O Governo dribla decisão de Dino e retém R$ 731,9 milhões da CVM em reserva
O governo Lula colocou R$ 731,9 milhões do Orçamento de 2027 previstos para a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) em reserva, restringindo o uso de recursos que o ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou que fossem disponibilizados para o órgão regulador do mercado de capitais.
A decisão foi tomada com base em uma interpretação do Ministério do Planejamento sobre o limite para o crescimento das despesas vinculadas no ano que vem.
Segundo parecer do ministério obtido pela Folha, a decisão de Dino não determina que os valores arrecadados com taxas de fiscalização pela CVM sejam convertidos automaticamente em gastos da autarquia.
Com isso, o governo colocou o recurso na chamada reserva de contingência, o que significa que os R$ 731,1 milhões estão previstos no Orçamento, mas não podem ser efetivamente executados enquanto permanecerem nessa classificação.
A decisão do ministro Flávio Dino havia levado a uma expectativa na autarquia de que o montante pudesse ser liberado na integralidade, já que o próprio governo estima que os recursos arrecadados pela CVM podem ser ainda maiores e chegar a R$ 914 milhões no próximo ano.
Em maio, na esteira das revelações do caso Master, em que os órgãos foram alvo de críticas por não terem agido antes contra as fraudes, Flávio Dino determinou que a arrecadação com a taxa de fiscalização cobrada pela CVM fosse destinada ao próprio órgão, sem retenção pelo Tesouro.
Em julho, como resposta à demanda de Dino, o governo apresentou um plano emergencial de reestruturação da CVM, em que se compromete a remontar o órgão e contratar pessoal, sem fixar um valor a ser repassado.
O plano prevê 19 medidas para o período de 2027 a 2030, distribuídas em cinco eixos. Entre elas estão a realização de concurso público, a retomada e expansão de inspeções presenciais, a criação de uma plataforma integrada de dados e inteligência supervisora e o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial para gestão e supervisão.
Conforme mostrou a Folha, o governo também expandiu os orçamentos da CVM, do Banco Central e do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) no Orçamento 2027 encaminhado ao Congresso.
De acordo com informações da autarquia, a intenção seria utilizar os recursos em ações de fiscalização e regulação do mercado, bem como no aprimoramento da estrutura em unidades regionais, como São Paulo.
A trava foi levantada em razão de uma reforma recente no arcabouço fiscal, regra que disciplina as despesas federais. O governo Lula propôs e foi aprovada no Congresso uma norma que veda a expansão de gastos vinculados a receitas em ritmo superior ao do arcabouço (2,5% acima da inflação).
Como as despesas da CVM estão vinculadas à sua arrecadação com taxas, elas também estariam limitadas à regra.
Procurado, o Ministério do Planejamento admitiu que o repasse à CVM ficou limitado pela nova regra do arcabouço fiscal. A aplicação de todo o montante, informou, "ainda carece de parecer de força executória no Poder Executivo".
O Ministério da Fazenda disse considerar que está cumprindo "as decisões do STF e busca fortalecer a atividade regulatória". "No entendimento do governo, atende aos ditames constitucionais e legais, assim como aos objetivos da decisão no âmbito da ADI [ação direta de inconstitucionalidade]", afirmou.
O governo considera que os valores já disponíveis para uso pela CVM, de R$ 481,2 milhões, permitem o cumprimento do plano firmado com o STF para a melhoria da autarquia, preservando os recursos necessários para as medidas de fiscalização consideradas indispensáveis pelo STF.
Quando homologou o plano apresentado pelo governo, Flávio Dino estabeleceu medidas para eliminar gargalos na fiscalização, ampliar a prevenção de irregularidades e fraudes com tecnologia. Na última semana, o ministro também determinou que o Ministério da Fazenda coordene um processo de revisão das normas de fiscalização de fundos de investimento, bem como mandou a Polícia Federal apurar interferências de autoridades no órgão.
Integrantes do Executivo ouvidos sob a condição de anonimato afirmam que a autarquia não seria capaz de executar todo o recurso, caso destinado na integralidade, além de defenderem que há conflitos jurídicos entre a decisão de Dino e o arcabouço fiscal. Com essa decisão, argumentam, o STF teria criado uma nova exceção à regra fiscal.
