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Lascados ou polidos? Renato Ochman, O Estado de S.Paulo

“É de admirar que um adivinho não ria ao encontrar outro adivinho”, essa foi uma das contribuições de Marco Túlio Cícero à humanidade. O advogado, político, escritor e filósofo romano deu muitas outras durante sua vida, entre os anos 106 e 43 antes de Cristo. Ao reler isso contenho minhas previsões sobre o futuro, ainda que acredite que possa contribuir com uma reflexão sobre o mundo pós-coronavírus.

De repente, um mundo – a parte privilegiada que criou conforto ou proteção, que urge ser mais inclusiva – que se dedicava a pesquisar novas fórmulas para prolongar a vida, até mesmo com estudos médicos avançados, a encontrar respostas para planos de previdência social capazes de dar conta de mais décadas ativas, vê-se assustado, trancado, sem poder sair às ruas, com medo de contaminação e morte; ou vê aumentar o estado de desgoverno de uma doença ainda sem solução, mesmo sendo a principal fonte de esforços dos maiores centros técnicos do planeta. 

Bem rápido, passou-se de um sonho longo para um pesadelo concreto de curtíssimo prazo, que se agrava com o placar do avanço dela. Sem falar na catástrofe econômica e social que ameaça jogar todos numa crise de proporções inéditas. Se o bem-estar está longe de abarcar todos, o pesadelo se fantasia de amplo e irrestrito, ameaçando ricos e pobres. Quem cumpre o isolamento com algum conforto, se controlar as angústias, mesmo que mantendo uma intensa rotina de trabalho, ganha algo cada vez mais raro: tempo. 

Fugindo do dito “mente vazia, oficina do diabo”, busco entender esse mundo todo conectado, praticamente sem barreiras, ver as fronteiras serem fechadas em oposição à solidariedade humana, cada um de nós sente na pele e na alma o lado negativo do isolamento e a concretude da interdependência. Penso na dirigente francesa denunciando que não tem condições de pagar à vista, e a preço três vezes superior, o carregamento de material de saúde que então ganha outro destino, ou nos sequestros desses produtos em trânsito: cada país pensando apenas na sua população. Sairemos dessa mais juntos ou separados? Olhando o mundo como um quintal ou mirando as origens, a aldeia, e nos fechando?

Quero ouvir o sociólogo americano Richard Sennett. Como o conceito de cidade aberta responderá às implicações dessa crise? Em 2008, após a quebra do Lehman Brothers, as vendas do livro A Cultura do Novo Capitalismo dispararam. De Juntos, cujo subtítulo é Os rituais, os prazeres e a política de cooperação, destaco: “A cooperação azeita a máquina de concretização das coisas, e a partilha é capaz de compensar aquilo que acaso nos falte individualmente”, e “voltar a olhar para fora gera um vínculo social melhor do que imaginar que os outros estão refletidos em nós mesmos ou fazer como se a própria sociedade fosse construída como um salão de espelhos. Mas olhar para fora é uma habilidade que devemos aprender”. No Construir e Habitar ele explora as diferenças entre ville e cité, o físico e concreto x a experiência e a cultura, e como as fissuras sociais, tecnológicas e arquitetônicas, e o tempo, devem ser incluídas no planejamento do viver. Precisaremos disso! 

Ali em janeiro, o temor mundial era de uma guerra a ser iniciada pelo Irã como reação à morte do líder Qassim Suleimani. A bolsa brasileira batia recordes e a fumaça do incêndio australiano chegava aqui. No dia em que o dirigente chinês Han Zheng falaria em Davos, 21 de janeiro, os jornais brasileiros noticiaram pela primeira vez um vírus que havia causado quatro mortes em Wuhan e contaminado quatro pessoas na Coreia do Sul. A matéria mencionava que a Sars, entre 2002 e 2003, matara 650 pessoas na China e incluía a estimativa do Imperial College de Londres de que em 12 de janeiro havia 1.723 casos em Wuhan. Zheng não abordou o assunto, durante o fórum, que foi até dia 24, o problema foi mencionado e os rumos se mantiveram. 

No dia 23 de janeiro a B3 encerrou seu pregão em 119.527 pontos, recorde histórico. Em pouco mais de dois meses, o mundo virou de cabeça para baixo, poucos se prepararam como deveriam. Foi preciso o Imperial College estimar o número de contaminados e de mortes para alguns governantes darem prioridade a vidas sobre a economia. O pavor devolveu à ciência e ao conhecimento seus valores, ainda que sem o consenso do necessário para enfrentar as enormes dificuldades. Vivemos um período que marcará a História, é preciso tirar lições e evitar a repetição de erros.

Quando o homem abandonou o período paleolítico, conhecido como da pedra lascada, por volta de 8.000 a.C. e deixou o nomadismo, sedentarizando-se e dando início a agricultura, entramos no período neolítico, ou da pedra polida. Estaremos lascados, polidos ou saberemos usar este período de freio e reflexão para partirmos, coletivamente, para uma solução mais efetiva? Não dá mais para sermos uma sequência de cópia de humanos, ditados pela moda e por ideias escaneadas. Mais do que nunca a solução terá de fazer sentido para todos os continentes. Aprendemos com Cícero a não tentar ser adivinhos.

ADVOGADO, BOARD MEMBER DA NEW YORK UNIVERSITY – SCHACK INSTITUTE

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