A sórdida briga por cargos - J. R. Guzzo, O Estado de S.Paulo
Normalmente o Congresso Nacional vive seus piores momentos durante o período de eleição das mesas diretoras - a turma que vai mandar de verdade em suas duas casas, para todos os efeitos práticos, pelos dois anos seguintes. Como sabem até as crianças com dez anos de idade, é a única coisa que realmente interessa aos nossos representantes do povo: com qual candidato a presidente, e a “chapa” que vem em volta dele, eu vou me dar melhor? A situação se reproduz, como num espelho, nas eleições para o comando das Assembleias Legislativas e das Câmaras de vereadores espalhadas pelos 27 Estados e 5.500 municípios do Brasil. Não é nem um pouco melhor; é apenas mais barato.
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No caso da presente disputa pelas presidências do Senado Federal e da Câmara de Deputados, que elegerão em 1º. de fevereiro seus novos dirigentes, há um “plus a mais”, como se diz. Desta vez, não se observa apenas a sórdida briga por cargos na mesa - e o cacho de empregos que vem pendurado em cada um deles, mais a capacidade de conceder privilégios para parentes, amigos e a amigos dos amigos e autorizar furtos explícitos ao dinheiro público. Além da desgraça de sempre, agora há também uma campanha aberta para tornar a política brasileira mais suja do que já é.
Ninguém diz que é isso, é claro, mas é exatamente isso: o PT e o que se considera a “esquerda” na Câmara e no Senado querem vender seu apoio para o candidato, ou candidatos, que se comprometerem a desmanchar a Lei da Ficha Limpa – uma das pouquíssimas coisas que o Legislativo brasileiro fez nos últimos anos em favor da moralização da vida pública. A lei, como se sabe, proíbe que candidatos condenados na justiça, incluindo-se aí as condenações por corrupção, sejam candidatos a cargos de governo.
Este, tristemente, é o principal marco ideológico do PT de hoje. Por conta da situação penal do ex-presidente Lula e de tantos outros grandes nomes da política nacional, todos eles prontíssimos, no momento, a se tornarem aliados, a prioridade do partido passou a ser o combate sem tréguas a qualquer coisa que possa ser usada contra a corrupção e os corruptos.
Desmontar a Lei da ficha Limpa, obviamente, não beneficia só o PT. Num Congresso Nacional em que 30% (ou bem mais) dos deputados têm problemas com a justiça penal (sem contar a situação dos senadores), a militância pró-impunidade tornou-se praticamente uma religião. Mas chamar a si, na frente de todo mundo, o papel de liderança no movimento em favor da roubalheira é afundar ainda mais no abismo. É a isso que está reduzido o ex-maior partido político do Brasil.



