SOBRE NATURAL DA SILVA
J R GUZO/ JORNALISTA / O ESTDO DE SP
:quality(80)/cloudfront-us-east-1.images.arcpublishing.com/estadao/6L6V2Y5FBZHDPHNVVQN4UHSIZU.jpg)
O ex-presidente Lula armou em torno de sua imagem internacional o que pode estar sendo o maior embuste da história política deste País. Aqui dentro, onde a população tem a oportunidade de saber melhor quem ele é, principalmente porque experimentou na própria pele as consequências de suas passagens pelo governo, sua vida não é tão fácil – entre outras coisas, no momento, precisa ganhar uma eleição para presidente da República. Lá fora, porém, vive em estado de graça. Graças à lavagem cerebral operada pela mídia do Primeiro Mundo, as elites “globalistas” e a militância mundial de esquerda, Lula se transformou numa pessoa que não existe. Virou um mártir das “causas progressistas”, um resumo de tudo o que há de mais sublime no ser humano – e, segundo a imprensa, “está de volta do exílio”, para reassumir o governo e livrar os 200 milhões de brasileiros do “pesadelo” que estariam vivendo hoje.
Lula nunca esteve no exílio. Esteve na cadeia, pela prática dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, condenado em terceira e última instância por nove juízes diferentes. É mentira, também, que tenha sido absolvido e que a “Justiça brasileira” tenha reconhecido “erros judiciais” ao condená-lo. Lula não foi inocentado de nada. O que houve foi uma decisão demente do STF, que anulou as quatro ações penais existentes contra ele com uma justificativa reconhecidamente fútil, sem dizer uma sílaba sobre culpa ou inocência. Pior ainda é a ficção de que foi “absolvido pela ONU” – uma vigarice que Lula está usando como prova mundial de sua inocência. Um desses comitês controlados pela esquerda e que aprova qualquer coisa declarou, há pouco, que Lula foi “injustiçado” – mas e daí? O comitê central do PT, a CUT e a associação dos bispos também disseram. Fazem de conta, aí, que “a ONU” pode, de fato, absolver alguém; não pode, assim como não poderiam a Fifa ou o júri do Miss Universo, porque não é um tribunal de Justiça. A “absolvição da ONU”, porém, está aí; é um dos argumentos-chave do seu marketing internacional.
O curioso, nisso tudo, é que Lula parece acreditar, realmente, que é a entidade sobrenatural criada na mídia estrangeira; fala cada vez mais, aqui no Brasil, com a arrogância de quem vive uma paixão incontrolável por si mesmo. Já disse que, por causa da inocência que lhe foi conferida “pela ONU”, o Brasil teria de anular as eleições de 2018 e que ele, Lula, deveria ser nomeado presidente da República. Recusa-se a revelar seu programa para a economia; diz que o eleitor tem de votar nele sem saber disso. Garante que resolveria a guerra da Ucrânia com “uma cerveja”. Não dá sinais de que vá parar.
Lula lança Bolsonaro como seu cabo eleitoral.
Lula inaugurou formalmente sua campanha pelo terceiro mandato num evento em que o verde-amarelo desbotou o vermelho do PT. Antes de discursar, ouviu o hino nacional, entoado à capela pela cantora Tereza Cristina. Falou por 46 minutos contra um pano de fundo em que cintilava uma enorme bandeira do Brasil. Trocou o improviso por um texto escrito. Fez três movimentos. Num, lançou Bolsonaro como candidato a seu principal cabo eleitoral. Noutro, dedicou-se a industrializar a esperança. No terceiro, exercitou seu hábito predileto: falar bem de si próprio.
Bolsonaro tornou as coisas mais fáceis para Lula. O nome do presidente não foi mencionado nenhuma vez. Mas esteve onipresente num discurso em que Lula falou em "restaurar a democracia", "reconstruir o Brasil", restabelecer a "paz", restituir a "concórdia" e desobstruir os canais de diálogo do governo com a sociedade: "Quando governamos o país, o diálogo foi a nossa marca registrada", disse o orador.
