Suba-se o sarrafo
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O resultado das eleições de domingo trouxe uma boa notícia para a democracia brasileira. A cláusula de barreira está funcionando. Cinco agremiações que elegeram deputados ficaram abaixo dos requisitos para ter acesso ao Fundo Partidário e à propaganda gratuita no rádio e na televisão. Outras nove legendas sem representantes na Câmara também não alcançaram o sarrafo. É um avanço na necessária redução da barafunda partidária brasileira.
A regra não fecha partidos nem toma o mandato de quem foi eleito. Apenas exige um mínimo de representatividade para que uma legenda faça jus aos recursos disponibilizados pelo Estado. Neste ano, era preciso obter 2,5% dos votos válidos para deputado federal, com ao menos 1,5% em nove unidades da Federação, ou eleger 13 deputados distribuídos por pelo menos nove delas. Quem não conseguiu reunir esse apoio pode continuar defendendo suas ideias e buscando votos, mas sem ter uma estrutura bancada pelo contribuinte.
O País, porém, poderia estar muito mais adiantado nessa seara. Uma cláusula de barreira havia sido aprovada pelo Congresso em 1995 para entrar plenamente em vigor em 2006. Justamente quando produziria seus efeitos, o Supremo Tribunal Federal (STF) resolveu derrubá-la, sob argumentos como a proteção das minorias e do pluralismo político. Foi uma intervenção desastrada numa reforma aprovada pelo Congresso para enfrentar um problema que já era evidente. Depois disso, a fragmentação avançou, e o número de partidos com representação na Câmara chegou a 30 em 2018, uma balbúrdia.
Para consertar o estrago, foi preciso mudar a Constituição. Em 2017, o Congresso aprovou uma nova cláusula, desta vez gradual e mais branda. Começou praticamente do zero. A régua vem subindo aos poucos e chegará ao patamar definitivo apenas em 2030, quando serão exigidos 3% dos votos nacionais, com 2% em pelo menos nove Estados, ou 15 deputados distribuídos por nove unidades da Federação.
Ainda assim, os efeitos já são benéficos. Partidos sem força eleitoral são obrigados a buscar votos, fundir-se, incorporar outras legendas ou formar federações.
A cláusula alcança o Fundo Partidário, mas ficar abaixo dela não impede, por si só, o acesso ao Fundo Eleitoral. Pela legislação atual, 2% desse fundo é repartido igualmente entre todos os partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). É assim que uma legenda irrelevante como o PCO, que elegeu apenas um vereador em seus 30 anos de existência, pode continuar recebendo milhões de reais para disputar eleições.
Este jornal é contra a existência dos Fundos Partidário e Eleitoral. Enquanto existirem, porém, é inconcebível que dinheiro público seja assegurado a partidos que não conseguem demonstrar um mínimo de representatividade nas urnas.
A cláusula de barreira mostrou mais uma vez que o caminho está correto. Depois do atraso provocado pelo STF, não há motivo para contemporizar outra vez. É preciso subir ainda mais o sarrafo.
O imperativo do ajuste fiscal
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A evidente necessidade de um duro ajuste fiscal para reverter a brutal deterioração das contas públicas do País foi a ausência mais gritante do debate eleitoral na disputa pela Presidência da República. Compreende-se: nenhum candidato se sente encorajado a defender no palanque que a sociedade aceite cortes e sacrifícios hoje para que, no futuro, todos possam desfrutar de melhores condições para consumir, investir e melhorar de vida. Mas quem quer que vença a eleição terá como maior e mais premente desafio lidar com o desarranjo fiscal porque disso depende a viabilidade do próximo governo. Mesmo os negacionistas fiscais do atual governo petista sabem disso.
A despeito de termos uma carga tributária elevada para uma economia emergente, nossas despesas são maiores que as receitas há mais de dez anos, o que faz com que nossa dívida cresça exponencialmente. Foi precisamente em razão desse desequilíbrio, reconhecido quando o governo Dilma Rousseff enviou pela primeira vez uma proposta de orçamento deficitária ao Congresso Nacional, em agosto de 2015, que o País perdeu o grau de investimento concedido pelas agências de classificação de risco dias depois.
