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Neorrurais trocam cidade pelo campo em busca de novo estilo de vida

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

 

Nascida e criada em Belo Horizonte, Nathalia Muguet, de 30 anos, vive em um sítio em Sobradinho, rodeada por mais de 700 mil plantas em sete hectares, o equivalente a sete campos de futebol. Há cinco anos, seu horizonte era um apartamento convencional, onde morou com os pais até decidir ir embora para seguir a carreira de agroflorestora. 

 

Nathalia e a família no sitio
Nathalia e a família no sitio Foto: Sitio Semente

Cada vez mais comum no País, esse movimento de êxodo urbano, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, vem ganhando força entre adultos jovens que buscam um novo meio de vida e trabalho que combine bem-estar, cuidados com a natureza e, eventualmente, novas formas de ação coletiva. São os chamados neorrurais

Originado na França entre 1970 e 1980, o conceito é relativamente recente no Brasil. Cresceu na década de 1990 e ficou mais evidente a partir dos anos 2000, associado ao crescimento do ambientalismo e de alternativas sustentáveis na agricultura. “Foi um desafio contar para minha família que queria fazer faculdade para virar agricultora. Vi que nessa profissão é possível ajudar as pessoas com alimento e auxiliar o meio ambiente. Decidi fazer um curso superior para estudar mais cientificamente e, aos 25 anos, mudei de vez para o campo”, conta Nathalia. 

De acordo com Sérgio Schneider, professor do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, essa revalorização do rural e do meio ambiente se dá em um cenário em que a qualidade da vida urbana tem se deteriorado. “A cidade se tornou cara, caótica e violenta.”

Ativo econômico

Há também uma maior preocupação com a saúde física e mental, que não combina com o estresse, a competição e o individualismo típicos do urbano. Essa opção por um novo modo de vida, segundo o sociólogo, envolve uma prática de consumo e de engajamento político dentro do contexto de sustentabilidade. “A questão ambiental deixou de ser meramente protesto e passou a ser um ativo econômico.” 

Se no passado as migrações aconteciam de forma isolada, hoje, os neorrurais têm ajudado a encurtar essa distância entre a cidade e o campo. Com o avanço da tecnologia comunicacional, como a internet, a dimensão do espaço físico não é mais um elemento impeditivo para o indivíduo se conectar com o mundo. “Os neorrurais deixam uma empresa, mas não perdem o contato com ela e muitas vezes fazem consultorias ou trabalhos que mantêm os fluxos de renda em dois espaços”, exemplifica Sérgio. “É a ideia do pense globalmente, aja localmente.” 

Embora ainda não existam estatísticas sobre o assunto, o movimento já é observado em diferentes regiões do Brasil, como explica Ivan André Alvarez, pesquisador da Embrapa Territorial. “É comum em áreas conhecidas como periurbanas, próximas dos centros urbanos. São pessoas na faixa de 30 a 40 anos, que conseguem aliar o agronegócio com a preservação do meio ambiente. Elas conhecem o mercado, porque eram consumidores na cidade.” André destaca que os neorrurais são mais abertos ao associativismo. “Eles criam soluções em conjunto. É mais fácil e rentável vender um produto de maneira associativa.” 

Para Ademir de Lucas, professor da Escola Superior de Agricultura (Esalq/USP), os neorrurais levam para o campo a vivência no urbano, oriunda dos trabalhos que faziam na cidade - o que contribui para a diversificação para além da agricultura, como serviços de turismo ecológico. O que na visão de Paulo Eduardo Moruzzi Marques, professor da Esalq/USP, “é um reconhecimento de que o campo pode oferecer alternativas interessantes às famílias”. 

A dificuldade em quantificar os neorrurais reside na incipiência e na pluralidade do movimento. Como adverte Gabriel Siqueira, mestre pela Universidade Federal de Santa Catarina, muitos vivem em assentamentos sustentáveis. O Conselho dos Assentamentos Sustentáveis da América Latina, do qual Gabriel é representante, tem mapeado essas áreas desde 2018. “Está ocorrendo um aumento dessa migração para o campo. E com a crise da pandemia o movimento está ainda mais forte, com a viabilidade do home office.”

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