Busque abaixo o que você precisa!

Fracasso previsível de atos contra Bolsonaro escancara impasse brasileiro

Igor Gielow / FOLHA DE SP
SÃO PAULO

"A gente não sabe o que fazer com o Bolsonaro, e ele não sabe o que fazer com o seu cargo", resumiu, antes da jornada de atos previsivelmente esvaziados contra o presidente, um dos atores políticos centrais em Brasília nesses dias.

O domínio da entropia parece se consolidar pelo país. Jair Bolsonaro fez sua tentativa malograda de autogolpe no dia 7 de Setembro, um fracasso retumbante em diversos aspectos.

Animada, a oposição à direita tentou turbinar seus protestos já programados para este domingo (12), confiante em que a bizarra tentativa presidencial de emparedar o Poder Judiciário faria a classe média que apoiou em parte a rua de 2103 e a tomou em 2016 voltasse a dar as caras.

Fracassou, como qualquer pessoa com visão razoável perceberia ao examinar as imagens da avenida Paulista. Isso para não falar no vazio no resto do país. Os motivos estavam decantados.

Primeiro, a esquerda. Os atos anteriores deste ano contra Bolsonaro foram obra do espectro liderado pelo PT, embora espertamente o líder nas pesquisas Luiz Inácio Lula da Silva tenha se esquivado de dar as caras.

O motivo? Tudo o que ele quer é um Bolsonaro anêmico pronto para ser nocauteado nas urnas em 2022, e não alguma alternativa a encarnar o antipetismo com vigor eleitoral na centro-direita. Assim, ora o chefão petista diz que o presidente é o diabo a exorcizar, ora ele convenientemente some nas sombras.

Ainda assim, foram atos grandiosos, apesar das limitações da pandemia, maiores que o 7 de Setembro golpista de Bolsonaro. Decaíram, contudo, aos poucos.

Para este domingo, a convocação era do que sobrou dos movimentos que ajudaram a empurrar o Congresso contra Dilma Rousseff (PT) em 2016. Parte da esquerda aquiesceu, dizendo que o importante era atacar Bolsonaro, mas a maioria visível torceu o nariz para o MBL e afins.

É a maldição da "frente ampla", uma fábula que todos os lados contam quando querem jantar os adversários sob a alegação de que Churchill se uniu até a Stálin porque Hitler estava do outro lado. É uma ilusão na política brasileira, contada ora por ingênuos, ora por espertos.

A segunda razão do fracasso está na própria centro-direita. Por mais asco que Bolsonaro inspire na parte majoritária do eleitorado conservador que aderiu a ele em 2018 e hoje quer algo diferente, não há o que deputados chamam de "climão" para levar gente às ruas.

Claro, havia um grupo razoável na Paulista, mas menor do que na terça, e bem menor do que nos atos esquerdistas. Soa um contrassenso, dado que é essa a massa que decide quem ganha a eleição, não as franjas à esquerda e à direita.

Seria fastio com a degradação institucional? É uma hipótese a estudar. Mas mesmo o relativo fracasso tem de ser colocado em perspectiva.

Havia, afinal de contas, pessoas nas ruas, algo comparável ou maior do que a reunião feita pela esquerda no vale do Anhangabaú na terça passada, como forma de antagonismo aos brados golpistas da Paulista.

E a organização era incomparável: os atos do 7 de Setembro foram objetos de uma das maiores convocações sistemáticas feitas por um governo na história recente, e ainda assim não bateram em números as ruas da esquerda de maio e junho.

Isso não implica a ausência de perdedores. Ainda em busca de certa respeitabilidade na arena política, movimentos como o MBL não lograram convencer muita gente a aderir, a despeito de chamamentos de ditos bem-pensantes de clivagem progressistas ao "estamos todos juntos".

Não ficou muito bem na foto o governador João Doria (PSDB-SP), que decidiu se expor na Paulista. Foi um ato coerente, é certo, dado que o tucano está na linha de frente do embate institucional com Bolsonaro e defende abertamente seu impeachment após as falas golpistas da terça.

Seu curto discurso condensou pontos de sua campanha ora idealizada, como o "Fora, Bolsonaro" e a aposta feita pelo tucano na vacina contra a Covid-19. Serviu como test-drive de palanque.

Isso dito, Doria associou-se a um ato esvaziado, o que não é exatamente auspiciosos para quem ainda está em curso de viabilizar sua candidatura a presidente em 2022.

Do lado otimista para os antibolsonaristas, o palanque na Paulista foi diverso, juntando figuras antes imiscíveis. Isso, salvo um mudança exógena ao processo político brasileiro, não deve se configurar em nenhum tipo de aliança formal em 2022.

Para quem alimenta a fantasia da "frente ampla", que junte de "Lula a FHC", o caminho a percorrer ainda é bastante longo, para não dizer fechado.

Já os bolsonaristas também não têm muito a celebrar. Há pessoas dispostas a seguir na rua, até pelo clima incompreensível de fim de pandemia instalado no país, tanto a favor como contra o presidente.

Seu recuo tático sob a batuta de Michel Temer na semana passada operou o esperado até aqui, ou seja, frases de apoio à ideia de pacificação no Legislativo e no Judiciário. Há autoengano, interessado ou não, por todo o lado.

A oposição de centro-direita a Bolsonaro não tem musculatura para removê-lo por instrumentos considerados aceitáveis, como o impeachment.

São esses aqueles que "não sabem o que fazer com ele". A esquerda liderada pelo PT, paradoxalmente, além do raquitismo estrutural, prefere ver o presidente na cadeira —e de joelhos.

Já Bolsonaro segue com seu desgoverno, que tal qual o proverbial dique da Holanda acumula rombos e vazamentos. Inflação, desemprego, anomia política, a constante ameaça autoritária, tudo isso permanece no cardápio do cotidiano.

Como diz o interlocutor da frase que abre este texto, o que existe mesmo é um impasse, ora incontornável.

Compartilhar Conteúdo