Veja lista de deputados federais eleitos no Ceará em 2026
Escrito por Luana Barros / DIARIONORDESTE
Os cearenses elegeram, neste domingo (4), 22 deputados federais para a Câmara Federal. Os novos parlamentares assumem o cargo em 2027 e seguem no mandato até 2030.
No total, 12 deputados federais foram reeleitos por mais quatro anos, enquanto outros 10 assumem pela primeira vez uma cadeira no Congresso Nacional.
As maiores bancadas seguem sendo a do PSB e a do PL, cada uma com quatro deputados federais. O PL elegeu, inclusive, o deputado federal mais votado da história do Ceará, com André Fernandes (PL) conquistando mais de 683 mil votos.
O PSD, a Federação União Progressista e a Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB) fizeram, cada uma, três deputados federais.
O MDB e a federação formada por PRD e Solidariedade fizeram, cada, dois parlamentares. O Republicanos elegeu uma deputada federal.
Veja a lista de deputados federais eleitos no Ceará:
PSB
- Tainah Marinho (PSB) - 265.585 votos
- Robério Monteiro (PSB) - 165.876 votos
- Idilvan Alencar (PSB) - 127.140 votos
- Dr. Acilon (PSB) - 125.161 votos
PL
- André Fernandes (PL) - 684.372 votos
- Matheus Noronha (PL) - 123.990 votos
- Dr. Jaziel (PL) - 64.870 votos
- Carmelo Neto (PL) - 56.068 votos
PSD
- Domingos Neto (PSD) - 180.434 votos
- Célio Studart (PSD) - 122.415
- Fernanda Pessoa (PSD) - 122.963 votos
Federação Brasil da Esperança (PT/PV/PCdoB)
- Fernando Santana (PT) - 129.248 votos
- Raimundo Martins (PT) - 115.424 votos
- Luisa Cela (PT) - 93.321 votos
Federação União Progressista
- Moses Rodrigues (União) - 141.205 votos
- Danilo Forte (PP) - 119.862 votos
- AJ Albuquerque (PP) - 105.259 votos
MDB
- Yury do Paredão (MDB) - 261.291 votos
- Nenen Coelho (MDB) - 98.831 votos
Federação PRD-Solidariedade
- Giordanna Mano (PRD) - 235.848 votos
- Emanuel Acrízio (SD) - 57.192 votos
Republicanos
- Erika Amorim (Republicanos) - 109.025 votos
Veja a lista de deputados estaduais eleitos no Ceará em 2026
Escrito por Marcos Moreira / DIARIONORDESTE
Com 100% das urnas no Ceará já apuradas, a lista de 46 deputados estaduais que assumirão está definida. Os candidatos eleitos passarão a integrar a Assembleia Legislativa pelos próximos quatro anos.
A relação, que contou com nomes tradicionais do cenário político no Estado, também apresentou novidades em 2026. Entre as atribuições dos deputados estaduais está a fiscalização do Governo do Estado, que teve Elmano de Freitas (PT) reeleito em primeiro turno.