Em parecer apresentado ao STF em 22 de setembro, a PGR (Procuradoria-Geral da República) afirmou que o plano apresentado pela União para a CVM não atende integralmente às diretrizes fixadas pela Corte.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, disse que a União destina menos recursos à CVM do que o previsto com a taxa de fiscalização. A manifestação, no entanto, não trata especificamente do encaminhamento orçamentário que colocou R$ 737,9 milhões em reserva.
O parecer também apontou que o plano não detalha suficientemente a cooperação da CVM com órgãos como Banco Central, Coaf, Ministério Público, Polícia Federal e Receita Federal e não apresenta o mapeamento das chamadas "zonas cinzentas" da regulação, com definição clara das áreas de atuação conjunta na fiscalização de inovações financeiras.
Governo dribla decisão de Dino e retém R$ 731,9 milhões da CVM em reserva
O governo Lula colocou R$ 731,9 milhões do Orçamento de 2027 previstos para a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) em reserva, restringindo o uso de recursos que o ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou que fossem disponibilizados para o órgão regulador do mercado de capitais.
A decisão foi tomada com base em uma interpretação do Ministério do Planejamento sobre o limite para o crescimento das despesas vinculadas no ano que vem.
Segundo parecer do ministério obtido pela Folha, a decisão de Dino não determina que os valores arrecadados com taxas de fiscalização pela CVM sejam convertidos automaticamente em gastos da autarquia.
Com isso, o governo colocou o recurso na chamada reserva de contingência, o que significa que os R$ 731,1 milhões estão previstos no Orçamento, mas não podem ser efetivamente executados enquanto permanecerem nessa classificação.
A decisão do ministro Flávio Dino havia levado a uma expectativa na autarquia de que o montante pudesse ser liberado na integralidade, já que o próprio governo estima que os recursos arrecadados pela CVM podem ser ainda maiores e chegar a R$ 914 milhões no próximo ano.
Em maio, na esteira das revelações do caso Master, em que os órgãos foram alvo de críticas por não terem agido antes contra as fraudes, Flávio Dino determinou que a arrecadação com a taxa de fiscalização cobrada pela CVM fosse destinada ao próprio órgão, sem retenção pelo Tesouro.
Em julho, como resposta à demanda de Dino, o governo apresentou um plano emergencial de reestruturação da CVM, em que se compromete a remontar o órgão e contratar pessoal, sem fixar um valor a ser repassado.
O plano prevê 19 medidas para o período de 2027 a 2030, distribuídas em cinco eixos. Entre elas estão a realização de concurso público, a retomada e expansão de inspeções presenciais, a criação de uma plataforma integrada de dados e inteligência supervisora e o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial para gestão e supervisão.
Conforme mostrou a Folha, o governo também expandiu os orçamentos da CVM, do Banco Central e do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) no Orçamento 2027 encaminhado ao Congresso.
De acordo com informações da autarquia, a intenção seria utilizar os recursos em ações de fiscalização e regulação do mercado, bem como no aprimoramento da estrutura em unidades regionais, como São Paulo.
A trava foi levantada em razão de uma reforma recente no arcabouço fiscal, regra que disciplina as despesas federais. O governo Lula propôs e foi aprovada no Congresso uma norma que veda a expansão de gastos vinculados a receitas em ritmo superior ao do arcabouço (2,5% acima da inflação).
Como as despesas da CVM estão vinculadas à sua arrecadação com taxas, elas também estariam limitadas à regra.
Procurado, o Ministério do Planejamento admitiu que o repasse à CVM ficou limitado pela nova regra do arcabouço fiscal. A aplicação de todo o montante, informou, "ainda carece de parecer de força executória no Poder Executivo".
O Ministério da Fazenda disse considerar que está cumprindo "as decisões do STF e busca fortalecer a atividade regulatória". "No entendimento do governo, atende aos ditames constitucionais e legais, assim como aos objetivos da decisão no âmbito da ADI [ação direta de inconstitucionalidade]", afirmou.
O governo considera que os valores já disponíveis para uso pela CVM, de R$ 481,2 milhões, permitem o cumprimento do plano firmado com o STF para a melhoria da autarquia, preservando os recursos necessários para as medidas de fiscalização consideradas indispensáveis pelo STF.