Ao aprisionar a língua de Lula dentro das quatro linhas da folha de papel, os redatores da campanha petista evitaram que o candidato disparasse novos tiros contra o próprio pé. E acomodaram nos seus lábios mensagens direcionadas não apenas aos convertidos, mas a nichos da sociedade marcados pela presença de eleitores que não rezam pelo catecismo lulista. Entre eles, por exemplo, militares, evangélicos e empresários.
Lula mencionou 24 vezes a palavra "soberania", muito cara às Forças Armadas. Somando-se as cinco vezes em que citou "soberano", o conceito que traduz a noção de poder político supremo do Estado dentro do seu próprio território e nas suas relações com outros países apareceu no discurso 29 vezes. Sempre associado à ideia de que a gestão Bolsonaro especializou-se na demolição.
Na versão de Lula, o Brasil não será soberano sem refazer o que Bolsonaro desfez em áreas como saúde, educação, política externa, meio ambiente, proteção às comunidades indígenas, às mulheres e aos negros..
"A nossa soberania e a nossa democracia vêm sendo constantemente atacadas pela política irresponsável e criminosa do atual governo", disse Lula a alturas tantas. Numa referência à submissão de parte das Forças Armadas à cruzada de Bolsonaro contra o Poder Judiciário e o sistema eleitoral, o candidato petista disse considerar "imperioso que cada um volte a tratar dos assuntos de sua competência. Sem exorbitar, sem extrapolar, sem interferir nas atribuições alheias"..
Lula prosseguiu: "Chega de ameaças, chega de suspeições absurdas, chega de chantagens verbais, chega de tensões artificiais. O Brasil precisa de calma e tranquilidade para trabalhar e vencer as dificuldades atuais. E decidirá livremente, no momento que a lei determina, quem deve governá-lo".
Noutro trecho, o discurso lido por Lula anotou: "Não faremos jamais como o nosso adversário, que tenta mascarar a sua incompetência brigando o tempo todo com todo mundo, e mentindo sete vezes por dia. A verdade liberta, e o Brasil p.recisa de paz para progredir" Foi como se os redatores do discurso desejassem falar para o eleitorado evangélico, realçando que Bolsonaro está preso por grilhões de barbante ao versículo multiuso que extraiu do Evangelho de João —"Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará".
Lula soou ainda mais explícito quando disse que "pode até se dizer cristão, mas não tem amor ao próximo" um governante que se mostrou "incapaz de verter uma única lágrima diante de seres humanos revirando caminhões de lixo em busca de comida, ou dos mais de 660 mil brasileiros e brasileiras mortos pela Covid.".
Rendido à dinâmica da marquetagem, Lula expurgou as polêmicas de sua oratória. Absteve-se de mencionar, por exemplo, a ideia de revogar a reforma trabalhista. Evitou citar até mesmo a versão mais branda da proposta, que falava em "reformulação". Preferiu equiparar num discurso anódino a defesa dos direitos trabalhistas com a pregação em favor da retomada do crescimento econômico..
Declarou: "Vamos provar que o Brasil pode voltar a ser um país que cresce, que se industrializa, que gera emprego. Criar um ambiente de estabilidade política, econômica e institucional que incentive os empresários a investirem outra vez no Brasil, com garantia de retorno seguro e justo, para eles e para o país".
Num dos trechos em que se dedicou ao autoelogio, Lula disse: "Nós fomos capazes de gerar mais de 20 milhões de empregos com carteira assinada e todos os direitos garantidos. Enquanto eles destruíram direitos trabalhistas e geraram mais desemprego".
O candidato apagou da memória a gestão empregocida de sua criatura Dilma. No período da doutora, a economia encolheu 6,8%. O desemprego saltou de 6,4% para 11,2%. Foram ao olho da rua algo como 12 milhões de trabalhadores.