Confira a lista de deputados estaduais eleitos em 2026
- Tancredo Dos Santos (PL) - 151.396 votos
- Gabriel Biologia (Psol) - 141.749 votos
- Bella Carmelo (PL) - 130.802 votos
- Abreu Júnior (PL) - 127.034 votos
- Romeu Aldigueri (PSB) - 112.303 votos
- Liziany Medeiros (PT) - 102.659 votos
- Davi De Raimundão (MDB) - 95.814 votos
- Lais Nunes (PT) - 92.485 votos
- Osmar Baquit (PSB) - 90.218 votos
- Sérgio Aguiar (PSB) - 88.148 votos
- Jade Romero (PT) - 85.490 votos
- Zezinho Albuquerque (PP) - 82.693 votos
- Moses Filho (União) - 82.423 votos
- Catanho (PT) - 80.441 votos
- Guilherme Landim (PSB) - 80.192 votos
- Jô Farias (PT) - 79.829 votos
- De Assis Diniz (PT) - 76.854 votos
- Domingos Filho (PSD) - 74.914 votos
- Jeová Mota (PSB) - 73.211 votos
- Fabiola Carneiro (PSB) - 73.029 votos
- Franzé Carneiro (PT) - 71.685 votos
- Missias Dias (PT) - 71.111 votos
- Marcos Sobreira (PSB) - 70.941 votos
- Elizeu Monteiro (PSB) - 70.411 votos
- Paloma Nunes (PSB) - 69.064 votos
- Manu Pimenta (PSB) - 69.000 votos
- Gadyel (PT) - 67.370 votos
- Firmo Camurça (PSD) - 67.171 votos
- Dra. Silvana (PL) - 66.473 votos
- Marta Gonçalves (PSB) - 65.340 votos
- Ilo Neto (PT) - 65.004 votos
- Dr. Geronimo (PSB) - 61.571 votos
- João Jaime (PV) - 58.478 votos
- Lia Gomes (PSB) - 54.433 votos
- James Bel (União) - 52.070 votos
- Moisés Braz (PT) - 51.453 votos
- David Durand (Republicanos) - 49.051 votos
- Felipe Vasques (PSDB) - 48.104 votos
- Simão Pedro (PSD) - 42.840 votos
- Leo Suricate (Psol) - 39.510 votos
- Davi Benevides (PSDB) - 38.833 votos
- Georgia do Marcelão (Solidariedade) - 38.288 votos
- Gardel Rolim (Republicanos) - 36.236 votos
- Emilia Pessoa (PSDB) - 35.902 votos
- Dra Mayra Pinheiro (PL) - 34.752 votos
- Pastor Frota (PL) - 28.316 votos
O Tarcísio reeleito
Pela lógica política convencional, um governador do estado mais populoso e economicamente poderoso do país é candidato em potencial à Presidência da República —ainda mais um reeleito em primeiro turno sem sobressaltos, caso de Tarcísio de Freitas (Republicanos) neste domingo (4).
A situação do carioca que recebeu mais de 60% dos votos válidos em São Paulo, contudo, é peculiar. Ele teve a chance de disputar o Palácio do Planalto já neste ano, cortejado do centro à direita para se lançar como alternativa a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Recusou a missão para não desafiar o padrinho político, Jair Bolsonaro (PL), que lançou o filho Flávio.
Em seu primeiro mandato, Tarcísio tentou se equilibrar entre mostras de moderação e de fidelidade ao bolsonarismo. Não se prestou a pregações golpistas, a questionamento das urnas eletrônicas nem a ataques a instituições ou à imprensa. Abraçou, porém, a causa infame da anistia ao ex-presidente condenado por tentar subverter a democracia.
Em seus piores momentos na administração, fez avançar bandeiras reacionárias como as escolas cívico-militares —baseadas na ilusão de que a disciplina fardada adotada em estabelecimentos que selecionam seus alunos poderá melhorar o aprendizado em larga escala na rede de ensino.
Foi criticado pela truculência da polícia estadual e pela relutância em apoiar a política de câmeras corporais. Soube ceder: passou a apoiar as câmeras e mudou a cúpula da Secretaria de Segurança Pública, o que teve efeito ao menos simbólico.
Sua gestão é bem avaliada pelos paulistas. Segundo o Datafolha, 47% a consideram boa ou ótima, ante 21% que a reprovam como ruim ou péssima. O governador do Republicanos soube preservar uma espécie de estabilidade conservadora no estado que remonta à longa hegemonia anterior do PSDB, iniciada em 1995.
Berço do PT, São Paulo nunca elegeu um governador da legenda, rejeitada sobretudo no interior —e não foi diferente com Fernando Haddad, ex-prefeito da capital que disputou novamente o Bandeirantes para dar um palanque a Lula. Em 2022, chegou ao menos ao segundo turno contra Tarcísio. Ambos são especulados como presidenciáveis em 2030.