Quando homologou o plano apresentado pelo governo, Flávio Dino estabeleceu medidas para eliminar gargalos na fiscalização, ampliar a prevenção de irregularidades e fraudes com tecnologia. Na última semana, o ministro também determinou que o Ministério da Fazenda coordene um processo de revisão das normas de fiscalização de fundos de investimento, bem como mandou a Polícia Federal apurar interferências de autoridades no órgão.
Integrantes do Executivo ouvidos sob a condição de anonimato afirmam que a autarquia não seria capaz de executar todo o recurso, caso destinado na integralidade, além de defenderem que há conflitos jurídicos entre a decisão de Dino e o arcabouço fiscal. Com essa decisão, argumentam, o STF teria criado uma nova exceção à regra fiscal.
Em parecer apresentado ao STF em 22 de setembro, a PGR (Procuradoria-Geral da República) afirmou que o plano apresentado pela União para a CVM não atende integralmente às diretrizes fixadas pela Corte.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, disse que a União destina menos recursos à CVM do que o previsto com a taxa de fiscalização. A manifestação, no entanto, não trata especificamente do encaminhamento orçamentário que colocou R$ 737,9 milhões em reserva.
O parecer também apontou que o plano não detalha suficientemente a cooperação da CVM com órgãos como Banco Central, Coaf, Ministério Público, Polícia Federal e Receita Federal e não apresenta o mapeamento das chamadas "zonas cinzentas" da regulação, com definição clara das áreas de atuação conjunta na fiscalização de inovações financeiras.
Redemocratizar o quê, Flávio Bolsonaro?
É sempre preocupante quando um candidato com chances de chegar à Presidência da República afirma que pretende mudar, sem mais, a Constituição brasileira —sobretudo quando esse candidato tem o histórico político e familiar de Flávio Bolsonaro (PL).
Pior ainda, Flávio associou em discurso a mudança da Carta à intenção de "redemocratizar" o país, o que inevitavelmente suscita a questão sobre o que é democracia para o bolsonarismo, movimento cujo líder, Jair Bolsonaro, louva a ditadura militar e chegou a fazer apologia da tortura.
Nesta quarta (7), o senador pelo Rio viu-se instado a explicar as declarações do dia anterior. Citou exemplos de alterações constitucionais como redução da maioridade penal, reforma do Judiciário, reforma política, revisão da reforma tributária e fim da reeleição para presidente.
Essas são, em tese, propostas legítimas. A anomalia é a tentativa de espalhar a fake news de que o Brasil não vive uma democracia. Espera-se que essa tenha sido somente uma frase de efeito para os militantes.
Afinal, mesmo os abusos inegáveis cometidos pelo Supremo Tribunal Federal, no meio de eleições plenas e livres, estão longe de tornar o país não democrático.
O STF precisa, como reitera este jornal, de mandatos fixos para seus ministros, de um Código de Conduta e de uma redução drástica do alcance do foro especial para autoridades.
Essas e outras medidas visam fortalecer a corte, nunca privá-la de seu papel fundamental no sistema de freios e contrapesos entre os Poderes republicanos.
Agora favorito na corrida presidencial, Flávio também precisa apresentar seus planos econômicos, em especial para as calamitosas contas do governo.
A dívida pública alcançou 82,9% do PIB em agosto, mais de 11 pontos percentuais acima do registrado ao fim de 2022. O saldo do Tesouro neste ano ainda caminha para um déficit, e nessa toada o endividamento crescerá sem parar —impulsionando os juros e sendo por eles impulsionado, num círculo vicioso.
O debate eleitoral foi indigente até aqui. Se Luiz Inácio Lula da Silva (PT) qualificou como "babaquice" a necessidade de obter superávits fiscais, seu oponente evita se comprometer com medidas mais duras, porém necessárias, para o reequilíbrio do Orçamento, com medo de perder votos.
Enquanto auxiliares apresentam planos em encontros restritos com empresários, Flávio desautorizou publicamente a ideia de retirar a indexação de aposentadorias e outros benefícios sociais ao salário mínimo.
