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Bolsonaro precisa virar votos, mas discursa como se planejasse virar a mesa.

Josias de Souza

Colunista do UOL

30/03/2022 18h16

Num instante em que o deputado bolsonarista Daniel Silveira se refugia na Câmara, transformando o prédio do Legislativo em plataforma de tiro contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Bolsonaro voltou a levantar suspeitas sobre o processo de votação eletrônico. A simultaneidade não parece casual. Moraes assumirá o comando do Tribunal Superior Eleitoral em agosto. Presidirá as eleições de outubro.

"Podem ter certeza que, por ocasião das eleições, os votos serão contados no Brasil", disse Bolsonaro num comício fora de época realizado no interior do Rio Grande do Norte. "Não serão dois ou três que decidirão como serão contados esses votos", ele acrescentou. O que o orador quis dizer com isso, não se sabe. O que ninguém ignora é que Bolsonaro acena há muito tempo com uma confusão à beira da urna.

O presidente ora defende o voto impresso, ora inventa mentiras sobre as urnas que o elegem para sucessivos mandatos. Ora insinua que as Forças Armadas colecionam indícios sobre uma inexistente vulnerabilidade do sistema eleitoral, ora ataca ministros que do Supremo e do TSE. Por enquanto, a confusão esteve apenas na retórica do presidente, que voltou a ficar encrespada justamente na hora em que Moraes mandou reinstalar uma tornozeleira na perna do deputado bolsonarista.

"Nós defendemos a democracia", bradou Bolsonaro, como se o regime estivesse prestes a entrar em colapso. "Nós defendemos a liberdade", ele prosseguiu. "Tudo nós faremos, até com o sacrifício da própria vida", exagerou o presidente, antes de se vangloriar de ter adotado medidas que favoreceram a distribuição de armas aos brasileiros. A certa altura, repetiu um dos seus bordões prediletos: "O povo armado jamais será escravizado"..

Não se sabe que surpresas Bolsonaro prepara para o final do ano. Mas é impossível deixar de notar que há um quê de Donald Trump em sua retórica. Nos Estados Unidos, a insurreição que se seguiu à derrota eleitoral de Trump durou seis horas. Produziu mortes e vexames. Hoje, despacha na Casa Branca o rival Joe Biden. Bolsonaro talvez aproveitasse melhor o seu tempo concentrando-se nos planos para virar votos, não a mesa.

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