Politicagem abafa o melhor na crise da PM no Ceará... - JOSIAS DE SOUZA
Mesmo quem não entende nada de política é capaz de enxergar a politicagem quando a vê. E ela está presente na crise policial do Ceará.
A boa notícia é que o motim da Polícia Militar cearense terminou sem que a exigência de anistia de amotinados fosse atendida pelo governador Camilo Santana (PT).
A má notícia é que autoridades e políticos decidiram sapatear ao redor da memória dos 241 cadáveres que desceram à cova vítimas de homicídios durante o motim.
Se anistiasse policiais que se fecharam nos quarteis de armas na mão e capuz na cabeça, o governador assinaria sua capitulação.
Pior: se vergasse o governo estadual transformaria em sócio de uma palhaçada o governo federal, que enviou a cavalaria da Força Nacional e do Exército.
Num cenário ideal, os amotinados teriam sido retirados dos quarteis sem negociação. Negociar com tropa rebelada é ofensa à ordem democrática.
Entretanto, o que resultou do entendimento, segundo se anuncia, foi a garantia dada aos amotinados de que seus processos serão justos.
A coisa toda será acompanhada por comissão externa com gente da OAB e da Defensoria Pública. Ou seja: didaticamente, assegurou-se garantia legal a quem violou a lei.
O desfecho teria sido ainda melhor se agentes públicos e políticos tivessem feito uma greve verbal antes e depois do motim.
No sábado, Sergio Moro disse que o motim era ilegal. Mas ponderou que os policiais, por dedicados, tinham de ser valorizados. Ora, como valorizar policial fora da lei?
No domingo, falando aos amotinados, Antônio Aginaldo de Oliveira, diretor da Força Nacional de Segurança, foi ainda mais generoso.
O subordinado de Moro chamou os policiais sublevados do Ceará de "gigantes" e "corajosos". Ao agigantar os amotinados, reduziu o pé-direito da pasta da Justiça.
Depois, no Twitter, Moro festejou o fim do motim realçando o papel do governo federal. "Prevaleceu o bom senso, sem radicalismos", ele escreveu.
Vestindo a carapuça, Ciro Gomes soou como Ciro Gomes. Referindo-se a Bolsonaro, seu "capanga Moro" e os generais, disse que no Ceará "manda a Lei!". Será?
Se a Lei prevalecesse no Ceará, Cid Gomes, o irmão de Ciro, estaria respondendo a algum processo criminal. Não há lei que autorize senador a tratorar pessoas.
Suave com os amotinados, Moro foi mordaz com Ciro. A crise foi solucionada "apesar dos Gomes", ele escreveu nas redes sociais.
Jair Bolsonaro ironizou Ciro: "Não somos psiquiatras". Quando se está lidando com um insano, o melhor é se fingir de são, mesmo que você também seja meio tantã.
É uma pena que depois de assistir à desordem, o país não possa celebrar em paz o que houve de melhor no motim do Ceará: a ausência de anistia.
De resto, é lamentável que, além de suportar os efeitos da fuzarca, as vítimas dos amotinados tenham de suportar a exploração politiqueira do seu drama.


