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E tudo isso ainda é um alívio

Cora Rónai /Jornalista e escritora.O GLOBO

Sim, com Bolsonaro seria muito pior, isso nem se discute; ninguém tinha mais saúde mental para sobreviver no baixo-astral das suas grosserias, da instabilidade permanente da sua cabeça covarde e doentia, da incompetência e da perversidade do seu entourage. Já nem falo do desastre da pandemia e do estrago que conseguiu fazer, em tão pouco tempo, em duas demoradas e preciosas conquistas brasileiras, a confiança nas urnas eletrônicas e a fé universal na vacinação.

 

Sim, foi um imenso alívio passar um 7 de Setembro modorrento, entre os gatos e os livros, sem sentir necessidade de ficar grudada na internet e na GloboNews, na iminência de um golpe. Desfile militar é coisa para militar; civil na rua admirando aquilo em massa não prenuncia nada de bom, só tendo se visto, notadamente, em países como a Alemanha nazista, a União Soviética, a China, a Coreia do Norte.

 

Então, vamos repetir: sim, seria indiscutivelmente pior com Bolsonaro. Muito, horrivelmente pior.

 

Mas...

(Pronto, lá vem aquela conjunção adversativa.)

Pois é. Em muitos aspectos não está bom e, sobretudo, periga ficar pior. Não adianta a cada quatro anos a gente levar um susto, descobrir os monstros que habitam os porões e fazer passeata “Ele não”. É preciso evitar que esses monstros se criem, mas é difícil fazer isso se, semana sim e outra também, o atual governo — a atual “situação” — aduba o terreno.

 

Lula ainda não desceu do palanque, o que já seria ruim em qualquer circunstância para um presidente em exercício, mas é equívoco grave num país polarizado como o nosso. Não há foto de abraço com general que supere, em semiótica, a imagem de Janja de vermelho, em pleno 7 de Setembro, fazendo o L a bordo do Rolls-Royce presidencial.

 

Para quê? Para cutucar a onça? Apenas lembrando: daqui a pouco essa onça vota.

A semana foi um desastre.

 

O manifesto de Dias Toffoli insultou a nossa inteligência coletiva e, de quebra, deixou claro por que ele foi reprovado duas vezes no concurso para a magistratura. Isso num país que vinha do desaforo da indicação de Zanin, um atentado ao conjunto de pessoas e de forças que compõem a democracia — e que merece mais respeito do que a explicação singela de que o escolhido para a principal corte do país é um dos parças.

 

A demissão de Ana Moser foi inaceitável, e soletrou, com todas as letras, que competência não importa, que esporte não é relevante e que ter mulheres no governo não quer dizer nada. Não se convoca uma pessoa da importância de Ana Moser, com uma vida dedicada à causa, para trocar pelo primeiro fufuca que aparece.

E ainda houve o desnecessário afago a Putin: que venha ao Brasil, país que “gosta de música, de carnaval e futebol”. Mudar o discurso no dia seguinte fingindo desconhecer o Tribunal Penal Internacional talvez tenha atenuado a situação do ponto de vista institucional, mas não esconde o fato cada vez mais evidente de que a visão geopolítica de Lula estacionou na Guerra Fria.

 

Vladimir Putin não é um herói injustiçado, é um criminoso de guerra.

 

Recomendo o instagram de Lynsey Addario (@lynseyaddario) para pegar uma visão.

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