Dilma compareceu ao ato de lançamento da nova candidatura do seu criador. Não constava do discurso escrito. Mas Lula injetou-a num improviso maroto feito no finalzinho de sua fala. A pretexto de elogiar a pupila, Lula misturou o nome dela ao de José Dirceu para informar que ambos não participarão do governo caso seja eleito.
"As pessoas perguntam: você vai levar a Dilma para o ministério, vai levar o Zé Dirceu? Não vou levar, mas jamais a Dilma caberia no ministério porque a Dilma tem a grandeza de ter sido a primeira mulher a ser presidenta do Brasil", afirmou Lula. Esse trecho não foi incluído na íntegra do discurso, divulgada no site do PT..
Desunida, terceira via enfrenta impasses para montar palanques estaduais
Gustavo Schmitt e Bianca Gomes / O GLOBO
SÃO PAULO - Ainda distante de uma definição sobre como disputará as eleições deste ano, a chamada terceira via tem alianças políticas emperradas nos estados. Com baixa intenção de voto nas pesquisas de opinião, a senadora Simone Tebet (MDB-MS), o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e o ex-governador de São Paulo João Doria (PSDB) veem candidatos a governador de seus partidos nos estados inclinados a apoiar o ex-presidente Lula (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL).
Ao mesmo tempo, o pacto dos partidos de centro por uma candidatura única se tornou ainda mais incerto após o União Brasil desembarcar e decidir lançar uma chapa pura com Luciano Bivar, que preside a sigla.
Como Lula e Bolsonaro estão na primeira e segunda posições nas pesquisas, os candidatos a governador e deputados procuram se associar aos dois por estratégia eleitoral de sobrevivência. Simone e Ciro farão campanha no Nordeste ao lado de correligionários que também vão pedir votos para o líder petista. Os pré-candidatos do MDB a governador Paulo Dantas, em Alagoas, e Veneziano Vital do Rêgo, na Paraíba, não disfarçam sua simpatia pelo ex-presidente e até publicaram fotos em agendas conjuntas.
União improvável
O presidenciável do PDT enfrenta o mesmo dissabor no Maranhão, onde o senador Weverton Rocha, que participou até de um encontro estadual ao lado do petista, costuma se apresentar como “o melhor amigo de Lula”. Doria também vive situação semelhante no Mato Grosso do Sul, onde o tucano e pré-candidato a governador Eduardo Riedel já disse publicamente: “Meu palanque é do presidente Bolsonaro”. A chapa do candidato terá a ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina, que disputa o Senado.
Mesmo com todas essas dificuldades, o PSDB ainda trabalha por uma aliança com o MDB de Tebet que, por sua vez, tem feito acenos a Ciro —, mas a união com o pedetista é vista como improvável em razão de seu temperamento e de divergências na pauta econômica. Ainda assim, a senadora desponta como favorita para encabeçar uma chapa das siglas de centro, de acordo com fontes da direção dos dois partidos que acompanham as negociações.
Lula lança chapa com Alckmin e fala em ‘defesa da soberania’
SÃO PAULO, 7 MAI (ANSA) – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva oficializou neste sábado (7) sua chapa com o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin para disputar as eleições presidenciais em outubro deste ano.
Em seu discurso aos líderes partidários e apoiadores, o petista adotou um tom moderado, alegando que o Brasil precisa de calma, e apostou na “defesa da soberania”.
Lula enfatizou que apresentaria “o imenso legado de nossos governos”, em vez de promessas, defendeu a Petrobras e reforçou declarações em prol da criação de empregos, do combate à fome e do meio ambiente.
“É mais do que urgente restaurar a soberania. Mas isso não se resume à importantíssima missão de resguardar nossas fronteiras.
É também defender nossas riquezas minerais, nossas florestas, nossos rios, nossos mares, nossa biodiversidade”, afirmou.
