Língua de Bolsonaro se esforça para acordar terceira via.
O principal adversário de Bolsonaro na corrida presidencial depois de Lula é a língua do presidente. Ela se comporta como se desejasse desobstruir a moribunda terceira via. Aventura-se no ramo da magia. A língua fala dez vezes antes que Bolsonaro consiga pensar.
A cada nova frase a língua retira um gambá da cartola. Os efeitos são paradoxais. Embora as frases eletrifiquem a conjuntura, não houve um curto-circuito na campanha à reeleição. Ao contrário, Bolsonaro ganha fôlego nas pesquisas.
Flávio Bolsonaro e o centrão aconselham o presidente a levar suas opiniões na coleira. Mas o candidato e seus conselheiros estão sempre vários passos atrás da língua..
Na última semana, a língua de Bolsonaro atrasou o relógio em seis meses. Recuou para o dia 7 de Setembro do ano passado. Voltaram a soar os ataques ao sistema eleitoral, as descomposturas em magistrados, os elogios à ditadura, a homenagem ao torturador e os afagos em meliantes..
No ápice do desvario, a língua de Bolsonaro deu piruetas numa solenidade oficial no Planalto. Despedia-se dos ministros que trocaram a Esplanada pelos palanques. De repente, em meio a elogios ao deputado Daniel Silveira, herói da resistência bolsonarista contra as tornozeleiras eletrônicas, a língua atacou o Supremo..
Bolsonaro mandou que os ministros do Supremo calem a boca. "Temos tudo para ser uma grande nação. O que falta? Que alguns poucos não nos atrapalhem. Se não têm ideias, cala a boca. Bota a tua toga e fica aí. Não vem encher o saco dos outros.".
O alvo principal parecia ser Alexandre de Moraes, que assume em agosto a presidência do Tribunal Superior Eleitoral. Edson Fachin, que chefia o TSE no momento, disse que "a democracia está ameaçada" e "a Justiça Eleitoral está sob ataque." Já está entendido que a língua não se intimida com palavras..
Deve-se a arrogância golpista da língua à impunidade que vem sendo assegurada ao seu dono. O sistema morde Daniel Silveira. Mas assopra Bolsonaro. Augusto Aras trata o presidente como um ser inimputável —como os menores de idade e os índios isolados..
"Alguns me pedem calma, que espere o momento oportuno. Calma é o cacete", disse a língua a certa altura, fugindo completamente ao controle do centrão. "É muito fácil dizer para o Daniel Silveira: 'cuida da tua vida'. Não vou falar isso".
Difícil prever quais serão os próximos lances da guerra que Bolsonaro trava contra a lógica e o bom senso. A única certeza disponível é que a língua do presidente soa como se quisesse acordar a terceira via. O eleitorado, cansado de esperar pelo dia em que os candidatos alternativos darão sinal de vida, puxa a cadeira. Ou um ronco..

