O encanto da 'palmeira do amor', que só floresce uma vez

Uma beleza que chama a atenção de quem passa pelo parque, a pé ou de carro. E poderá ser apreciada por cerca de um ano e meio a dois anos, tempo de vida da Talipot. A espécie, afirma a paisagista Denise Pinheiro, que trabalhou com Burle Marx, leva de 40 a 70 anos para dar flores. O que nos faz crer que essas gigantes — elas chegam a 25 metros — carregadas de florzinhas são do grupo pioneiro do parque. É que, desde os anos 1990, houve replantios, um deles durante a revitalização da área, em 2000.
— Depois de um ano, um ano e meio, acaba a floração e vem a frutificação. Ela dá frutos pequenos, que lembram uma noz e formam tapetes em volta dela. Depois disso, ela vai definhando —diz Denise, mostrando folhas mortas em frente ao Hotel Glória com cerca de três metros.
Mistério sobre mudas
Nesse ponto, junto a um posto de gasolina, há 18 árvores, que têm apelidos como “palmeira do amor” e “palmeira dos cem anos” (tempo que duraria em sua terra natal). Cinco estão em flor. Uma outra assim, no auge, enfeita a paisagem entre o MAM e o Monumento aos Pracinhas. Também tem uma florida perto da Marina da Glória.
O parque tem cerca de 70 palmeiras dessa espécie. Ao longo dos anos de 1960, conta Isabela Ono, paisagista do Escritório Burle Marx, foram plantadas mais de cem. Num fenômeno inesperado, algumas palmeiras em floração foram vistas próximas ao MAM, em 1992. Ou seja, menos de 30 anos depois da inauguração do parque, em 1965.
— Elas floresceram com 30 anos ou menos, mas foram plantadas já com alguns anos de vida. Roberto, na época, atribuiu o fenômeno aos herbicidas usados no parque — comenta Isabela Ono, lembrando que o paisagista, no entanto, não chegou a ver a palmeira plantada no seu sítio, em Barra de Guaratiba, florida. — Ele faleceu em 1994, e uma semana depois ela iniciou o processo de floração. Falaram que era uma homenagem da natureza para ele — recorda ela.
Para Denise, que escreve um livro sobre o parque com o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, a Talipot é uma obra de arte:
— Ela é escultórica. A base das folhas forma um entrelaçado lindo, que reveste os troncos quando elas são jovens. Quando ficam com o tronco liso, é porque vão dar flor. É muito curioso, ela passa por todas as etapas da vida, juventude, adolescência...
Na velhice, as folhas descem até cair ao chão. Ciente do tempo particular dessas árvores, a fonoaudióloga Cristina Pinheiro buscava, na última quinta, sementes perto do Hotel Glória, após ver fotos num grupo de WhatsApp.
—Quero plantar uma na minha casa em Búzios. Mas, provavelmente, só será vista assim por meus filhos e netos. Restará a mim contar a sua história, que acho espetacular —dizia ela. —Se aqui não fosse tão sujo, faria um piquenique só para admirá-la.
Denise dá a dica: o plantio é feito com o frutinho, que deve ser enterrado maduro em areia lavada num depósito de plástico. É preciso paciência, e aguardar pelo menos seis meses para a planta despontar.
A floração não chega ser um evento raro, porque há palmeiras Talipot de diferentes idades no Aterro. É possível que, na próxima primavera, outras estejam tomadas de florzinhas.
Muito se sabe sobre elas, mas ainda resta um mistério. De onde Burle Marx trouxe os primeiros exemplares? Isabela diz que ele pode ter adquirido na Índia, por onde passou. Ele viajava muito. Outra possibilidade é que tenha trazido de Miami, Cuba ou de Caracas —antes de desenhar o Parque do Flamengo, ele deu vida ao Parque Del Este, na capital venezuelana.
Essa história será investigada pelo Instituto Burle Marx, recém criado. Com um acervo de mais de dois mil projetos paisagísticos, a instituição pretende botar disponível toda essa documentação para pesquisa e, claro, para as novas gerações.
O ciclo da Talipot, obra de arte na primavera carioca
Nome científico: Corypha umbraculifera
Origem: Índia e Sri Lanka
Altura: Pode chegar a cerca de 25 metros
Tempo de vida: Entre 40 e 70 anos
Floração: Só acontece uma vez. Após florescer, a árvore morre em dois anos

