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Crescimento medíocre, nosso maior risco

SUPERMERCADO

 

Os sinais recentes de aceleração da atividade são bastante incipientes, porém consistentes. Com exceção da indústria, que continua estagnada, vemos melhora nos indicadores de consumo, serviços, construção civil e concessões de crédito.

O governo colhe frutos de seu antecessor, que avançou em reformas como a do teto de gastos e a trabalhista, na diminuição dos subsídios e, principalmente, no controle da inflação, o que permitiu atingirmos baixíssimos níveis de juros. 

Cabe à atual gestão o importante mérito de ter promulgado a reforma da Previdência, resolvido finalmente o imbróglio da cessão onerosa e começado a buscar uma maior abertura comercial com importantes parceiros, como a União Europeia e a China.

Nada disso, porém, é suficiente para animar os investidores. Há pouca visibilidade de que continuaremos na direção de reformas liberais, justamente porque a economia está demorando a decolar. 

A América Latina passa por convulsões sociais, e há sempre risco de contágio.

Os acontecimentos recentes aumentam a urgência do crescimento. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu da prisão atacando fortemente o modelo econômico liberal, no momento em que este começa a mostrar que pode dar certo. Bolsonaro, que até agora nadava de braçada sem oposição organizada (em contraponto à sua falta de habilidade política), poderá enfrentar um ambiente mais hostil.

Reformas não costumam ser populares: atingem setores muito bem organizados que lutam com veemência para manter o status quo. 

A Previdência ganhou apoio da população ao escancarar os privilégios de quem se aposenta extremamente cedo. Além disso, houve um entendimento dos políticos e da sociedade civil de que, sem tais mudanças, entraríamos em uma profunda recessão, com o país quebrado.

Infelizmente, com sua implementação, apenas desaceleramos o crescimento do rombo previdenciário, não abrimos ainda espaço para investimentos públicos nem afastamos o risco de descumprir o teto de gastos. 

Para que o ajuste fiscal seja completo, dois desafios estão postos: acabar com a vinculação dos gastos sociais aos reajustes do salário mínimo e fazer uma reforma administrativa.

O primeiro não avança porque o sistema político não aceita que benefícios sociais sejam corrigidos apenas pela inflação. Falta conhecimento da distribuição de renda do Brasil. Quem ganha salário mínimo hoje no país não é pobre. Essa é a realidade, infelizmente.

O segundo, por sua vez, foi abandonado nesta semana por Bolsonaro e Guedes. O governo cedeu para a bancada dos servidores e parece temer manifestações de rua. Deveria se debruçar na recente pesquisa XP Ipespe, a qual mostra que a maioria da população concorda que as leis que regem o serviço público devem ser alteradas para permitir demissões em tempos de crise. Para 46% da população, as normas que dificultam a demissão de servidores públicos são negativas e incentivam a baixa produtividade.

A reforma tributária, importantíssima para a produtividade da economia, não parece ser prioridade. Nunca houve momento tão propício para sua aprovação, mas preferimos focar novamente a desoneração da folha de pagamentos e voltar a circular a péssima ideia da volta da CPMF. 

Precisamos urgentemente consolidar o crescimento ou jogaremos fora todo o árduo trabalho realizado até agora. A urgência está na persistência de continuar avançando, e não na busca de soluções mágicas.

Solange Srour

Economista-chefe da gestora ARX Investimentos. É mestre em economia pela PUC-Rio. FOLHA DE SP

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