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'Fator Cunha' inibe o ímpeto de Lula de rifar Lira

Colunista do UOL
 
Ulysses Guimarães, um sábio que viu de tudo antes de morrer, ensinava que, em política, você não pode estar tão próximo que amanhã não possa estar distante, nem tão distante que amanhã não possa se aproximar. Lula exagera. Durante a campanha eleitoral, referiu-se a Arthur Lira como se desejasse antecipar um rompimento definitivo. Eleito para um terceiro mandato no Planalto, Lula aproxima-se de Lira como se ambicionasse uma reconciliação constrangedora. Em sua primeira passagem por Brasília após a eleição, Lula incluiu conversas com chefes de poderes. A reunião com Lira é estratégica. Por três razões. Uma conjuntural: Lula precisa aprovar no Legislativo a reformulação do Orçamento federal de 2023, elaborado pelo governo Bolsonaro. Lira, no comando da Câmara, pode ajudar. Ou atrapalhar.... 
 
Outra razão é estrutural: é imperioso para Lula, eleito por uma coligação partidária minoritária no Congresso, costurar uma base de apoio legislativo para governar nos próximos quatro anos. Receia não poder prescindir da adesão de pedaços do centrão, o conglomerado partidário do qual Lira é o chefão.
 
A terceira razão, talvez a mais relevante, é sobrenatural. Envolve o "fator Eduardo Cunha", um fantasma que frequenta pesadelos dos quais o petismo não consegue acordar. Em 2015, sob Dilma Rousseff, o PT achou que seria uma boa ideia lançar o petista Arlindo Chinaglia contra Eduardo Cunha numa briga pela presidência da Câmara. Perdeu a disputa. E ganhou um inimigo, que criaria as condições para o impeachment de Dilma.
 
Aprendiz de Cunha, Lira é candidato à reeleição para o comando da Câmara. Lula soou durante a campanha como se fosse confrontá-lo. Acusou Lira de comprar votos dos deputados com dinheiro do orçamento secreto.
 
Hoje, Lula flerta com a ideia de oferecer a Lira pelo menos a neutralidade na disputa interna da Câmara. Terceiriza para o Supremo a tarefa de derrubar, se conseguir, o orçamento secreto. No pôquer da política, Lira sustenta que dispõe de votos para se manter na chefia da Câmara. Às voltas com o espectro de Cunha, Lula já não parece tão determinado a pagar para ver.... - 

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