O futuro do vitorioso na eleição estadual parece hoje mais sujeito a variáveis, a começar pelo desempenho de Flávio na eleição presidencial. Mais do que não ter firmado uma marca de governo, Tarcísio ainda não tem uma clara identidade política. Seu segundo mandato tende a ser esclarecedor nesse sentido.
Vimos ascensão da extrema direita e penalização de quem está no poder, diz cientista político
Naief Haddad / FOLHA DE SP
O fortalecimento de líderes da extrema direita e a penalização do político que ocupa o governo são marcas das eleições deste 1º turno, afirma Eduardo Grin, cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Na disputa nacional, Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47% dos votos ante 45% de Lula (PT).
A esses fatores, Grin acrescenta a má avaliação do governo Lula e um cansaço crescente da população em relação ao PT.
No segundo turno, diz o analista, é difícil que Lula consiga reverter o placar desfavorável desta primeira rodada. Mas existem novos fatores a serem considerados, como os prováveis debates na TV e "a máquina do governo, que vai entrar fortemente em ação".
De acordo com Grin, um segundo turno que contrapõe o lulismo ao bolsonarismo pela terceira vez consecutiva demonstra a cristalização das posições políticas na sociedade. "É muito difícil que outras concepções políticas quebrem essas estruturas de massa."
Tivemos Flávio Bolsonaro à frente de Lula neste 1º turno. Além disso, foram 20 estados com situação já definida, com ampla vantagem dos conservadores, que também se fortaleceram no Senado. É uma nova guinada à direita?
Vimos dois fenômenos, que muitas vezes se combinam: a ascensão da extrema direita e a penalização do incumbente de plantão. E isso não se aplica só ao caso brasileiro. Tivemos recentemente vitórias da AfD [Alternativa para a Alemanha, partido de extrema direita], algo impensável um tempo atrás.
O fortalecimento de uma lógica antissistema fica nítido com o bom desempenho dos candidatos do PL ao Senado. Em pelo menos um momento na campanha, eles prometeram botar em pauta o impeachment de um ou mais ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Os eleitores penalizam o incumbente porque veem nele um representante das elites, porque pensam nele como responsável pela redução do poder de compra, porque tem corrupção no Brasil –não importa onde ela esteja. Não existe uma única razão para esse sentimento contra o sistema, é uma malaise com sinais difusos e escolhas nem sempre racionais.
Por outro lado, se o governo Lula tivesse uma avaliação melhor, teria condições de ser mais competitivo, mesmo com esse voto antissistema. Um outro aspecto é que o PT não se deu conta da intensidade do cansaço das pessoas com o partido.
Flávio Bolsonaro ganhou votos com a desidratação dos candidatos nanicos?
Acredito que sim, já se imaginava que poderia acontecer um movimento de voto útil neste 1º turno. E, mais uma vez, o governo federal errou porque deveria ter pensado em maneiras de lançar pontes para esses outros candidatos.
Qual é a chance de Lula reverter o resultado no 2º turno?
É como a Copa Libertadores da América. Primeiro, vem a fase de grupos. Quando começa o mata-mata, é outro campeonato. Mas eu diria que é difícil reverter porque Flávio Bolsonaro deve contar com a maior parte dos votos destinados aos nanicos no 1º turno. Tem chance, inclusive, de aumentar a diferença em relação a Lula.
Por outro lado, surgem novos fatores agora. Será difícil fugir dos debates; a máquina do governo vai entrar fortemente em ação; Davi Alcolumbre, já antevendo que será derrotado na reeleição para a presidência do Senado, vai querer passar o fim da escala 6 por 1; a banda governista do STF pode impor novas derrotas para Flávio. Ou seja, o governo segue competitivo, mas vai precisar, a curto prazo, mudar a estratégia de comunicação e criar uma sensação mínima de esperança para a maior parte dos eleitores.
