A ficha caiu: os orelhões começam a sumir das ruas
Fabricantes mudam foco
A medida foi comemorada por operadoras de telefonia e parte do governo, que defendem a modernização do marco regulatório do setor. A disseminação dos celulares tornou os orelhões obsoletos — 48% dos consumidores não efetuaram uma ligação sequer por esses aparelhos em 12 meses, segundo dados da Anatel. Com isso, muitas das empresas que atuavam no setor entraram em crise financeira. É o caso da Daruma, em recuperação judicial desde 2016.
Outras mudaram completamente seu foco de atuação. A Splice, que fornecia orelhões, passou a atuar nos ramos imobiliário, de concessão de rodovias e de equipamentos para fiscalização de infrações de trânsito. E a Valid, que fabricava cartões telefônicos, hoje emite carteiras de habilitação no estado de Vermont, nos Estados Unidos. A Icatel ainda atua no mercado, mas vem apostando em novos serviços, como monitoramento de câmeras e coleta de cofres, além de comunicação à distância.
— A indústria nacional já chegou a produzir 100 mil orelhões por mês. O último contrato de compra de equipamentos foi há cinco anos, quando a Oi adquiriu 100 mil unidades. Como os telefones estão sendo desligados, os contratos são cancelados. E estamos demitindo— disse o presidente de uma fornecedora, que não quis ser identificado.
E o mercado deve encolher ainda mais. A expectativa é que, com o decreto, o número de orelhões caia a 177 mil unidades no país. Em sua maioria, eles ficarão em locais públicos, como delegacias, aeroportos, rodovias, estações de metrô e hospitais. Os cartões telefônicos, que substituíram as clássicas fichas, ainda são vendidos em algumas bancas de jornal e pequenas lojas. Mas são difíceis de achar.
— O decreto foi um marco na política pública do setor e revela que o centro do investimento passa da telefonia fixa para a móvel e a internet. Foi estabelecido o aumento do 4G. O cidadão não usa mais o orelhão. As pessoas se comunicam via celular — disse Carlos Manuel Baigorri, superintendente de Controle de Obrigações da Anatel.
Desde dezembro, a Oi já desligou cerca de 490 mil orelhões no país. Em nota, a tele disse que os aparelhos caíram em desuso e que só os manterá onde houver demanda.
A Telefônica, dona da Vivo e que atua em São Paulo, dará início ao processo este ano. A meta é cortar o sinal de 60% a 70% de seus 180 mil orelhões nos próximos 12 meses.
Para Christian Gebara, presidente da Vivo, o decreto da Anatel reforça a demanda dos consumidores por internet de qualidade.
Os fornecedores de aparelhos, porém, reclamam.
— A nova regra só aponta o futuro, sem se preocupar com o parque já instalado. Não estabelece critérios para a quantidade mínima em locais como metrô, aeroportos e ferrovias — disse o representante de uma das empresas.

