'Sabedoria ancestral' contra mudanças climáticas: Espanha recupera canais medievais para enfrentar seca histórica
Por Constant Méheut, The New York Times / o globo
No alto das montanhas do sul da Espanha, cerca de 40 pessoas munidas de pás removeram pedras e pilhas de grama de um canal de terraplenagem construído vários séculos atrás e que ainda mantém as encostas verdes.
É uma questão de vida (ou morte) — diz Antonio Jesús Rodríguez García, agricultor da aldeia de Pitres, de 400 habitantes. — Sem esta água, não podemos plantar nada, a aldeia não pode sobreviver.
O calor extremo que varre grande parte do sul da Europa é apenas o mais recente lembrete dos desafios que a mudança climática impingiu à Espanha, onde as temperaturas atingiram 42°C na última terça-feira, deixando metade do território em alerta laranja e vermelho. Tanto calor e secas prolongadas ameaçam três quartos do país de ser engolido por desertos rastejantes ao longo de nosso século.
Diante dessa realidade sombria, agricultores, voluntários e pesquisadores espanhóis buscaram soluções em sua História, recorrendo a uma extensa rede de canais de irrigação construída pelos mouros, a população muçulmana que conquistou e se estabeleceu na Península Ibérica a partir do longínquo ano de 711.
Os canais – batizados de “acequias”, do árabe “as-saqiya”, que significa "canal de água" – tornaram possível a vida em uma das regiões mais secas da Europa, abastecendo as fontes do majestoso Palácio de Alhambra e transformando a região, a Andaluzia, em uma potência agrícola.
Muitas acequias caíram em desuso por volta da década de 1960, durante a ditadura franquista, quando a Espanha se voltou para um modelo agrícola que favorecia grandes reservatórios e levou muitos espanhóis a migrar das áreas rurais para as cidades. À medida que o uso da rede se desvaneceu, desapareceram também antigos conhecimentos e tradições sobre como transportar a água aos recantos mais remotos da Andaluzia.
Agora, o intrincado sistema, considerado ferramenta eficaz e de baixo custo para mitigar a seca, está sendo redescoberto, uma acequia abandonada por vez.
— As acequias conseguiram resistir a pelo menos mil anos de mudanças climáticas, sociais e políticas — diz José María Martín Civantos, arqueólogo e historiador que coordena um impressionante projeto de restauração. — Então, por que ficar sem elas agora?
Civantos, um homem atarracado com cavanhaque, diz que os mouros construíram pelo menos 24 mil quilômetros de acequias nas províncias andaluzas de Granada e Almería, no que era então Al-Andalus. Explica que antes das acequias era difícil cultivar alimentos no clima instável do Mediterrâneo, assolado por secas periódicas.
O “genial do sistema”, diz ele, é que desacelera o fluxo de água das montanhas para as planícies para melhor retê-lo e distribuí-lo.
Sem as acequias, a neve derretida dos picos das montanhas fluiria diretamente para os rios e lagos que secam durante o verão. Com elas, o derretimento é desviado para os múltiplos e seculares canais que serpenteiam pelos morros. A água penetra no solo em “efeito esponja”, depois circula lentamente pelos aquíferos e aparece meses depois, encosta abaixo, em nascentes que irrigam as lavouras durante a estação seca. Touché.
Traços do sistema podem ser observados por toda parte nas montanhas do sul de Alpujarra, nas encostas ao sul da Sierra Nevada. A água jorra das montanhas a cada curva da estrada. Amolece o solo das planícies altas. Nasce nas fontes das típicas aldeias caiadas da região.
— Os mouros não nos deixaram apenas as acequias, mas também a paisagem que criaram com elas — reforça Elena Correa Jiménez, pesquisadora do projeto de restauração, liderado pela Universidade de Granada.
Segurando uma pá, ela aponta para as terras verdejantes que se estendem abaixo.
— Nada disso existiria sem as acequias — diz. — Não haveria água para beber, nem fontes, nem colheitas. Seria um deserto.
