Cientistas alertam para efeitos negativos da interrupção precoce do distanciamento social
RIO - Com base em projeções matemáticas, que contemplam os casos já confirmados e a estimativa de subnotificações do novo coronavírus, os cientistas do grupo Covid-19 Brasil fizeram um alerta sobre os efeitos negativos da interrupção precoce do distanciamento social. O professor Ivan Zimermann, doutor em epidemiologia pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista em análise de dados sobre o sistema de saúde, utilizou a situação do Distrito Federal como estudo de caso e traçou três cenários.
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- Como temos uma elevada subnotificação, que no Distrito Federal estimamos estar na ordem de cinco vezes o número oficial de casos, a gente trabalha de forma preliminar, como uma série de incertezas. Sabemos que seria ótimo trabalhar com dados mais precisos, porém é igualmente importante essa projeção, neste momento, diante do risco de desmobilização da sociedade quanto ao distanciamento social - pondera Zimermann.
No primeiro cenário, ele projetou a pressão do novo coronavírus sobre a ocupação de leitos de UTI na capital federal, considerando que nenhuma medida de isolamento tivesse sido adotada. O sistema de saúde do DF entraria rapidamente em colapso. Em maio, no pico da epidemia, haveria a necessidade de 12 mil leitos de UTI para os pacientes de Covid-19, um número considerado inatingível para a realidade local. Contudo, ainda nesse cenário, o número de leitos disponível seria ultrapassado no começo de abril.
A segunda hipótese considera o período inicial de distanciamento social, que tem como ponto de partida o dia 11 de março, e a adoção das medidas restritivas pelo governador Ibaneis Rocha. Nesse cenário, considerando a redução da taxa de crescimento de casos observada a partir do dia 21 de março, a carga máxima sobre os leitos de UTI seria de 4 mil unidades, ou seja, três vezes menos, e ocorreria em meados de julho. Nesse cenário, os leitos SUS estariam totalmente ocupados em 11 de maio.
Na terceira avaliação, os cientistas observaram a curva de internações em UTIs no Distrito Federal, caso houvesse uma interrupção abrupta do distanciamento social ontem, 13 de abril. Nesse cenário, retomando gradualmente as taxas de crescimento observadas em março, a explosão da ocupação de leitos (o pico da epidemia) ocorreria em junho, sendo que a demanda seria praticamente a mesma da primeira hipótese, ou seja, os mesmos 12 mil leitos, apenas com um atraso de um mês. Também neste caso, os leitos SUS estariam totalmente ocupados por volta de 11 de maio.
- Seria desperdiçar todo o esforço feito pela sociedade nas últimas semanas. Por isso, enquanto não temos maior segurança nos dados, acredito ser importante que as pessoas mantenham o distanciamento social para que o sistema de saúde tenha condições de suportar o número de pacientes que ainda devem ser internados - completa Zimermann. O GLOBO

