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Perfis mais à direita superam em quatro vezes total de contas mais à esquerda suspensas em rede social

SÃO PAULO

O total de contas de pessoas mais à direita suspensas pelo Twitter nos últimos 14 meses é quatro vezes maior do que as contas consideradas mais à esquerda enquadradas da mesma forma pela plataforma.

A classificação dos perfis foi feita com o GPS Ideológico, ferramenta desenvolvida pelo DeltaFolha para monitorar o debate político na rede social.

Aqueles que estão entre os 5% mais à direita das contas analisadas concentraram 3.870 suspensões (num total de 86.052 perfis com as mesmas características ideológicas). No grupo equivalente à esquerda, foram 793 contas enquadradas pelo Twitter (num total de 86.051 perfis com as mesmas características).

O levantamento da Folha, feito de maio de 2019 a junho de 2020, não inclui as contas bloqueadas pela plataforma na última sexta-feira (24) —medida tomada por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Contas deletadas pelos próprios usuários também são mais frequentes no grupo citado à direita, mas a diferença é mais sutil: foram 6.964 à direita e 5.931 à esquerda.

As suspensões pela plataforma aconteceram em período de intensa discussão sobre o uso de redes sociais para disseminação de fake news e discursos de ódio. A reportagem não tem acesso aos motivos dos bloqueios de cada conta, que, segundo o Twitter, são sigilosos.

O presidente Jair Bolsonaro, seu filho Carlos, o ex-presidenciável Fernando Haddad (PT) e o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) foram alguns dos que interagiram com algumas das contas apagadas.

O filho do presidente foi o mais ativo: o vereador Carlos Bolsonaro interagiu 53 vezes com contas que saíram do ar, todos perfis entre os 20% mais à direita. É dele também a maior taxa de seguidores bloqueados pelo Twitter entre as figuras políticas analisadas: 3% de quem o acompanhava foram suspensos pela rede social.

O vereador é apontado como mentor do chamado "gabinete do ódio", instalado no Palácio do Planalto para definir estratégias digitais do governo. Em abril, a Polícia Federal identificou Carlos como um dos articuladores de um esquema criminoso de fake news.

Segundo o pesquisador de redes sociais Fábio Malini, a direita tem um funcionamento próprio, que se alimenta especialmente de declarações. À medida que o governo se fragiliza, a comunicação fica mais agressiva.

"Quem está no governo precisa ser mais intenso na comunicação da rede. E um dos efeitos da intensidade é produzir a saturação da própria comunicação."

"É pensada uma lógica de guerra. E parte da tropa vai morrer durante a guerra. Ser governo implica estar em tensão permanentemente. Eu não sei se seria assim se esse dado tivesse sido colhido em 2018, quando o [ex-presidente pelo PT] Lula estava sendo preso, por exemplo", afirma.

A audiência que influenciadores governistas ganharam nas redes, diz Malini, é uma inauguração do bolsonarismo. "Você junta o DNA governista com o DNA bolsonarista, que tem uma ecologia muito profissional de produção de coro."

O pesquisador explica que a identidade bolsonarista traz consigo, ainda, a negação da ciência. Essa característica pode colocar seus perfis em maior risco de suspensão nas redes, especialmente em tempos de pandemia.

A replicação de conteúdos da imprensa por usuários da esquerda, por outro lado, cria uma espécie de vacina para esse grupo contra atividades que violem as regras da comunidade.

Segundo Malini, o fenômeno acontece porque o caráter crítico do jornalismo com governos em geral passa por um filtro e ganha cores políticas nos discursos de oposição, hoje a esquerda.

A conta de Ysani Kalapalo foi uma das bloqueadas pelo Twitter neste um ano. Não é a primeira vez que isso acontece com a indígena que acompanhou o presidente Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU.

Ela afirma que o pivô da sua terceira suspensão da rede social (a primeira foi em 2011) foi justamente os apoiadores do presidente, que não tem mais o seu apoio.

O imbróglio teria começado quando Kalapalo contou em seu perfil que, em 2014, fez um workshop na Fundação Estudar, de Jorge Paulo Lemann. O empresário costuma ser associado à esquerda por direitistas.

“Vieram os bolsonaristas radicais e me atacaram para caramba”. Ela conta que respondeu as pessoas ironicamente e usou palavras de baixo calão para se referir a uma mulher, o que teria sido o motivo da sua suspensão.

Em 2019, quando também foi bloqueada pela plataforma, a justificativa foi por "promover discurso de ódio". Na esteira dos vazamentos de mensagens da Lava Jato, ela foi ao perfil do jornalista Glenn Greenwald, fundador do site The Intercept Brasil, responsável pelas primeiras reportagens do caso.

“Perguntei: Quanto será que esse viado está ganhando? E também fui banida. Eu não sou homofóbica, é o meu jeito. Eu falo isso para as pessoas que estão próximas de mim.” Greenwald é homossexual.

Procurado, o Twitter afirmou que "toma medidas corretivas em contas que violam as suas regras".

"Nenhuma de nossas regras é baseada ou leva em consideração posicionamento político-ideológico —somos uma plataforma que preza a livre expressão de diferentes opiniões; além disso, não temos acesso à preferência político-partidária das pessoas que usam a plataforma e tampouco fazemos inferências como a do levantamento", afirmou a rede.

Colaborou Mateus Camillo / FOLHA DE SP

 

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