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É relativo - FERNANDA YOUNG / o globo

Não sou dada a relativizar, sempre me soa como um artifício conformista. “É, você perdeu a unha, mas pensa bem: podia ser o dedo.” Quando eu tive filhas gêmeas, e vivia exausta, minha mãe dizia: “Podiam ser três, que nem a Fátima Bernardes”. Verdade. Mas, se esse recurso acalma alguém, não é a mim. Terei de usá-lo, porém, diante da situação política atual.

O voto é uma decisão subconsciente. Numa eleição, um país revela muito mais que suas preferências ideológicas — revela sua psiquê.

 

Então, relativizando, podia ser pior. Poderíamos ter represado todo esse ódio, que se expressou, por mais tempo. Com consequências ainda mais desastrosas. Se não fosse esse doloroso processo, pelo qual passamos, que destampou os bueiros da obscura natureza brasileira, iríamos esconder essa verdade em nosso íntimo. Ir à tona essa profusão de sentimentos dúbios, mas humanos, significa uma hipótese de cura.

 

O que há por trás de tanto medo? Medo é disfarçado em agressão. Por que tanta rejeição às “diferenças”, o que mascara a homofobia? Qual terror profundo tem uma mentalidade machista? O que passa na cabeça de um povo miscigenado, que tem a empáfia de se achar melhor que os outros? A ausência de autoestima é um dos diagnósticos, principalmente conjugada à ignorância.

 

Outro fator, na busca de uma possível cura para o país, é a necessidade de um “pai” protetor, um herói que enfim vai nos salvar. Falta de figura paterna — disso eu entendo. Mas também tem a culpa, instigada pelas religiões. Culpa que vem com o medo de ser pego, alimentando a covardia e a desconfiança. Uma nação covarde e desconfiada teme as próprias ideias, pois, assim como as crianças, tende a achar que pensamento é ação.

 

Assustados com os seus “pecados”, necessitam de uma entidade que puna os que são piores que você, mas possa perdoar suas imperfeições. Confundidos, carentes, mal-informados, creem na salvação vinda de um profeta — se esse profeta for soldado, armado para defendê-los de todos seus receios, melhor ainda.

 

Essa é a nação enrustida que está saindo do armário. Mas podia ser pior.




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