Limitou-se a falar em venda de imóveis, corte de ministérios e redução de burocracia, propostas nem de longe suficientes.
Uma boa providência para ao menos indicar a orientação de seu eventual governo seria apontar, desde já, seu nome para a pasta da Fazenda. Mais clareza se impõe com a aproximação do desfecho das eleições.
Cláusula de barreira continua a depurar quadro partidário
Por Editorial / O GLOBO
A exigência de que os partidos alcancem uma proporção mínima de votos para garantir acesso ao fundo partidário e à propaganda eleitoral gratuita, associada à proibição de coligações nas eleições proporcionais, continua a reduzir a fragmentação do Congresso e a depurar o sistema político-partidário brasileiro, aumentando sua coerência programática e ideológica. Ninguém está proibido de fundar uma legenda, registrá-la e eleger representantes. Mas o uso de dinheiro público para custear seu funcionamento é reservado aos partidos que conquistam alguma base eleitoral, princípio conhecido como “cláusula de barreira” ou “cláusula de desempenho”, coerente com regras em vigor nas democracias mais sólidas.
Ao todo, 20 partidos elegeram deputados federais no domingo. Mas o quadro partidário brasileiro que saiu das eleições deverá passar a ter 14 legendas e federações partidárias atendendo à cláusula de barreira em vigor desde 2017, a depender de recursos encaminhados à Justiça Eleitoral. É pouco menos da metade dos 30 partidos que elegeram representantes em 2018 e 60% dos 23 com representação em 2022. O total de “partidos efetivos” — conceito da ciência política usado para avaliar legendas com influência de fato no Parlamento — caiu de 16,5 em 2018 para dez em 2022 e 8,8 agora em 2026, ou aproximadamente 7,2 levando em conta que vários partidos formaram federações que atuam como um só partido, permitidas a partir de 2021. Já é um patamar compatível com algumas das democracias mais sólidas do planeta.
Doze legendas e duas federações não alcançaram a exigência mínima de 2,5% dos votos a deputado federal em pelo menos nove estados. A legenda não acaba, mas, sem fundo partidário e sem aparecer na propaganda eleitoral de rádio e TV, fica, nas palavras do cientista político Jairo Nicolau, “condenada a viver a pão e água”. É o que acontecerá com muitas nas próximas eleições municipais, em 2028, e nas gerais, em 2030, caso não se movimentem. Para sobreviver, os deputados podem tentar migrar para outras legendas. Há também a possibilidade de fusão de partidos ou criação de federações.
Foi compreensível a explosão na criação de partidos depois de 21 anos de ditadura militar. De um lado, era a expressão do desejo reprimido das diversas correntes políticas de se submeter ao voto popular. De outro, passou a atravancar a governabilidade. A multiplicidade de legendas exigia do governo federal longas, desgastantes e custosas negociações para aprovar seus projetos no Legislativo. Eram os tempos das “legendas de aluguel”, termo usado para designar partidos nanicos cujos donos transformavam seu apoio político em mero negócio. A pulverização partidária favorecia a corrupção.
Com o passar do tempo, consolidou-se a percepção de que era necessário limitar a entrada de legendas no Congresso, para que o Parlamento fosse mais fiel às correntes ideológicas da sociedade. Em 1995, os parlamentares aprovaram uma cláusula de barreira de 5%, idêntica à da Alemanha, e foi estabelecido um prazo elástico para sua entrada em vigor. Um ano antes disso, em 2006, o Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucionais as regras da cláusula, em nome da defesa do pluralismo. Foi um erro que o próprio Supremo reconheceu depois.
Foram necessários 11 anos de multiplicação de partidos no Legislativo, com seus efeitos deletérios, para que o Congresso aprovasse o requisito mínimo de 1,5% dos votos para deputados federais, a partir das eleições de 2018. A cláusula passou a 2% em 2022 e chegará ao teto de 3% em 2030. Mesmo que o partido não atinja a cláusula, o parlamentar pode exercer seu mandato. É indiscutível que o quadro partidário ficou mais nítido — e ficará ainda mais. A qualidade dos parlamentares, porém, continuará a depender da competência de partidos e eleitores.
