Lula seria outro se o orador da tribuna da ONU utilizasse no Brasil algumas das lições que ministrou ao mundo.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. NEM MINHA

Compartilhar Conteúdo

444