Década perdida: Pandemia fará Brasil ter pior desempenho em 120 anos, com ameaça ao futuro dos jovens
Rennan Setti, Cássia Almeida e Vitor da Costa* / O GLOBO
RIO - Décadas “perdidas” desperdiçam gerações, e os jovens brasileiros se veem espremidos entre a mais perdida delas e um futuro incógnito. É na década que termina este ano que o país estagnou e sofreu o maior recuo de renda de sua História. A retomada lenta após recessão profunda foi atropelada pela pandemia, selando um desastre econômico maior que o dos anos 1980 e que deixou um quarto dos jovens sem trabalho.
Pela frente, especialistas preveem uma recuperação incerta sob a sombra do coronavírus, desemprego e desigualdade mais elevados e freio à mobilidade social. Um coquetel desalentador para a juventude mais preparada que o país já teve, sobretudo a mais pobre, e que atravessará a crise no auge do seu potencial.
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O PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro na última década praticamente não cresceu. Deve fechar 2020 com taxa média de 0,1% a 0,3%, dependendo do buraco econômico com a Covid-19 este ano. Será o menor ritmo em 120 anos, segundo levantamento do pesquisador do Ibre/FGV Marcel Balassiano. Na década de 1990, a pior até agora, a expansão média fora de 1,6%. A renda per capita, que é o PIB dividido pela população, deve, na melhor das hipóteses, repetir o recuo anual médio de 0,6% dos anos 1980.
—É a mais perdida das décadas. Parte do desastre foi culpa nossa, outra, da pandemia. O Brasil ficará mais pobre depois de já ter empobrecido muito. Sairemos com mais cicatrizes que os países desenvolvidos — prevê Ricardo Denadai, economista-chefe da Ace Capital.
Educação como defesa
A geração mais jovem viverá num mundo mais precário e inseguro, sobretudo os mais pobres, disse Ricardo Henriques, superintendente do Instituto Unibanco e um dos criadores do Bolsa Família:
—Passada a pandemia, essa juventude viverá um cenário grave de defasagem educacional, de inserção futura no mercado de trabalho. Parte grande desses jovens estará com expectativa máxima de trabalho informal. Uma geração de jovens que entraram com defasagem histórica na pandemia. É uma enorme perversidade.
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Os mais desfavorecidos ainda não se recuperaram da recessão. Enquanto a renda da população caiu 2% de 2014 a 2018, os 5% mais pobres perderam 39%, lembrou Marcelo Neri, diretor da FGV Social. Por isso, a desigualdade cresceu por 18 trimestres seguidos, sequência inédita.
Os mais jovens foram especialmente afetados. A taxa de desemprego até 24 anos subiu de 16,4%, em 2012, para 28,7% em 2017, auge da recessão. No fim de 2018, estava em 23,8%, contra média de 11%.
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Neri prevê mais desigualdade, queda de renda e freio à ascensão social dos jovens:
— A crise chega quando o país já estava com o organismo social debilitado. Poderemos voltar aos índices de pobreza dos anos 1990.
Em 1992, 40% da população estavam na pobreza. Essa taxa caiu para 12,1% em 2018.
“A situação deixa a gente pessimista. Mas, para quem vem de classe social mais baixa, o estudo é uma oportunidade de mudar de vida”
Uma das defesas da nova geração é a educação. O especialista em mobilidade social Carlos Ribeiro, pesquisador do Iesp-Uerj, diz que, mesmo com a crise, os jovens de hoje dificilmente ficarão numa situação pior que a dos seus pais.
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— A educação aumentou, temos mais gente na universidade, o que ajuda na mobilidade intergeracional. Sabemos da importância da educação das mães para o futuro dos filhos. Elas são mais escolarizadas, isso não vai mudar.
O risco que correm, alertou Ribeiro, é o de regressão intrageracional intensa, com famílias inteiras empobrecendo.
Perda rápida de renda
Isabela Silva, de 24 anos, é a primeira da família a cursar faculdade. Graças ao sistema de cotas, conseguiu vaga na Uerj, onde cursa Pedagogia. Isso lhe dá otimismo. Mas a situação econômica da família se deteriorou. Cuidadora de idosos, sua mãe, que já vinha perdendo clientes antes da pandemia e não tinha carteira assinada, não consegue mais trabalhar.
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A renda familiar, que chegou a R$ 4.500, resume-se a R$ 900 que a própria Isabela consegue cuidando do afilhado. Apesar de terem direito ao auxílio do governo, não conseguiram acessar o dinheiro. No passado, mãe e filha deram entrada num imóvel, já abandonado. Hoje, a renda só dá para aluguel e comida.
—A situação deixa a gente pessimista. Mas, para quem vem de classe social mais baixa, o estudo é uma oportunidade de mudar de vida. Tendo a faculdade, a tendência é melhorar — contou a jovem de Paciência, na Zona Oeste.
A professora da Universidade Federal de Pernambuco, Tatiane Menezes, alerta para o aumento da desigualdade regional, que vinha recuando.
—Os grandes bolsões de pobreza estão no Nordeste. É onde está a maior parte da população sem boa instrução.
Para Neri, a saída é apostar no bônus educacional acumulado no passado recente. Foi ele que permitiu crescimento inclusivo antes da recessão:
— Com restrições fiscais, será preciso alocação muito clara de recursos. O problema é que a política educacional atual não parece ter essa clareza.
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Ricardo Henriques defende a reinauguração do sistema educacional e uma política nacional de conectividade focada nas escolas, usando o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust). O acesso à internet das famílias mais ricas chega a 95%. Entre os mais pobres, só metade dos lares tem acesso.
— O desafio é oferecer qualidade em massa, com redução acentuada da desigualdade e salto no desempenho.
O investimento em educação é um dos caminhos para aumentar a produtividade.
— O aumento da produtividade passa pelas reformas, mas o recrudescimento das tensões políticas deixa isso em xeque — disse Balassiano.
O que dizem os jovens
Lucas Portugal, 20 anos

Há dois anos, um drama doméstico atrapalhou os planos de Lucas Portugal de se tornar o primeiro da família a cursar faculdade. O jovem, então com 18 anos, teve que sair de casa após se desentender com os pais por ser homossexual. Precisando gerar renda para pagar seu próprio aluguel, teve que abandonar o pré-vestibular comunitário e buscar um emprego.
“Onde fui criado, a gente sempre foi ensinado a terminar a escola e procurar emprego. Minha geração está quebrando isso, estamos procurando outros espaços”
Conseguiu uma vaga de vendedor nas Lojas Americanas, seu primeiro emprego com carteira assinada. Recebia pouco mais de um salário mínimo com as horas extras, suficiente para pagar a vaga em uma república. Após um ano, porém, a unidade fechou, e ele se viu desempregado - justamente quando não havia vagas abertas para quase ninguém.