STF paz e amor
Por Merval Pereira / O GLOBO
Depois do resultado do primeiro turno da eleição presidencial, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, mais conhecido por Xandão por sua fama de durão, teve um ataque de bondade e tomou decisões que chamam a atenção: arquivou processos envolvendo blogueiros bolsonaristas, como Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio, e o ex-deputado Marcos do Val — todos no inquérito das fake news — e aliviou as condições da prisão da Débora do Batom, que poderá ir para casa.
O vírus da complacência também atacou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, que autorizou o vencedor do primeiro turno, senador Flávio Bolsonaro, a visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Outro ministro, Gilmar Mendes, que justifica sua frieza diante dos fatos dizendo ser “um enfermeiro que já viu muito sangue”, amoleceu o coração e arquivou a investigação por estupro contra o deputado Alfredo Gaspar, candidato a vice na chapa de Flávio.
Não existe ainda acordo oficial, mas evidentemente o STF está mandando recados à direita, para um eventual governo que ainda necessita de confirmação num segundo turno, assumindo decisões que poderiam ter sido tomadas há muito tempo e eram proteladas. O que só confirma a politização do STF. As iniciativas mostram que decisões são tomadas de acordo com o ambiente do momento, com a tendência política, na constatação de para onde o vento sopra. É mais um reforço para evidenciar que o Supremo não tem mais base jurídica nas suas decisões; tem base política.
É um caminho muito perigoso. O STF não pode ser um tribunal partidário, de direita ou de esquerda. Também na direita vimos o ministro Kassio Nunes Marques anunciar que encaminharia a votação sobre a anulação da condenação do ex-presidente Bolsonaro, logo depois que o primeiro turno acabou. São motivações para que, numa anunciada reforma do Judiciário, o STF se transforme em Corte constitucional, transferindo a outras instâncias os crimes de quem tem foro privilegiado e vão parar no Supremo.
Diz-se que o timing da política não é igual ao da Justiça, mas vemos que os dois podem se encontrar em situações-limite como agora. Não é possível que um ministro, para favorecer a direita, imponha sigilo seletivo, e que outro, para defender a esquerda, intervenha no debate de uma empresa privada. Dizer que a extrema direita venceu a eleição é um engano. O país é conservador, e a extrema direita continua sendo minoritária. O problema é que Jair Bolsonaro é um extremista que descobriu o veio da centro-direita, que por sua vez não se sentiu representada no governo Lula. Embora tenha sido prometida uma união nacional, o governo Lula relegou a um segundo plano todos os de fora do PT — Simone Tebet, Marina e por aí vai.
O vice-presidente Geraldo Alckmin só entrou em cena no final, quando foi necessário um negociador de alto nível para discutir as taxações com os Estados Unidos, mas não teve nenhuma importância nas decisões do PT durante o governo. Era um “vice decorativo”. O eleitor que votou contra Lula vem de todos os lugares — há os que acham que ele é comunista, os que não gostam dele porque o PT é radical, os que consideram Lula amigo de ditadores, e há eleitores de direita que querem mudar o rumo do país.
Há também os exageradamente conservadores, que não dão espaço a outras tendências. É uma das dificuldades dos petistas: o partido não reconhece o adversário. E a relação do PT com os pobres é paradoxal. A esquerda em geral acha que não pode haver pobre de direita, porque todo pobre tem de votar em Lula, o pai dos pobres. A falta de empatia do PT com os adversários é muito grande. Não precisa se aproximar de quem defende tortura e tentou dar golpe no país, mas não é a maioria que pensa assim na direita. Lula não procurou e não abriu espaço para a direita em seu governo.
Apontar culpados por erros no 1º turno não é suficiente para Lula derrotar Flávio Bolsonaro
Por Malu Gaspar / O GLOBO
O resultado do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro (PL) em vantagem de 1,87 ponto percentual sobre Lula (PT), deixou a esquerda no modo desespero. Promoveu-se uma grande lavagem de roupa suja, com os caciques se acusando por algo que, ao fim, é responsabilidade de uma única pessoa: o próprio candidato. Se a comunicação falhou porque não ofereceu perspectiva, ou desprezou a força das redes sociais tratando a área como um grande parquinho a ser dividido entre correntes partidárias, não há outro responsável senão Lula. Do mesmo modo, se a campanha foi tocada por paulistas sem voto, e não por quem entende do riscado, como disse a ex-ministra Kátia Abreu, só há uma pessoa a cobrar.