Em 20 estados, teremos no segundo turno apenas o voto para presidente da República. Isso tende a favorecer qual dos candidatos?
Flávio Bolsonaro, que terá muitos palanques estaduais. Ele vai dizer: "morador do Rio Grande do Sul [onde venceu Zucco, do PL], é muito mais fácil fazer política pública com um governador que é amigo meu do que com alguém que faz oposição a esse governador". Mas, claro, cada caso tem as suas particularidades.
Pela terceira vez consecutiva, teremos um segundo turno com o bolsonarismo versus o lulismo. O que isso significa?
Que temos uma cristalização das posições políticas na sociedade. Neste momento, é muito difícil que outras concepções políticas, outras ideologias quebrem essas estruturas de massa muito consolidadas no país, ligadas a duas lideranças personalistas, Lula e Jair Bolsonaro, mesmo preso.
Nesse sentido, o PT vai ter que encarar um sério desafio de renovação. A extrema direita tem sido mais inteligente em abrir espaço para novas lideranças do que a esquerda. Essa ausência de renovação penalizou a esquerda. Veja, mais uma vez, a grande votação obtida por Nikolas Ferreira (PL-MG).
No ano passado e nos primeiros meses deste ano, muito se falava sobre a possibilidade de ascensão de uma terceira via na disputa presidencial, o que não aconteceu. Por quê?
Se temos dois grandes campos políticos, o petismo e o bolsonarismo, que dão conta de preencher quase todo o espectro da disputa, os eleitores fazem seus cálculos. "Qual é a minha primeira opção se não quero que Lula ganhe? Eu não vou votar em um candidato que vai perder", diz esse eleitor. O mesmo vale para Flávio Bolsonaro. "Posso não morrer de amores por Lula, mas tenho muito medo de um retorno do bolsonarismo ao poder". Esses medos cruzados mobilizam muito os eleitores para escolher a opção mais viável para derrotar o do outro lado.
O PT arranca em qualquer eleição presidencial com um piso em torno de 30%. E o bolsonarismo, com algo entre 25% e 30%. Os outros 15% ou 20%, que cada um obtém, grosseiramente falando, representam aqueles que votam para que o outro não vença. A impossibilidade de fortalecimento de uma terceira via se deve muito a esse voto útil, das pessoas que não querem que Lula ganhe e daquelas que não querem que Flávio Bolsonaro saia vencedor. Ou seja, acontece uma soma do voto por adesão e do voto por exclusão.
Além disso, existe a desagregação interna dos partidos grandes. Veja como exemplo o MDB. No Nordeste e em estados como Pará e Amazonas, o partido vota com Lula. Nas regiões Sul e Sudeste, está majoritariamente ao lado de Flávio.
Nos últimos dias de campanha, houve essa controvérsia em torno de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. As questões religiosas estão cada vez mais inseridas no debate político brasileiro?
Sim. Há dois fenômenos: uma politização cada vez maior da religião e uma maior religiosidade na política. Qualquer que seja o candidato precisa fazer menção à sua profissão de fé porque o Brasil é um país muito religioso. Isso se intensificou quando passou a haver mais disputa em torno dos espaços religiosos, não existe uma hegemonia, como antes. E cada espaço religioso carrega uma visão de mundo.
A CNBB, por exemplo, está mais associada à ideia de justiça social e de um olhar para segmentos da sociedade que requerem apoio do Estado. É diferente de uma visão de mundo ligada ao empreendedorismo dos evangélicos, embora não possam ser vistos como um campo unificado. E isso tudo acaba sendo transmitido para as candidaturas.
Reportagem publicada pela Folha mostrou que essa tem sido a campanha com menor engajamento dos eleitores desde o retorno da democracia, na década de 1980. O que explica esse desinteresse?