Desde então, o Brasil não foi capaz de registrar um superávit primário estrutural entre receitas e despesas. Isso pode parecer um problema menor ou uma obsessão de economistas e deste jornal, mas é a principal razão pela qual a taxa básica de juros está tão elevada há tanto tempo. É incompreensível, portanto, que esse assunto tenha passado completamente ao largo dos debates eleitorais na campanha presidencial deste ano, como se fosse uma questão lateral ou acessória para o País.
Nem mesmo diante de uma plateia qualificada, formada por alguns dos maiores empresários e executivos do País, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi capaz de falar abertamente sobre o tema nem de se comprometer com qualquer proposta concreta. Limitou-se, mais uma vez, a repetir sua surrada cantilena, segundo a qual sua mãe lhe ensinou tudo o que precisava saber sobre economia e recorreu a uma de suas máximas, tão óbvia quanto superficial, de que é preciso conciliar responsabilidade fiscal com demandas sociais.
Já seu adversário no segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), sinalizou a intenção de fazer um ajuste da ordem de 1,5 ponto porcentual do Produto Interno Bruto (PIB) e acenou com um “tesouraço” nas despesas públicas, o que é louvável, mas nem Flávio e nem sua equipe indicaram como pretendem transformar essas promessas em realidade. Além disso, terceirizaram as decisões e as responsabilidades ao Congresso, como se não fosse do Executivo a função de apresentar uma agenda para o País.
A estratégia é até compreensível, pois não há escolhas fáceis a serem feitas, e evitar temas controversos que possam tirar um único voto parece crucial em uma disputa tão acirrada como a atual. Governar, no entanto, é fazer escolhas, e o eleitor merecia mais clareza dos candidatos para decidir seu voto com consciência, sem surpresas nem arrependimentos.
Independentemente de quem vença a disputa presidencial, o País tem um encontro marcado com o ajuste fiscal em 2027. Não há como ignorar o aumento da dívida pública na proporção do PIB, de mais de 11 pontos porcentuais desde 2023. Essa não é uma agenda da direita ou da esquerda, mas uma agenda do País. Já protelamos demais essa discussão.
Rever os pisos constitucionais de Saúde e Educação e desvinculá-los das receitas, desatrelar benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo e ajustá-los conforme a variação da inflação, unificar e reorganizar programas sociais, proibir o pagamento de penduricalhos à elite do funcionalismo público, reduzir subsídios e benefícios fiscais e dar fim às emendas parlamentares são algumas das propostas que estão no debate público há anos.
Qualquer ajuste fiscal digno do nome terá de mexer em algumas dessas vacas sagradas para que possamos ter uma taxa de juros civilizada, que não contenha os investimentos nem o crescimento econômico. O País não suportará mais quatro anos de gambiarras e acomodações.
O ‘rebranding’ de Lula
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Desnorteado depois da pancada nas urnas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu um salve “urgente” nas redes sociais com três “recados” à militância petista. Primeiro, que tenham “humildade” e “não falem mal do eleitor que não votou na gente”. Depois, que sua candidatura é “a única antissistema” e que a “promiscuidade” do Supremo Tribunal Federal (STF) foi jogada nas suas “costas”. Por fim, que o crime organizado atua como uma “multinacional” e que lugar de bandido é na “cadeia”. Ou seja, Lula quer que o eleitor esqueça quem ele sempre foi: arrogante, não humilde; associado ao “sistema”, sobretudo ao STF; e leniente com o crime organizado.
Recorde-se que o PT “antissistema” que Lula acaba de inventar recebeu cinco dos últimos seis mandatos presidenciais. Por 18 anos, negociou orçamentos, costurou coalizões, manuseou estatais, distribuiu subsídios e aparelhou gabinetes por toda a República. Nos bastidores, engendrou grossos esquemas de corrupção, como o mensalão e o petrolão. O Congresso, que até outro dia era xingado de “inimigo do povo” pelos petistas, hoje é amigo do PT, embrulhando no atropelo, pelas mãos dos aliados de Lula nas presidências da Câmara e do Senado, pacotes eleitoreiros bancados pelo contribuinte. Uma legenda assim pode reivindicar muita coisa, exceto a credencial de rebelde em Brasília.