Foi Lula quem preferiu empurrar com a barriga a discussão sobre a “promiscuidade do STF”, como ele mesmo definiu, em vez de encarar o problema desde o início e se afastar dos efeitos radioativos das revelações sobre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Nem depois da sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) de 15 de setembro, que escandalizou o Brasil com um show de prepotência e descaso pela lei, ele se movimentou para se afastar de seus aliados no tribunal.
Não dá para os mesmos que consideram Lula o maior estadista que o Brasil já viu agora afirmarem que ele é vítima da primeira-dama Janja, do ministro da Secom, Sidônio Palmeira, ou de outra força maior. Nem o próprio presidente pede isso, tanto que, no primeiro discurso depois da derrota, admitiu ter cometido erros e, em seguida, começou a gravar vídeos com os deputados influencers que foram a Brasília lhe dar tutoria digital.
A maior tarefa que Lula deu à militância parece ser justamente a mais difícil: ter humildade e não brigar com o eleitor que não votou nele, já que a matemática do primeiro turno mostra que, mais que fazer os eleitores irem às urnas, será preciso virar voto para ganhar de Flávio.
Imediatamente, proliferaram vídeos, memes e posts de lulistas alertando que não chamassem eleitores de burros, não se referissem aos pequenos empreendedores como “CEOs de MEI”, nem tratassem os desencantados da classe C como “pobres de direita”. Virou um mantra dizer que é preciso conversar, convencer, ganhar o coração dos eleitores.
Acontece que isso não é novidade. Vem desde 2018, quando Fernando Haddad foi para o segundo turno em desvantagem de 16,7 pontos percentuais em relação a Jair Bolsonaro. Depois de constatar que não tinha dado muito certo passar a campanha ridicularizando isentões e bolsonaristas, a militância foi às ruas e praças munida de café e bolo para convidar os passantes a conversar sobre política.
Não funcionou pelo mesmo motivo que será difícil funcionar agora. Além de parecer oportunista, por ser bissexto, o papo com quem pensa diferente se dá quase sempre em tom condescendente, como se coubesse ao esquerdista esclarecido fazer o pobre de direita ver a luz que até hoje ignorou. Para piorar, o que se tenta defender é um Lula que preferiu governar com o tapetão do STF em vez de fortalecer a frente ampla que o elegeu e abrir diálogo real com a população.
Os lulistas costumam rebater tais críticas dizendo que Flávio representa um risco para a democracia, muito mais grave do que qualquer falha de Lula. O argumento tem seu apelo, dado o histórico de Jair e a promessa do filho de indultar o pai e perdoar os golpistas assim que tomar posse. Mas não sensibiliza eleitores da mesma forma que em 2022 — e não, a culpa não é da “grande mídia” que “normalizou” Bolsonaro e “abraçou o fascismo”.
Tudo o que os lulistas sabem sobre os desmandos de Jair na pandemia de Covid-19, os planos para dar um golpe de Estado, a subserviência ao colonialismo predatório de Donald Trump e o dinheiro que tomaram de Vorcaro para, segundo dizem, filmar a cinebiografia do ex-presidente foi relatado e reverberado pela imprensa. E mesmo assim a maior parte dos eleitores preferiu Flávio no primeiro turno.
Ficar repetindo que a “culpa é da mídia” é a mesma coisa que chamar o eleitor de burro. Denota arrogância e um grave déficit de compreensão sobre como deve funcionar uma democracia plena. Mas é mais fácil que fazer uma autocrítica profunda e trabalhar de verdade para revolucionar os próprios métodos.
Procurar culpados do lado de fora — o adversário, a mídia, as fake news, o ódio — pode ser confortável, mas não convence mais ninguém. Valorizar a democracia demanda, antes de mais nada, ter humildade para ouvir, e não exigir aplausos em nome de uma pretensa superioridade moral. O exemplo tinha de partir de quem já disputou sete eleições presidenciais e ganhou três, e Lula está cansado de saber disso. Mas talvez esteja cansado demais.

