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Crise brasileira é da petulância nacional, não negócio da China

Fazer analogias para entender o que se passa com China, ou por causa dela, é tarefa fácil. Complicado mesmo é prever a dimensão do estrago que a cambaleada do país asiático pode provocar na economia mundial. É a incerteza que incita a doidice nos mercados financeiros, não os fatos. Os dados sobre o enfraquecimento do dragão chinês são controlados pelo governo, ninguém consegue saber exatamente o que pensam os dirigentes do país, ou o que pretendem fazer. Aliás, eles não têm essa preocupação de trabalhar as expectativas do resto do mundo. Com caixa de mais de US$ 3,3 trilhões de reservas internacionais, a China está optando por gastar os tubos para tentar segurar a boiada, em vez de ter que dar transparência ao problema.


Uma das justificativas exaustivamente repetida pelo governo para explicar a crise brasileira é a “grave” crise externa. A China, especialmente,vem emagrecendo seu PIB desde a quebradeira financeira de 2008, num processo lento e parcialmente controlado. O mundo todo teve que se adaptar ao fim da feira para os chineses. Para recuperar o fôlego comercialmente, a maioria dos países investiu para ser mais produtivo e competitivo. O Brasil surfou uma década na onda de soja que mandava para os chineses sem reverter os ganhos em melhora do parque industrial nacional. Ao contrário, vivemos o boom das commodities e o boom das benesses do estado - nocivas e incompatíveis com a produtividade.
Agora que a China empaca e embica ainda mais para baixo, pode parecer que a tese do governo estaria sendo corroborada. Mas não é assim. O transtorno de agora é como se fosse uma nevasca que atinge muitos lugares, inclusive o Brasil. Já constipado, o nosso país saiu de chinelo e camiseta regata na rua e pegou uma pneumonia, evidente. Mas será que a culpa é da nevasca? Ou é da irresponsabilidade, ou da petulância nacional?
A recessão que se impõe e chegou de mala e cuia no país não aconteceu por causa da China – muito longe disso. Vejamos algumas coisas que também não foram vítimas dos asiáticos: o preço da energia elétrica (+50%), a queda no crédito imobiliário (-33%), o crescimento da dívida pública (+22%), as perdas bilionárias da Petrobras com a Lava Jato (-60% valor de mercado), a queda na produção de veículos em 2015 (-23%). Neste último exemplo, fica fácil aceitar porque, afinal,  a gente só vende soja e minério de ferro para a China, nada tão elaborado quanto um carro. Tem ainda a nossa inflação de dois dígitos, que passa longe do que acontece lá fora.
O mundo vive hoje uma deflação, ou seja, queda abrupta de preços. Se fosse para causar efeitos aqui, seria para bem. Veja o exemplo da gasolina. O preço do petróleo está em baixa histórica,rodando perto dos US$ 30, mas aqui, nada de cair. Se seguisse o mercado internacional e reduzisse os valores cobrados pelos combustíveis – como deveria - a Petrobras racharia mais um pouquinho – o que seria muito pior – ou não?
Lá do outro lado do planeta, os problemas são grandes e os desafios, maiores ainda. São muitas as diferenças na natureza da crise, na característica do país, nas soluções prováveis e, principalmente, na importância do desfecho. O triste não está na comparação de números, indicadores ou estatísticas. Está no fato de que, quanto mais atrapalhado estiver o Brasil, mais apagado ele fica no mapa-múndi. Desistir de nós é fácil. Da China, é impossível e improvável.porThais Herédia / g1

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