O governo escandalizado com a “promiscuidade” do STF passou quatro anos recorrendo a ele ora como polícia da democracia, para perseguir adversários, ora como terceira casa legislativa, para abater legislações que o desagradavam e empurrar goela abaixo as que o interessavam. Na campanha, suas tropas de choque togadas meteram todos os dedos na balança eleitoral. O presidente que agora se diz preocupado com o “critério” de indicação ao STF é o mesmo que indicou seu advogado pessoal.
Em 2022, Lula declarou que a vitória da tal “frente ampla”, que o colocou na Presidência, não era sua nem do PT, mas de um “imenso movimento democrático” contra o bolsonarismo. Tão logo se aboletou no Planalto, o hoje “humilde” Lula escanteou aliados, governou só com o PT e deu as costas a eleitores centristas, abraçando as pautas da esquerda antediluviana. Quatro anos depois, roga aos seus bate-paus que tratem com carinho os independentes de cujos votos agora precisa desesperadamente.
Chega a ser um insulto à inteligência e à memória. Em 2013, quando o PT vivia o auge do poder e da arrogância, a musa intelectual das esquerdas, Marilena Chauí, explicou num evento com caciques petistas, entre palmas da plateia e risos de Lula, que “odeia a classe média”, porque ela é um “atraso de vida”, “petulante” e “terrorista”; uma “abominação cognitiva”, “ética” e “política”, “porque ela é fascista”. Eis a velha pedagogia petista: quem vota no PT é esclarecido; quem não vota é “fascista”. Pior: se for pobre, é ingrato, razão pela qual o “pobre de direita”, que não vota no PT, já virou personagem folclórico nos tratados da intelligentsia petista.
Tal como o milagre da recente conversão em massa dos petistas à religiosidade popular, a autocrítica tem hora marcada: a das eleições. Mas São Lula está há tanto tempo embriagado de si mesmo que nem sequer sabe o que é humildade. A mesma postagem que a cobra da militância afirma que “não temos que procurar defeito entre nós”. Talvez porque, na sua cabeça, não há o que procurar.
O chefão petista pede agora três semanas de amnésia coletiva. A respeito da segurança pública, por exemplo, quer que o País inteiro esqueça que seus governos nada fizeram contra as organizações criminosas e que a militância lulopetista continua a glamourizar bandidos como heróis da luta de classes ou a retratá-los como subproduto das injustiças sociais. Tudo para tentar conquistar um eleitor já vacinado contra as imposturas de Lula.
O nome elegante dessa estratégia é “reposicionamento”. O vulgar é oportunismo. Lula pode trocar de discurso, de aliados, de inimigos, de princípios e até de biografia como quem troca de roupa. Mas não pode trocar de povo, e o recado das urnas ao presidente é que o brasileiro está farto de ser tratado como trouxa. Assim como a humildade dos petistas, a paciência do eleitor também tem prazo de validade.
Presidente da Alece pede reflexão após renovação de 56%: ‘Verificar onde erramos, onde acertamos’
Escrito por Marcos Moreira / DIARIONORDESTE
O presidente da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), o deputado estadual Romeu Aldigueri (PSB), pediu uma reflexão dos parlamentares diante da “renovação de metade do Parlamento”, confirmada após o pleito do último domingo (4).
A declaração considera os 26 deputados estaduais da atual legislatura que não retornarão para a Casa em 2027, número que deixa o índice de renovação em 56% — maior que os 45% de 2022. O total leva em conta os políticos que foram derrotados na busca pela reeleição e os que decidiram não disputar mais um mandato.
Durante coletiva nesta terça-feira (6), Romeu foi questionado se a taxa de atualização de mandatos mostraria uma insatisfação da população. O parlamentar defendeu, então, que é preciso “mensurar” os resultados.