Para começar, a disputa se restringe basicamente a duas opções. Uma delas, Lula, está na política brasileira há mais de 40 anos e não consegue inspirar em grande parte da população a confiança de que será capaz de inovar em um eventual quarto mandato. De outro lado, o filho de Jair Bolsonaro e a memória recente da tragédia que foi o governo dele na saúde, o desmantelamento de política pública, entre outros problemas.
Seja lá qual for o vencedor, prevalece uma baixa expectativa ou mesmo uma falta de expectativa.
Um outro aspecto são as denúncias de corrupção, que atingem os dois lados. O eleitor diz: "Eles só pensam nos seus próprios interesses; vou me mobilizar para defender o quê?". São esses os fatores principais. Mas há ainda outros aspectos. As redes sociais tendem a reduzir os espaços de mobilização porque as ações ficam mais individualizadas.
Como avalia as interferências do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na campanha?
Aprendemos que quando a democracia começou a ser consolidada como regime político, no final do século 19, o papel do Poder Judiciário era criar estabilidade e garantir as normas que organizam a vida em sociedade, inclusive nos processos eleitorais. Hoje, o que deveria ser um fator de estabilidade virou talvez o principal fator de instabilidade na corrida eleitoral, o que é muito ruim.
Quando as sociedades democráticas perdem confiança no seu principal árbitro, elas acabam mediando seus conflitos por meio de arranjos, o que terá um custo mais adiante para a democracia brasileira.
Pela primeira vez em 20 anos, não tivemos no primeiro turno debate com os líderes das pesquisas na disputa federal. O quanto isso é ruim para a democracia?
É muito ruim. O desapreço pelo debate alimenta o desalento em torno da democracia. Em um cenário em que vemos a ascensão da extrema direita, não é bom privar a sociedade de um debate. Não que debates na TV tenham audiência grande, mas são oportunidades em que a esfera pública se organiza para discutir ideias. Seja qual for a justificativa para a ausência no debate, não me parece aceitável.
Nesse ponto, porém, é preciso diferenciar os dois campos políticos. Podemos criticar o Lula por várias razões, mas ele não vai colocar a democracia em risco. Quanto ao Flávio Bolsonaro, o risco existe.
Algum outro tema desta campanha te chamou a atenção?
A política internacional ganhou mais espaço nas discussões. Na eleição de 2022, tínhamos vários governos de esquerda na América do Sul, um presidente do Partido Democrata nos EUA e um presidente de extrema direita no Brasil. Hoje, temos uma maioria de governos de direita e extrema direita na América do Sul, um republicano na Casa Branca e um presidente de esquerda no Brasil. O cenário se inverteu.
Para os EUA, uma vitória de Flávio Bolsonaro significaria controlar a joia da coroa na América Latina, que é o Brasil.
Raio-X - Eduardo Grin, 63
Nascido em São Leopoldo (RS), em 1963, é cientista político e professor do departamento de gestão pública da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo. É um dos autores de "Capacidades Estatais Municipais" (2021) e do recém-lançado "Handbook of Federalism in Ibero-America - A Comparative Analysis"
Empresários dizem que desgastes de Lula e do STF deram vantagem a Flávio
Empresários e executivos de diferentes setores ouvidos pela Folha afirmam que a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno da eleição não pode ser explicada apenas por problemas na economia, como o alto endividamento da população.
Entre os fatores apontados estão o desgaste da gestão lulista e a atuação do Judiciário durante a campanha. Na avaliação de parte dos entrevistados, acabaram pesando contra Lula decisões e intervenções de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
A chegada de Flávio ao segundo turno à frente do presidente dá ao filho de Jair Bolsonaro uma vantagem que o pai não conseguiu obter em 2022. Com 99,59% das urnas apuradas, Flávio tinha 47,12% dos votos válidos, contra 45,06% de Lula.
O CEO da consultoria Zag Work, Rogelio Golfarb, que foi presidente da Anfavea e vice-presidente da Ford na América do Sul, afirma que o desempenho de Flávio Bolsonaro sinaliza uma transformação política mais ampla.
