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Dejetos ficam a céu aberto na capital com menor rede de esgoto

Natália CancianPedro Ladeira/ FOLHA DE SP
BAIRRO TERRA FIRME BELÉM
BELÉM

Reclamações pela falta de acesso ao direito básico ao saneamento também se repetem em bairros de Belém, cidade que mantém o título de capital com menor volume de esgoto tratado e a segunda com a pior rede de coleta —a primeira é Porto Velho.

Placas ao longo de avenidas de empresas especializadas em fossas denunciam ausência de uma rede estruturada desses serviços —e a decorrente busca por alternativas.

O problema é visto em parte do centro e sobretudo na periferia. “Saneamento aqui é uma coisa não existe. Apesar de ser um direito, não funciona”, diz o aposentado Manoel da Vera Cruz, 70, que mora há 40 anos no bairro Terra Firme, um dos mais populosos.

Lá, moradores reclamam da ausência da rede de esgoto, cenário que se agrava com a falta de coleta diária de lixo e problemas de drenagem.

Em época de chuvas, parte de Terra Firme não condiz com o próprio nome. Ruas, entre elas algumas por onde o esgoto corre hoje a céu aberto, ficam alagadas por meses.

“É como se tivesse um rio aqui na frente”, afirma Maria do Socorro Negrão, 55, enquanto mostra à reportagem a água que, por pouco, não invade sua casa. “Mas se pisar aí, o pé fica em carne viva”, diz ela, que atribui à água as feridas e coceira nos pés.

A poucos metros, um canal que corta o bairro, chamado de Lago Verde, acumula lixo e dejetos lançados por meio de canos diretamente de algumas casas. O material segue para o Tucunduba, rio cuja poluição já é visível de suas margens.

“A gente pede saneamento e não adianta. Fica tudo do mesmo jeito”, diz dona Socorro, como os vizinhos a chamam.

Sem acesso à rede, parte do bairro recorre a fossas. Especialistas, no entanto, dizem que essa estrutura não resolve adequadamente o problema.

“Na área urbana, todo mundo mora junto. A fossa no seu quintal contamina minha área do lado, e por isso não consideramos como adequada em área urbana”, diz Édison Carlos, do Instituto Trata Brasil. 

Para José Almir Pereira, do grupo de saneamento básico da UFPA (Universidade Federal do Pará), o problema vivido pela capital paraense é o mesmo do restante do país.

“O problema do Brasil, e Belém está no meio, é um misto. Falta de planejamento para saber quanto precisa. Não dá para ter recurso da noite para o dia, e para se captar recurso precisa de projetos”, diz.

A afirmação ocorre em meio às discussões, no país, de um novo marco regulatório, com aumento na participação do setor privado no saneamento.

“Se não tivermos planejamento bem feito, o modelo pode ser público ou privado, mas estará fadado a não dar certo. Há exemplo de cidades sob o setor privado que não deu certo, locais onde o privado deu certo ou onde o público tem bons índices”, afirma.

Em Terra Firme, uma placa denotava outra dificuldade do saneamento básico: o acúmulo de lixo. “Lixo aqui, só político safado”, dizia a mensagem. Mas, sem coleta no dia, os sacos invadiam a rua.

Responsável pelo serviço de água e esgoto em Belém, a Companhia de Saneamento do Pará afirmou que “a falta de investimentos dos governos passados nas áreas de abastecimento e esgotamento sanitário prejudicaram a população” da capital e do estado, e que planeja medidas para reverter a situação.

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O bairro de Terra Firme, afirma a empresa, deve ser beneficiado com obras de macrodrenagem do rio Tucunduba e, depois, por uma estação de tratamento de esgoto, mas não foram citados prazos.

A prefeitura alega que o alto volume de chuvas e a presença de casas nas margens dos canais impossibilita limpeza e escoamento em algumas áreas, agravando o alagamento. Diz ainda que faz a manutenção em sistemas de drenagem para reduzir pontos de alagamentos.

 

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