Análise: Em meio a derrotas, plano de integração de fronteiras é um afago a militares
BRASÍLIA - Desde que o presidente Jair Bolsonaro decidiu que daria algum crédito aos ataques do núcleo ideológico de seu governo contra os militares, generais do Palácio do Planalto vêm sofrendo uma sequência de derrotas. Foram ignorados nas indicações que fizeram ao Ministério da Educação e à Secretaria de Comunicação, foram contrariados pela decisão do chanceler Ernesto Araújo de demitir o diplomata Mario Vilalva da Apex e viram o principal mentor de seus ataques, o ideólogo de direita Olavo de Carvalho, ser laureado com o mais alto grau da Ordem de Rio Branco, honraria conferida a presidentes, ministros e autores de grandes feitos no Brasil.
Mas como o interesse do núcleo ideológico jaz no discurso, e não no ato de governar, militares têm encontrado algum contento na condução de projetos que classificam como “de Estado”, como é o caso do programa de integração de fronteiras — e que passam ao largo do interesse dos filhos do presidente.
Integrar o trabalho do Exército com o das polícias e da Receita nos 16 mil quilômetros de fronteira é, há muito, um pleito não atendido. Militares alegam que a complementaridade entre os grupos pode solucionar boa parte dos problemas de contrabando nas fronteiras do Sul e do Centro-Oeste, por onde passa a maior parte das drogas e das armas que entram no país.
As rotas que passam pela floresta Amazônica, em locais onde apenas o Exército acessa, são consideradas pelas forças caminhos secundários de ilícitos, pela dificuldade de transporte, grande distância e encarecimento dos produtos. As rotas que passam pelo Paraguai são, segundo eles, as principais redes de escoamento do crime — e é justamente ali que o programa começará a agir.
Outra área que tem servido de alento aos militares é a diplomática. Como o chanceler tem dedicado boa parte de seu tempo a cumprir uma agenda olavista, os negócios têm ficado em segundo plano. Militares estão especialmente interessados na assinatura do acordo que coloca o Brasil como aliado “extra-Otan” dos Estados Unidos — que é uma espécie de meio-termo entre a posição atual e a condição de aliado membro da Otan.
Nesse posto, o Brasil poderá pleitear compras mais audaciosas de equipamentos de defesa americanos, sobretudo para a Base de Alcântara, e formar parcerias mais vantajosas entre empresas brasileiras do setor que queiram acessar o mercado americano. Trata-se de uma agenda pragmática que, até o momento, a ideologia não capturou. O GLOBO