"O sentimento de mudança e de uma abordagem mais liberal e à direita parece estar mais espalhado e mais sólido do que tínhamos visto antes. E isso pode ser visto também no resultado do Legislativo e dos governos estaduais em geral", afirma o executivo.
José Olympio Pereira, que chefiou os bancos Credit Suisse e Safra e apoiou publicamente o candidato Renan Santos (Missão) no primeiro turno, afirma ter visto no resultado deste domingo uma mensagem de cansaço com o PT.
"A sociedade brasileira deu um recado claríssimo de que não aguenta mais o Lula e que quer uma mudança", afirma.
O resultado coloca o bolsonarismo em situação mais favorável do que a registrada há quatro anos. Em 2022, Jair Bolsonaro terminou o primeiro turno com 43,2% dos votos válidos contra 48,2% de Lula.
O empresário Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho do Grupo Multi, qualificou o resultado como surpreendente e muito favorável a Flávio Bolsonaro.
Na avaliação de Ostrowiecki, Flávio soube ocupar espaço com uma estratégia oposta à do pai. "Evitou as frases polêmicas, as brigas com as instituições e a agenda de confronto que custaram votos a Jair Bolsonaro em 2022, e concentrou a campanha num único eixo, o antipetismo. Com isso recebeu, às vésperas do primeiro turno, a migração do eleitor de centro-direita que estava com Caiado, Zema e outros, repetindo o movimento de voto útil de 2022", afirma.
O empresário avalia que "foi uma estratégia inteligente de jogar parado e apostar no erro do adversário".
"Dois fatores de fundo também pesaram. Os recentes escândalos envolvendo o STF, somados à percepção pública de que a maioria da corte foi indicada por governos do PT, reforçaram a sensação de que o sistema precisa de uma troca. E há o desgaste natural de um partido que governou o Brasil em 18 dos últimos 24 anos", diz ele.
A crise no Supremo atravessou a campanha e, na reta final, decisões das duas cortes provocaram controvérsia ao interferirem na disputa eleitoral. A mais recente ocorreu no debate presidencial da TV Globo, cancelado a três dias da votação. A ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu a emissora de mostrar o púlpito vazio de Lula, que havia decidido não comparecer ao encontro. Horas depois, Gilmar Mendes, do STF, determinou que a Globo incluísse Renan Santos (Missão), contrariando os critérios estabelecidos pela emissora para o debate.
Flávio, que até então participaria do encontro, desistiu após as decisões. A Globo acabou cancelando o programa.
O sócio-fundador e CEO do BR Partners, Ricardo Lacerda, tem percepção similar. "Estamos vendo uma reação forte aos abusos do STF —foi o grande eleitor de hoje", afirma.
Outro embate entre as cortes ocorreu no caso da notícia falsa segundo a qual Flávio retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil caso fosse eleito. André Mendonça, ministro do STF que também integra o TSE, havia determinado a retirada de publicações consideradas "notoriamente inverídicas". Flávio Dino, do Supremo, anulou posteriormente parte da decisão e liberou publicações sobre o tema, abrindo uma disputa sobre os limites de atuação das duas cortes.
Lacerda ainda vê um cansaço no eleitorado. "Também parece haver uma exaustão do modelo de governo do PT, com gastos fiscais excessivos e juros muito altos."
O economista Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio da Jubarte Capital, faz uma leitura mais ampla do resultado.
Pelo aspecto econômico, afirma que as urnas refletiram a preocupação dos brasileiros com a própria situação financeira, em particular o elevado nível de endividamento das famílias.
O país chegou às urnas com indicadores positivos no mercado de trabalho. A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, o menor patamar para esse período desde o início da série histórica, em 2012. Ao mesmo tempo, 82% das famílias tinham dívidas a vencer em agosto, maior percentual da série iniciada em 2010.