A água tem sido tão essencial que os moradores falam dela como se fosse uma plantação. A água não é absorvida pelo subsolo, é “semeada”. Não é coletada para irrigação, é “colhida”.
Quando a Espanha substituiu muitas acequias por sistemas de gestão de água mais modernos, somente na Sierra Nevada um quinto delas foram abandonadas, segundo dados do governo.
- Contexto: Temperaturas se aproximam dos 50ºC na Europa e nova onda de calor extremo pode bater recorde
A revolução agrícola ajudou a transformar a Andaluzia no "quintal da Europa", com enormes quantidades de romãs, limões e cevada enviadas para todo o continente. Mas também gerou uma sede insaciável por água que esgotou os aquíferos da região, agravando as secas.
Para piorar a situação, as mudanças climáticas expuseram a Espanha a ondas de calor cada vez mais frequentes, como as deste ano. Esta primavera foi a mais quente já registrada na Espanha, de acordo com a agência meteorológica do país, com temperaturas de abril superiores a 37°C na Andaluzia.
Cañar, uma pequena aldeia aninhada na região histórica das Alpujarras, foi duramente atingida pela combinação de agricultura intensiva, temperaturas mais altas e abandono de uma acequia próxima.
Várias das terras agrícolas da aldeia estão agora desoladas. Em um café, uma placa informa: “Procuro uma fazenda irrigada”. A maioria dos riachos da região agora contorna Cañar, alimentando um rio em um vale que abastece stufas que cultivam abacates. Ninguém na aldeia trabalha lá.
O agricultor Ramón Fernández Fernández, de 69 anos, conta lembrar de quando as casas da aldeia desabavam sob o peso da neve do inverno. Perguntado quando nevou pela última vez na área, ele riu.
— Os anos ruins são os anos bons agora — diz ele sobre as secas.
Em 2014, a vila se tornou campo de testes para o projeto de restauração da acequia liderado por Civantos. Durante um mês, ele e 180 voluntários escavaram a terra sob um sol escaldante para recuperar o canal.
— Alguns fazendeiros octogenários choravam, pois achavam que nunca mais veriam a água fluindo — diz Civantos. Ele se lembra de um morador mais velho parado na vala quando a água começou a entrar, gesticulando com os braços como se para guiá-la em direção à aldeia.
Francisco Vílchez Álvarez, membro de um grupo de moradores que administram redes de irrigação em Cañar, diz que a restauração da acequia local permitiu que alguns moradores voltassem a cultivar cerejas e kiwis.
Até o momento, Civantos e sua equipe recuperaram mais de 100 Km de canais de irrigação, levando grupos heterogêneos de pesquisadores, fazendeiros, ativistas ambientais e moradores locais às Alpujarras, com ferramentas de jardinagem em mãos.
A iniciativa se espalhou para outras regiões espanholas, no leste e norte do país. Mas Civantos e vários agricultores disseram que ainda carecem de apoio financeiro pois políticos e empresas muitas vezes consideram as acequias ineficientes em comparação com as redes hidráulicas modernas.
— É difícil mudar mentalidades — diz. — Mas se você abraçar a multifuncionalidade, verá que os sistemas de irrigação tradicionais são muito mais eficientes. Eles retêm melhor a água, recarregam os aquíferos, melhoram a fertilidade dos solos.
Mas o maior desafio para salvar as acequias pode ser preservar o conhecimento antigo por trás de sua existência.
Em aldeias como Cañar, onde os moradores ainda usam um diário de bordo do século XIX para distribuir água aos agricultores, o êxodo rural ameaça a transmissão de técnicas transmitidas oralmente.
Um morador, que conhecia todos os ramos ao longo de 22 Km de acequias na área, morreu recentemente, levando para o túmulo “conhecimento precioso, ancestral” , diz Vílchez.
Fazendo uma pausa durante a operação de limpeza, o prefeito José Antonio García de Pitres, de 58 anos, diz que “muita sabedoria” foi colocada nas acequias.
— Agora temos a oportunidade de usar essa sabedoria ancestral para combater as mudanças climáticas — diz — Pues, vamos.

