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Afinal, com a chegada de 2020 se inicia também uma nova década?

Reinaldo José Lopes / FOLHA DE SP
SÃO CARLOS

É natural que, com a aproximação do ano de 2020, os mais afoitos já estejam montando listas dos principais fatos/séries/músicas "da década que está terminando". Tecnicamente, porém, só teremos o começo de uma nova década em 2021, assim como o século 21 e o terceiro milênio só começaram em 2001, e não em 2000.

A culpa por essa estranheza matemática é de um monge que não sabia usar o número zero. Dionísio Exíguo (470-544), religioso e erudito da Europa Oriental que trabalhou em Roma durante boa parte de sua carreira, foi o responsável por estabelecer o sistema de contagem de anos a partir do nascimento de Cristo (inicialmente para calcular a data da Páscoa, principal festa religiosa cristã, e não para estabelecer a época de eventos históricos).

Em seu sistema "anno Domini" ("no ano do Senhor", em latim), Dionísio estabeleceu o nascimento de Jesus como o ano 1, e não o "ano zero". Isso significa que uma década depois do ano 1 só ficaria completa no ano 11; um século inteiro só teria transcorrido no ano 101; e assim por diante.

É claro que é injusto atribuir essa peculiaridade apenas ao monge: os europeus daquele tempo ainda não tinham criado um tipo de aritmética que incorporasse o zero como elemento independente ou indicador de dezenas em números como 20 ou 50, por exemplo. 

Quando operações matemáticas exigiam algo parecido, o máximo que se fazia era escrever palavras como "nulla" ou "nihil" ("nada", em latim), coisa que Dionísio já fazia.

O uso do zero como o conhecemos hoje foi desenvolvido gradualmente por matemáticos da Índia, alguns dos quais ativos durante a vida do monge. O contato entre o Islã e a matemática indiana fez com que o conhecimento sobre o tema fosse adotado e transmitido pelos árabes durante a Idade Média, finalmente chegando à Europa por volta do século 11. É por isso que os números que usamos hoje são conhecidos como arábicos. 

Um dos possíveis introdutores da nova aritmética no Ocidente foi o clérigo francês Gerbert de Aurillac (946-1003), que mais tarde se tornou papa com o nome de Silvestre 2º. Nas Américas, os maias do México e da América Central chegaram a usar um sistema parecido de forma independente. 

Séculos mais tarde, pioneiros da astronomia como o alemão Johannes Kepler (1571-1630) formularam contagens de anos que também tomavam o nascimento de Jesus Cristo como ponto de partida, mas o consideravam como "ano zero", e não ano 1, o que elimina a estranheza da datação convencional. 

Esse sistema, no entanto, só é usado para datar eventos astronômicos, como eclipses ou conjunções de planetas, os quais, por sua vez, podem ser úteis para determinar o tempo em que certos eventos históricos ocorreram.

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