Para além da economia, Figueiredo enxerga razões políticas. Ele afirma que Flávio é visto mais ao centro do que o pai e que seu programa foi mais bem recebido. Na sua avaliação, a gestão Lula também não correspondeu às expectativas em outras áreas consideradas sensíveis pelos eleitores.
"A percepção é que o governo teve péssimo desempenho em duas das principais preocupações da população: segurança e corrupção", afirma.
Figueiredo também está no grupo que destaca o fator Judiciário: "Existe um sentimento de indignação com o que ficou percebido como manobras pró-Lula pelo Supremo e alguns ministros do TSE."
Outro capítulo com a Corte envolveu revelações sobre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Flávio explorou o episódio na propaganda eleitoral e buscou associar o desgaste da corte ao governo Lula, enquanto o presidente procurou se distanciar do STF e de Moraes.
O impacto foi captado pelo Datafolha. Em pesquisa realizada em meados de setembro, 47% dos eleitores disseram que a crise no STF teria influência na escolha do voto para presidente. Quando questionados sobre quem seria prejudicado pelo episódio, 38% citaram Lula e 31%, Flávio.
Outro executivo, presidente de uma grande multinacional, que pediu para não ter seu nome divulgado, também afirma que Flávio Bolsonaro cresceu devido ao desgaste de Lula e do PT. Na sua avaliação, o petista teve dificuldade de identificar esse movimento por ter se isolado durante o terceiro mandato.
Tarcísio reeleito
Pela lógica política convencional, um governador do estado mais populoso e economicamente poderoso do país é candidato em potencial à Presidência da República —ainda mais um reeleito em primeiro turno sem sobressaltos, caso de Tarcísio de Freitas (Republicanos) neste domingo (4).
A situação do carioca que recebeu mais de 60% dos votos válidos em São Paulo, contudo, é peculiar. Ele teve a chance de disputar o Palácio do Planalto já neste ano, cortejado do centro à direita para se lançar como alternativa a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Recusou a missão para não desafiar o padrinho político, Jair Bolsonaro (PL), que lançou o filho Flávio.
Em seu primeiro mandato, Tarcísio tentou se equilibrar entre mostras de moderação e de fidelidade ao bolsonarismo. Não se prestou a pregações golpistas, a questionamento das urnas eletrônicas nem a ataques a instituições ou à imprensa. Abraçou, porém, a causa infame da anistia ao ex-presidente condenado por tentar subverter a democracia.
Em seus piores momentos na administração, fez avançar bandeiras reacionárias como as escolas cívico-militares —baseadas na ilusão de que a disciplina fardada adotada em estabelecimentos que selecionam seus alunos poderá melhorar o aprendizado em larga escala na rede de ensino.
Foi criticado pela truculência da polícia estadual e pela relutância em apoiar a política de câmeras corporais. Soube ceder: passou a apoiar as câmeras e mudou a cúpula da Secretaria de Segurança Pública, o que teve efeito ao menos simbólico.
Sua gestão é bem avaliada pelos paulistas. Segundo o Datafolha, 47% a consideram boa ou ótima, ante 21% que a reprovam como ruim ou péssima. O governador do Republicanos soube preservar uma espécie de estabilidade conservadora no estado que remonta à longa hegemonia anterior do PSDB, iniciada em 1995.
Berço do PT, São Paulo nunca elegeu um governador da legenda, rejeitada sobretudo no interior —e não foi diferente com Fernando Haddad, ex-prefeito da capital que disputou novamente o Bandeirantes para dar um palanque a Lula. Em 2022, chegou ao menos ao segundo turno contra Tarcísio. Ambos são especulados como presidenciáveis em 2030.
O futuro do vitorioso na eleição estadual parece hoje mais sujeito a variáveis, a começar pelo desempenho de Flávio na eleição presidencial. Mais do que não ter firmado uma marca de governo, Tarcísio ainda não tem uma clara identidade política. Seu segundo mandato tende a ser esclarecedor nesse sentido.