“É importante que a gente, agora, entenda os números, que a gente faça o estudo sociopolítico dos números, a população está mostrando aí, pediu uma renovação de metade do parlamento. Isso precisa ser apreciado”, pontuou o presidente da Alece.
Recorde feminino
Ainda na entrevista, Romeu ressaltou a eleição de 14 mulheres como deputadas estaduais, um recorde no Legislativo cearense. O melhor resultado anterior havia sido em 2022, quando nove parlamentares foram eleitas.
Como mostrou o PontoPoder, das 14 deputadas eleitas neste pleito, cinco foram reeleitas e permanecerão na Assembleia para um novo mandato. As outras chegam à Casa pela primeira vez, e há ainda que esteja retornando depois de um período fora do Legislativo.
“30% da casa será composta de deputadas mulheres. Isso é extraordinário. Vem acrescentando, vem trazendo mais paridade, mais equidade de gênero. É muito importante isso. Então, eu estou extremamente feliz com esse incremento da bancada feminina”, destacou o presidente.
A precificação de Lula
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A reação do mercado à possível vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa pela Presidência da República expôs o preço do discurso de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra a responsabilidade fiscal. Bastou a divulgação do resultado do primeiro turno da eleição para que o Ibovespa, principal referência da Bolsa brasileira, subisse 7,7%, para 206,9 mil pontos, o dólar despencasse 4,12%, para R$ 5,0018, e a curva de juros futuros indicasse uma queda mais acentuada da Selic, próxima de 12% ao fim de 2027.
A euforia da segunda-feira abriu espaço para a realização de lucros ontem, com a Bolsa caindo, mas ainda acima da marca de 200 mil pontos. Câmbio e juros futuros, no entanto, sustentaram os efeitos do rali eleitoral ao menos por mais uma sessão. É, em suma, o reflexo da expectativa de que o senador, uma vez eleito, fará um ajuste fiscal da ordem de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a R$ 204 bilhões, segundo têm indicado seus assessores.
A meta é desafiadora, de modo que materializá-la exige mais que retórica. Até agora, sempre que confrontado sobre temas como o reajuste do salário mínimo, a reforma da Previdência e a desvinculação dos pisos constitucionais de Saúde e Educação, tanto o senador quanto a porta-voz econômica de sua campanha, Daniella Marques, escaparam pela tangente por receio de perder votos.
Mas se o senador ainda pode contar com o benefício da dúvida, de Lula o investidor já sabe exatamente o que deve e o que não deve esperar. O esforço de sua equipe econômica para convencer o mercado de que um eventual quarto mandato não será uma tragédia fiscal foi jogado pela janela quando o presidente disse não estar preocupado com a dívida pública e afirmou que o governo precisa “parar com a babaquice” de fazer superávit.
A recusa de Lula em dar qualquer aceno aos investidores revela uma incompreensão sobre o funcionamento do mercado financeiro que um presidente em busca do quarto mandato já não pode mais se dar ao luxo de ter. Neste momento, tudo que os investidores querem é um sinal de fumaça na direção de contas públicas em ordem, dívida mais comportada e alguma segurança jurídica.
Flávio sabe disso e surfa nessa onda sabendo que a trégua tem prazo de validade. Bolsa em alta, juros civilizados e dólar mais baixo requerem propostas concretas e corajosas. Logo, não se pode condenar quem desconfie da disposição de Flávio em fazer o ajuste fiscal da ordem que o País precisa, como disseram ao Estadão o ex-diretor do Banco Central (BC) Alexandre Schwartsman e o ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do BC Henrique Meirelles.
A submissão de medidas impopulares ao Congresso é um teste político para qualquer presidente. Ainda que disponha da força das urnas e de maioria confortável na Câmara e no Senado, a aprovação dessas propostas no Congresso depende de negociações e, sobretudo, de sua liderança e convicção pessoais sobre a importância do avanço de uma agenda econômica para o futuro do País.
Há fundadas dúvidas de que Flávio esteja à altura desse desafio, mas, com um adversário que diz o que Lula diz, o senador pode se permitir jogar parado.
