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Com estragos, fake news seguem a lógica do me engana que eu gosto

Vera Iaconelli / FOLHA DE SP

Se Otelo, o mouro, tivesse se dado ao trabalho de averiguar a veracidade da prova forjada por Iago do adultério da esposa, a tragédia supostamente atribuída a Shakespeare (Otelo, O Mouro de Veneza, 1603) não teria razão de ser.

É claro de que a ideia misógina de Otelo, de que Desdêmona lhe pertencia e não poderia ser de outro homem, também é condição para o desfecho da tragédia. Otelo sucumbe à fake news, Desdêmona ao feminicídio —mais atual impossível.

O ato desesperado do herói emerge da infeliz conjunção entre: as intenções de Iago de obter vingança e poder a qualquer custo, o uso deliberado de fake news para esse fim, as inseguranças do enganado e o caldo de cultura racista e misógino que fragilizava a figura do casal.

Como a maldade humana não têm limites, não chega a ser inusitado que o alferes Iago fizesse de tudo para destruir Otelo, que promoveu o soldado Cássio a tenente, preterindo-o. Não há novidade aqui, mas coube ao bardo inglês o mérito de criar um dos personagens mais ricos de sua vasta coleção ao exemplificar um fato humano estrutural: a inveja é uma merda.

Se da inveja e da maldade não escapamos, pois dos afetos nunca nos livramos totalmente, por outro lado, somos inteiramente responsáveis pelo que fazemos com eles. Daí a punição exemplar do personagem —punição essa que parece, cada vez mais, só existir na ficção. Otelo, por sua vez, se suicida por remorso e tristeza.

Embora Iago tenha levado a pior no final, saímos penalizados pela morte do casal que tinha tudo para viver a juventude, o amor e o prestígio que a vida lhe ofertava.

Quanto tempo desperdiçado, quanto estrago —por vezes irreparável— se dá quando nos deixamos levar pela emoção sem a mínima reflexão.

O que pode estar em jogo aí?

A má-fé do vilão que planta a fake news não prescinde de uma conjunção favorável. 

Iago já havia tentado queimar o filme de Otelo com o sogro, espalhando que Desdêmona teria sido enfeitiçada para aceitar casar com ele.

Nesse momento, o herói consegue convencer a todos de seu amor pela jovem, dissipando as suspeitas.

Do seu amor por ela, ele tinha certeza, mas do amor dela por ele, não. Afinal, ele era mouro, ela veneziana; ele era negro, ela branca; ele era estrangeiro, ela nativa. 

O sujeito que se deixa levar pela mentira plantada tem sua parcela de culpa, paga o preço de seu auto-engano e causa terríveis estragos ao seu redor. 

As fake news têm seus efeitos mais deletérios no terreno fértil dos medos inconfessáveis e das crenças arraigadas, ainda que inconscientes.

É a fantasia subliminar de que mulheres sempre seduzem e sempre traem, de que negros são necessariamente pobres, de que roubam, de que pobres são preguiçosos, de que homossexuais são pedófilos e tarados, que serve de lastro para a mentira ardilosa se infiltrar com facilidade no tecido social.

Além dos nossos preconceitos mais estruturais —o outro é sempre visto como uma ameaça—, vivemos também a permanente busca por garantias absolutas que nos levam a decepções catastróficas. 

Foi assim que a crença religiosa, que era a resposta para toda a angústia humana, deu lugar à fé na ciência, panaceia do homem moderno. Foi assim que o mito lulista —fadado à derrocada— deu lugar ao mito bolsonarista —indo para o mesmo ralo, com resultados catastróficos.

As fake news precisam ser combatidas com controles, condenações e punições de sujeitos, que —como podemos ver no exemplo de Iago— só têm interesses pessoais de ascender e se manter no poder a qualquer custo.

Mas também é necessário o diálogo com pessoas que se sentem profundamente ameaçadas diante das mudanças de costumes, das conquistas das minorias (que são a maioria da população) e decepcionadas por acreditarem em mitos —que sempre se revelam fake.

Apoio total à jornalista Patrícia Campos Mellodifamada na CPI das Fake News, que não serve de exemplo de vítima shakespeariana, pois levanta sua voz com e em nome de todos nós.

 

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