Para ele, a soberania do Brasil e democracia “são constantemente atacadas pela política irresponsável e criminosa do atual governo. Segundo o ex-presidente, “temos muito a aprender com os povos indígenas” e “defender a nossa soberania é garantir a posse de suas terras aos povos indígenas”.
De acordo com Lula, “nunca um governo como esse” que está no poder “estimulou tanto o preconceito”. “O grave momento que o país atravessa, um dos mais graves da nossa história, nos obriga a superar eventuais divergências para construirmos juntos uma via alternativa à incompetência e ao autoritarismo que nos governam”, afirmou ele, acrescentando que “é preciso unir os divergentes para poder enfrentar os antagônicos”.
O petista tentou se contrapor ao seu adversário Bolsonaro e disse que o atual líder brasileiro é autoritário e ataca a soberania, a democracia e as instituições, além de mentir para esconder sua incompetência e destruir o que foi construído nos anos de governo do PT.
“Tudo o que fizemos e o povo brasileiro conquistou está sendo destruído pelo atual governo”, disse o petista sobre o atual presidente Jair Bolsonaro. “Não vamos desistir, nem eu e nem o nosso povo. A causa pela qual lutamos é o que nos mantém vivos”.
Falando sobre inflação e desemprego, principalmente no momento do aumento dos preços de combustíveis, Lula responsabilizou o governo Bolsonaro e novamente defendeu a soberania.
“O resultado desse desmonte é que somos autossuficientes em petróleo, mas pagamos por uma das gasolinas mais caras do mundo, cotada em dólar, enquanto os brasileiros recebem os seus salários em real”, explicou.
Já em relação às condenações sofridas em decorrência da Operação Lava Jato, Lula pediu para ninguém esperar “ressentimentos, mágoas ou desejo de vingança”.
Além disso, defendeu o combate às mudanças climáticas, citou as mulheres, a população LGBTQIA+, e alfinetou Bolsonaro dizendo que “precisamos de livros em vez de armas”.
“Para sair da crise, o Brasil precisa voltar a ser um país normal. A normalidade democrática está consagrada na Constituição. É imperioso que cada um volte a tratar dos assuntos de sua competência”, acrescentou.
O pré-candidato disse ainda que “hoje é um dia especial” e sai “na expectativa de que nós vamos comer chuchu com lula”, porque “esse prato se tornará o prato da moda para o Palácio do Planalto a partir das eleições”. Chuchu é um apelido dado a Alckmin, antigo adversário do petista. “Somos de partidos diferentes, fomos adversários. Estou feliz por tê-lo na condição de aliado”, disse.
Por fim, Lula afirmou ser preciso que “o fascismo seja devolvido ao esgoto da história de onde jamais deveria ter saído”. (ANSA) ISTOÉ
Chapa Lula-Alckmin tem o apoio de sete partidos, menos do que o PT tinha em 2010 e 2014
O objetivo do PT com o lançamento da chapa Lula-Alckmin agora há pouco é criar um clima de reedição das Diretas-Já, com uma vasta gama de partidos alinhados com a ideia de preservar a democracia e derrotar as tentações totalitárias de Jair Bolsonaro.
Ao longo da corrida eleitoral tal desejo pode se consolidar — os próximos meses dirão.
Mas ao menos no marco zero do lançamento da campanha ainda falta um maior número de legendas apoiando a chapa para que o desejo se torne realidade — apesar dos discursos de união de forças feitos por Lula e Geraldo Alckmin.
A chapa Lula-Alckmin vai para as ruas com o apoio de sete partidos (PT, PSB, PCdoB, PV, PSOL, Rede e Solidariedade).
Em 2010 e 2014, Dilma Rousseff teve em sua coligação dez e nove legendas, respectivamente.
De qualquer forma, é um avanço em relação à aliança que reuniu-se em torno do petista Fernando Haddad em 2018: somente o Pros e o PCdoB se juntaram ao PT quatro anos atrás.
LAURO JARDIM O GLOBO