O eleitor julgou o Supremo
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O resultado das eleições gerais admite muitas leituras. Uma, em particular, é incontornável: o papel do Supremo Tribunal Federal (STF) como um dos mais importantes vetores de voto em 2026. Flávio Bolsonaro (PL) chegou à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno, e os dois disputarão a Presidência da República no próximo dia 25. Parte dessa história é explicada pelo fastio com o lulopetismo e com uma esquerda agressiva que perdeu a capacidade de se conectar com os anseios da maioria dos brasileiros. Mas o empurrão final à direita, sobretudo àquela que pretende enquadrar o STF, foi dado, convenhamos, pela própria Corte.
Os números do Senado não deixam dúvida. Das 54 cadeiras em disputa, o PL de Flávio Bolsonaro conquistou 19 e terá, a partir de 2027, a maior bancada da Casa, com 28 senadores. O PT elegeu apenas 6. Um levantamento do Estadão mostra que ao menos 31 dos senadores eleitos concordam, total ou parcialmente, com o impeachment de ministros do STF. Número igual apoia a fixação de mandato para os integrantes da Corte. Não se chega a isso por acaso. Uma pauta que até outro dia se restringia à franja mais radical do bolsonarismo se tornou uma plataforma política vitoriosa de Norte a Sul.
O STF teve todas as oportunidades para se emendar por conta própria. Este jornal fez vários alertas. O tribunal poderia ter sido mais contido. Poderia ter se desvencilhado dos conflitos de interesses. Poderia ter resistido à tentação de ditar os rumos do País – prerrogativa da sociedade, por meio de seus representantes eleitos. Poderia, sobretudo, ter acolhido o anseio legítimo de muitos brasileiros pela investigação de ministros implicados no caso Master. Contudo, o STF preferiu a autoproteção.
O instinto de sobrevivência de alguns ministros se sobrepôs ao espírito público da instituição. Primeiro, de forma clandestina, na reunião que selou a blindagem de Dias Toffoli. Depois, à luz do dia, no vergonhoso espetáculo da sessão do dia 15 de setembro, que, por um pas de deux procrastinatório protagonizado por Gilmar Mendes e Flávio Dino, livrou Alexandre de Moraes de ser investigado por sua suposta prestação de serviços ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Em ambos os casos, o STF virou as costas para o Brasil que só pedia que aos ministros fosse dado o mesmo tratamento dispensado a qualquer cidadão: que fossem investigados à luz da suspeita de crimes.
Como se não bastasse, em guerra intestina por poder, o STF se comportou desabridamente como parte interessada no resultado do pleito. O eleitor viu ministros da Corte atropelarem o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) quando seus interesses políticos estiveram sob risco. Viu também, às vésperas da abertura das urnas, ministros do STF e do TSE frustrarem sua expectativa de ver o último debate entre candidatos à Presidência da República antes do primeiro turno.
Diante de tudo isso, o resultado de domingo passado é, além de um aval ao bolsonarismo, uma moção de censura ao Supremo. E censura não é sinônimo de revanche. O impeachment é remédio extremo, mas está previsto na Constituição. E se antes esse era um assunto marginal no País, hoje é tema corrente graças ao próprio Supremo. Ao negar à sociedade a possibilidade de investigação de seus pares, os ministros entregaram a uma massa de eleitores a bandeira da moralidade pública e, principalmente, a da defesa da igualdade de todos perante a lei, ensejando um voto contra tudo que represente um arranjo entre poderosos em desfavor do melhor interesse público.
Embora escasso, ainda há tempo para que a Corte, finalmente, entenda o que se passou. Um código de ética digno do nome, o fim de decisões monocráticas que se perpetuam sem deliberação colegiada e a disposição de submeter os ministros ao mesmo escrutínio legal válido para todos os cidadãos fariam mais pela defesa do STF do que qualquer medida externa. Mas, se insistir na soberba e no alheamento à realidade que o cerca, o STF será reformado de fora para dentro, por um Senado eleito claramente com esse propósito. Ao fim e ao cabo, o eleitor disse na urna que não admite um Poder que se vê acima do bem e do mal na República.

