Sem anteparo de Milton Ribeiro, cara de Bolsonaro fica em contato com fogo.
Em política, a melhor hora para mudar é antes que a mudança seja necessária. A descoberta de que pastores comandavam um balcão de verbas no MEC fez tremer o ministro Milton Ribeiro. A gravação em que Ribeiro atribui o lobby pastoral a um "pedido especial" do presidente foi um achado que deixou o chefe perdido.
Os depoimentos de mais de dez prefeitos sobre os achaques que sofreram em nome de Deus mostraram muito cedo que já era tarde para manter Ribeiro no cargo. Ao declarar que botava a "cara no fogo" pelo ministro, Bolsonaro entrou em processo de autocombustão. Decorridos quatro dias, o presidente realizou por pressão o afastamento que deixou de fazer por obrigação.
Livrando-se de Milton Ribeiro, o presidente perde o anteparo que separa sua cara das labaredas que ardem no Ministério da Educação. No pedido de inquérito que remeteu ao Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral Augusto Aras excluiu Bolsonaro do rol de investigados.
Entretanto, a ministra Cármen Lúcia, relatora da encrenca, deu duas semanas de prazo para que Aras aguce sua curiosidade. Para ela, é imprescindível investigar todos os envolvidos no escândalo.
Ainda que o procurador insista em exercitar o hábito de não procurar, ficará piscando no letreiro da campanha eleitoral, como uma legenda tóxica, a voz do ministro na fita: "Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do [pastor] Gilmar" Santos.
Continuará pingando no noticiário, no inquérito da Polícia Federal e na auditoria aberta no Tribunal de Contas da União o conta-gotas dos prefeitos sobre os pedidos de propina atribuídos ao segundo pastor, Arilton Moura —em dinheiro, em ouro, na aquisição de Bíblias.
No governo, as reações epidérmicas que acontecem quando a coisa em volta pega fogo podem expor queimaduras de primeiro ou de segundo escalão. Com sua demora, Bolsonaro sujeitou-se a ganhar uma queimadura de primeiro escalão num instante em que precisa de votos.

