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Encontro ao centro

Por Merval Pereira / O GLOBO

 

Parafraseando Vinicius de Moraes, a política é a arte do encontro, embora existam tantos desencontros na política. Dois personagens tiveram protagonismo nesses encontros e desencontros das últimas semanas, além, é claro, do presidente da Câmara, Arthur Lira, que conseguiu a mágica de reter em Brasília numa sexta-feira a maior parte dos deputados para aprovar a volta do voto de qualidade do Carf, fundamental para aumentar a arrecadação do governo.

 

Falo do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e do governador de São Paulo Tarcisio de Freitas, dois potenciais candidatos à sucessão de Lula em 2026 ( se ele realmente desistir da reeleição), e que se aproximaram do centro político se distanciando dos radicais do PT e dos bolsonaristas.

 

As reformas econômicas estão andando, Haddad se apoiou em Lira e num Congresso com tendência mais liberal na economia para avançar na aprovação de temas essenciais para sua gestão: arcabouço fiscal, reforma tributária, mudança no Carf da Receita Federal. O presidente Lula, lembrando aquele que teve sucesso no seu primeiro governo prosseguindo nas reformas econômicas vindas do governo Fernando Henrique, agiu de maneira diferente em relação à reforma tributária do que faz incessantemente com o Banco Central independente, que não engole, embora os bons resultados estejam evidentes.

 

O ministro Haddad acompanha Lula e os petistas contra Roberto Campos Neto para não perder tração no campo petista, que não é de hoje não o engole. Quando ministro da Educação, mesmo sob pressão dos petistas, Haddad não entregou o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o cofre da pasta, ao partido. Colocou lá um servidor de carreira do Tesouro. Ele se legitimou através da boa gestão, mas engoliu poucas e boas calado, até mesmo aguardar com paciência que Lula liberasse a vaga de candidato em 2018 para ele.

 

Quando o indicou para concorrer ao governo do estado de São Paulo na primeira vez, Lula explicou assim, ironicamente, a escolha: tem cara de tucano, pode ser que o eleitorado paulista o aceite. Essa “pinta” de tucano é usada até hoje pela ala radical para criticá-lo, e tem na presidente do PT, Gleisi Hoffman, uma adversária, que já o combateu em várias ocasiões neste governo. O arcabouço fiscal, por exemplo, que substituiu o teto de gastos, teve sua oposição desde o início da discussão, sob o argumento de que impedirá o crescimento.

 

Já o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas, se distancia do bolsonarismo com elegância, e enfrenta uma rebelião dos radicais pela sua aproximação com o ministro da Fazenda nas negociações da reforma tributária. A orientação do ex-presidente Bolsonaro de fechar a questão contra a proposta por partir de um governo petista assemelha-se à atitude do PT contra o Plano Real no governo Fernando Henrique. Naquela ocasião, o PT seguiu a opinião de Mercadante, que não via viabilidade no plano. Acabou sendo engolido pelo sucesso do Real, que levou Fernando Henrique a ser eleito duas vezes no primeiro turno.

 

Desta vez, Bolsonaro foi pela sua cabeça. O ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, não deu uma declaração sobre a reforma tributária, sinal de que não queria se empenhar contra ela, talvez porque seu início tenha se dado por projetos de emendas constitucionais iniciados no governo a que serviu. Bolsonaro acabou derrotado amplamente, não conseguiu apoio integral nem no PL - 20 deputados votaram a favor da reforma -, e Tarcisio saiu-se vitorioso.

 

Com um Congresso conservador, mas liberal na economia, o presidente da Câmara Arthur Lira caminha para controlar o ritmo das decisões do plenário, e o governo Lula terá que se dobrar às suas vontades, deixando pouco espaço para os petistas ortodoxos. Bolsonaro ficará relegado à extrema direita. Tanto Haddad quanto Tarcisio têm essa vantagem: os radicais não deixarão de votar neles, enquanto o eleitorado de centro espera por uma liderança forte e equilibrada.

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